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Sarkozy de saia justa

por Gianni Carta publicado 15/07/2010 15h10, última modificação 25/10/2011 13h37
A filha de Liliane Bettencourt, mulher mais rica do país, quer proteger os bilhões da mãe, ameaçados. No rastro do dinheiro, o presidente está em xeque
Sarkozy de saia justa

Não é o bebê que lhe tira o sono, mas os índices de popularidade abissairs. Foto: Eric Feferberger/AFP.

No início, o assunto parecia saboroso para revistas de glamour e publicações de finanças. Françoise Bettencourt Meyers, filha da mulher mais rica da França, a herdeira da L’Oréal, Liliane Bettencourt, abria um processo contra o protégé da mãe, um dândi de 63 anos, François-Marie Banier.

O processo teve início na quinta-feira 1º. O sedutor teria se aproveitado da “fragilidade mental” da senhora de 87 anos, que vale 17 bilhões de euros. Ao longo de pouco mais de duas décadas, dela recebeu doações que somam 1 bilhão de euros.
Françoise não precisa de dinheiro: é milionária. Diz querer apenas proteger a mãe. Seu pai, sarkozista e falecido em 2007, também havia sido seduzido pelo dândi, o qual, vale sublinhar, tem um companheiro. Além disso, diz Françoise, o amor do pai pela mãe era “incondicional”. Por sua vez, Liliane diz que Banier lhe traz vida em uma existência monótona.

Graças a CDs contendo gravações clandestinas, registradas por um mordomo despedido pela bilionária da L’Oréal, e aos depoimentos de uma ex-contadora de Liliane, publicados nesta semana por um website, Mediapart, o caso parece envolver também o ministro do Trabalho, Éric Woerth. E o próprio presidente Nicolas Sarkozy. O qual, de acordo com a contadora, também teria recebido envelopes dos Bettencourt quando, nos anos 80 e 90, era prefeito de Neuilly, um rico bairro de Paris. Pior: Sarko teria se beneficiado do dinheiro, não declarado em sua campanha presidencial. Estaria em jogo sua carreira política?

Na quinta-feira 8, Claire Thibout, a ex-contadora de Bettencourt, retratou algumas de suas observações incendiárias para a carreira de Sarko. Ao vespertino Le Monde disse que “ela não havia dito que os envelopes dos Bettencourt eram entregues regularmente ao senhor Sar-kozy”. Antes, afirmara que Sarkozy era habitué na mansão dos Bettencourt. E que saía de almoços, quando ainda prefeito, com envelopes recheados de dinheiro. O site Mediapart, dirigido por um jornalista respeitado, alega ter gravações da entrevista com Thibout.
Sarko defende o ministro Woerth com unhas e dentes. O motivo? O presidente, dizem, poderia – e os CDs do mordomo aparentemente provam – ter elos com Liliane. A relação sinuosa provocaria uma ainda maior queda na aprovação pública do presidente, atualmente no seu mais baixo nível de popularidade: 26%, segundo a TNS-Sofres. Adendo: Sarko, enquanto presidente, não pode ser derrubado pelo Judiciário, pois goza de imunidade política. Isso, claro, a despeito do que acontecerá com Woerth.

Além de ser ministro e tesoureiro do partido de Sarkozy, a UMP, há oito anos, Woerth teria recebido, segundo a contadora (no primeiro depoimento), 150 mil euros líquidos de Bettencourt. Isso durante a campanha presidencial, em 2007. Segundo a lei francesa, doações não podem exceder 7,5 mil euros por ano. E apenas 150 euros podem ser líquidos. Dois terços dos franceses, segundo recente enquete, pedem a demissão de Woerth.

A situação é grave. E ainda mais grave porque o país vai mal do ponto de vista econômico e, por tabela, político. Seu nível de desemprego passa dos 10%. Nunca esse índice foi tão elevado. Num momento em que Woerth é o incumbido de aumentar a idade mínima da aposentadoria de 60 para 62 anos e de elevar os impostos por conta da crise econômica, o governo de Sarko, que se dizia “inatacável”, mostra seus tetos de vidro. Fragilíssimos.

Recentemente, Sakorzy exibiu dureza com gente que não respeita as regras de seu governo supostamente sadio. Despediu o secretário de Estado para a Cooperação e Francofonia, Alain Joyandet. O funcionário usou, em abril, um avião privado, por 116,5 mil euros, para presidir, na Martinica, uma conferência para a reconstrução do Haiti. Outro despedido foi Christian Blanc, secretário de Estado, que teria gastado cerca de 12 mil euros em charutos com dinheiro do contribuinte. Seu objetivo, disse o presidente, era mostrar que, em tempo de crise, os ministros devem servir de modelo.

