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Secretário de Estado dos EUA considerou invadir Cuba em 1976

por — publicado 02/10/2014 09h27
Henry Kissinger considerou a possibilidade de invadir militarmente a ilha, pela decisão de Havana de enviar tropas a Angola, segundo documentos reservados divulgados nesta quarta-feira 1º
Karen Bleier / AFP
Henry Kissinger

O ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, em 2007

Washington (AFP) - O então secretário de Estado americano Henry Kissinger considerou a possibilidade de invadir militarmente e esmagar Cuba em 1976, pela decisão de Havana de enviar tropas a Angola, segundo documentos reservados divulgados nesta quarta-feira 1º.

De acordo com os documentos publicados pelo Arquivo Nacional de Segurança, Kissinger chegou a ordenar a elaboração de planos de emergência para invadir Cuba e alertar chefes militares americanos de que não haveria espaço para meias medidas.

O Arquivo divulgou nove documentos até agora secretos, que no total somam 116 páginas e mostram a reação revoltada de Kissinger à decisão de Cuba de enviar tropas a Angola no fim de 1975.

Na visão de Kissinger, a decisão cubana tinha um enorme impacto nas relações de Estados Unidos e União Soviética - aliada de Havana -, em especial no que se refere ao continente africano, na véspera das eleições presidenciais de 1976.

Um dos documentos reproduz uma conversa mantida por Kissinger com o então presidente Gerald Ford no Salão Oval da Casa Branca no dia 25 de fevereiro de 1976.

"Acredito que teremos que esmagar Castro", disse Kissinger a Ford em relação ao líder cubano Fidel Castro, acrescentando: "Mas provavelmente não poderemos fazer isso antes das eleições".

Semanas mais tarde, em 15 de março de 1976, no mesmo Salão Oval, Kissinger disse a Ford e a outros interlocutores que "mais cedo ou mais tarde teremos que quebrar os cubanos. Penso que temos que humilhá-los".

O temor de Kissinger era de que as tropas cubanas passassem a agir em outros países, além de Angola, que naquele momento estava sob ataque da África do Sul.

Se as tropas cubanas "se moverem à Namíbia ou Rodésia (país então não reconhecido, atualmente Zimbábue), sou a favor de que demos uma surra neles. Temos que pedir que saiam da África", disse Kissinger em uma reunião.

E se não forem embora?

"E se não forem embora?", perguntou o presidente Ford. "Então temos que bloqueá-los", respondeu o então secretário de Estado.

O conjunto de documentos também mostra que em janeiro de 1975 dois enviados de Kissinger se reuniram com dois emissários cubanos em um restaurante do aeroporto La Guardia, em Nova York, para explorar a possibilidade de uma abertura das relações.

Embora o diálogo tenha sido extremamente amigável, os cubanos deixaram claro que sem o fim ou ao menos o relaxamento do bloqueio não havia a possibilidade de avançar em um entendimento.

Na visão de Kissinger, desta forma Cuba não apenas desperdiçou uma oportunidade de iniciar uma reaproximação com os Estados Unidos, mas também enviou mais tarde naquele mesmo ano tropas a Angola.

No entanto, assessores militares alertaram Kissinger que "um confronto com Cuba é um passo evidente na direção de uma briga com a União Soviética", país com o qual naquele momento Washington tentava um entendimento que se tornou conhecido como "Détente".

Cuba iniciou a chamada "Operação Carlota" em novembro de 1975, com o envio das primeiras tropas a Angola para ajudar a responder os ataques a partir do Zaire (atual Congo) e da África do Sul. O último soldado cubano deixou Angola em 1991.

Enquanto isso, Ford disputou as eleições presidenciais americanas de 1976, mas perdeu para Jimmy Carter.

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