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Polônia

Se beber, não pedale

por Gianni Carta publicado 22/04/2009 12h36, última modificação 25/10/2011 13h39
O ciclista talvez tenha de ser punido mais severamente que o pedestre, mas ele não pode receber o mesmo tratamento dado pela Justiça ao motociclista e ao motorista de automóvel, caminhão e ônibus

O ciclista talvez tenha de ser punido mais severamente que o pedestre, mas ele não pode receber o mesmo tratamento dado pela Justiça ao motociclista e ao motorista de automóvel, caminhão e ônibus

Beba antes de pedalar na Polônia, e você corre o risco de pegar até dois anos de cadeia. Não é piada. A nova lei foi promulgada pela Corte Constitucional no início deste mês. De saída, a carteira de motorista do ciclista é confiscada. Isso, claro, se ele possuir uma. Os cerca de 2 mil “descarteirados” atualmente presos ficam, em média, doze meses atrás das grades. Na visão da Justiça polonesa, é considerado alcoolizado em um volante (ou guidão de bicicleta) alguém com 0,2 grama de álcool por litro no sangue. Ou dois pequenos copos de cerveja. 

Às vésperas de minha ida para a casa de campo de meus sogros em Brzowa, vilarejo situado 40 quilômetros ao sul de Cracóvia, fiquei inquieto com a nova legislação, com raízes em regras estabelecidas em 2000. Lá em Brzowa temos o saudável hábito de pedalar com as crianças até uma excelente piscina pública. Após a natação, costumamos almoçar num restaurante nas redondezas. Como saborear salsichas com repolho sem tomar uma ou duas cervejas Swiecz, antes de ir para casa numa bicicleta, apreciando vastos campos verdejantes? 

Telefono para meu sogro, jornalista de mão-cheia. “Leszek, te parece normal essa lei que pune ciclistas como se fossem motoristas de veículos motorizados?” “Sim”, ele retruca, impassível. 

Argumento que ela me parece rígida demais, pois não leva em conta diferentes contextos. “Você não conhece os poloneses suficientemente bem”, ele argumenta. “Aqui, infelizmente, só leis severas funcionam. E ainda mais quando envolvem álcool.”

Mergulho numa pesquisa sobre o assunto. Descubro que um juiz (e não um ciclista radical ou uma mãe solteira, ressalta o diário Gazeta Wyborcza) questionou a lei. O juiz chamado Jaroslaw Sielecki, de 37 anos, classificou a decisão da Corte Constitucional como “absurda” e “draconiana”. 

Sielecki sugere o seguinte. Se ciclistas embriagados usam músculos como os pedestres, eles deveriam receber multas e não mandados de prisão. O ciclista talvez tenha de ser punido mais severamente que o pedestre, mas ele não pode receber o mesmo tratamento dado pela Justiça ao motociclista e ao motorista de automóvel, caminhão e ônibus. 

A tese defendida por Sielecki parece fazer sentido. Quem entende diz que um ciclista precisa estar numa descida vertiginosa para exceder 100 quilômetros por hora. Na maioria dos casos, quanto mais ele beber, mais lentamente pedalará, isso quando não leva um tombo. Se a queda ocorrer na descida íngreme, e a 100 quilômetros por hora, adeus. Agora imagine o estrago provocado, na mesma descida, por um motorista de ônibus, após ter tomado uns tragos.

O Gazeta Wyborcza diz que a Polônia adotou as regras agora promulgadas pela Corte Constitucional antes de o país se tornar membro da União Europeia. Ou seja, Varsóvia precisava oferecer um maior nível de detenções para fazer parte do clube europeu. Os 2 mil ciclistas “criminosos” foram bastante úteis para recrudescer a massa de presidiários. Detalhe: o governo polonês gasta 12 milhões de euros para manter os ciclistas na prisão. A soma poderia corresponder a 250 quilômetros de novas pistas para bicicletas ao longo de ruas urbanas e rodovias. Segundo estudos, são raríssimos os acidentes de bicicletas em ciclovias. 

A legislação adotada na Polônia é rigorosa, quando comparada à de vizinhos europeus. Na Alemanha, é punido o motorista de automóvel com 0,5 grama ou mais de álcool por litro no sangue, e o ciclista com 1,6. Isso, claro, não quer dizer que o ciclista inebriado não deva ser punido. Campanhas contra pedalar sob o efeito do álcool devem ser incentivadas mundo afora. 

Um estudo realizado pela Johns Hopkins University afirma que um em cada três casos de acidentes ciclísticos fatais “pode ter” sido provocado por ciclistas sob o efeito de álcool. E, se o número de acidentes de pessoas alcoolizadas atrás de volantes decresceu 30% nos Estados Unidos, entre 1989 e 1999, graças a campanhas “não beba antes de dirigir”, a partir de 1975 o número de acidentes envolvendo ciclistas e álcool aumentou 65% naquele país. 

Dito isso, vale estressar. A punição de ciclistas deve refletir seu nível de intoxicação. Ou virão à tona leis contra surfistas, patinadores e esquiadores que tomarem duas cervejas. De uma coisa sei: em Brzowa não direi nazdrowie, saúde, antes de pedalar.