Blanc, contudo, é homem resistente. Reembolsou 4,5 mil euros dos charutos que fumou. No entanto, o governo, nessa sua empreitada de limpar o quadro e reaver toda a soma gasta em charutos, independentemente de quem os fumou, quer a soma total. E como pode Blanc provar que fumou apenas um número de charutos equivalentes a menos de 5 mil euros? O ex-secretário de Estado, claro, lamentou o óbvio: o charuto simboliza uma certa arrogância. E, patético, indagou se seu destino teria sido o mesmo se ele tivesse gastado em cocaína.

Como se o exemplo de Blanc não bastasse, Rama Yade, secretária de Esportes, também caiu em tentação: hospedou-se num hotel cinco estrelas na África do Sul, após ter criticado a equipe francesa, aquele “ridículo” time qualificado por um gol de mão, por ficar concentrada em condições de luxo.
No fim das contas, o comportamento de futebolistas e ministros de Sarko parece em boa sintonia com a conduta do presidente. O “bling-bling” que celebrou a vitória eleitoral de Sarkozy com seus amigos ricos no caríssimo restaurante Fouquet’s ajudou a forjar essa imagem. Não é para menos que seus detratores o chamam de bling-bling.

Algumas perguntas ocorrem à mídia. Por exemplo, Woerth recebeu de Bettencourt 150 mil euros durante a campanha presidencial, em 2007? O diário Libération indaga: Florence Woerth, mulher do ministro, representa um conflito de interesses? Florence, especialista em investimentos em bolsa de valores, teria sido contratada pela Clymène, dirigida por Patrice de Maistre, empresa que gere os dividendos anuais de Madame Bettencourt. Parece que o ministro Woerth pediu a De Maistre um emprego para a mulher: 13 mil euros mensais, com bônus anual de 50 mil euros. Florence pediu demissão.
A senhora Woerth sabia que Madame Bettencourt, com uma fortuna de 17 bilhões de euros, tinha uma conta ilegal na Suíça? Sim ou não, por que Florence ia, com certa frequência, a Genebra? E sabia que Madame Bettencourt, maior fortuna do país, não foi controlada pelo Fisco desde 1995, apesar das suspeitas de fraude fiscal, em 2009? E estava a par do reembolso de 30 milhões de euros relativos aos impostos da senhora Bettencourt quando seu marido era ministro do Orçamento (até março de 2010)?
Conflito de interesses? Até o conservador diário suíco Le Temps fala de sua decepção com o presidente francês. No início, os franceses e o mundo neoliberal achavam que Sarko encarnava a solução. “Sua idade, sua energia, sua vontade de romper, sua bulimia de reformas e discurso sedutor baseado em valores do trabalho, e suas promessas de uma república inatacável.” E Sarko, para melhorar a causa dos neoliberais, fez aparentes milagres. Formou, por exemplo, um governo do qual participam políticos de todas as tendências ideológicas. Poderiam trabalhar juntos. Incrível.

Por exemplo, Bernard Kouchner, velho socialista sem futuro, aceitou o cargo de ministro do Exterior. Não fez nada, visto que Sarko executa pessoalmente seu trabalho, nos diz o editorialista do Le Temps. Recrutado no segundo turno das presidenciais de 2007, o socialista convertido em sarkozista Éric Besson mostrou-se incompetente. E vejam: um cargo foi criado para ele, ministro da Imigração e Integração da Identidade Nacional. E a ele, nascido na África, coube a formidável tarefa.

Além dos supostos elos entre o financiamento de Liliane Bettencourt e a campanha presidencial de Sakorzy, tudo gira em torno de altas somas. Como nos velhos tempos, envelopes continuam a ser entregues na surdina aos asseclas de Sarko. Mas não foi ele que prometeu uma República limpa?
Reina, portanto, o interesse por uma cultura “people” (“pipol”, na pronúncia francesa). Nesse contexto, a história de Bettencourt interessa: a filha de Liliane Bettencourt acusa Banier. Autor de sete romances, o primeiro escrito aos 22 anos, Banier conquistou a amizade de artistas do calibre de Salvador Dalí, Jean Genet e Samuel Beckett. Poliédrico, fotografou, entre outras, Isabelle Adjani e Lauren Bacall. Em 1987, capturou imagens de Liliane Bettencourt para a revista Egoiste.

Começa assim uma sólida amizade entre Liliane e Banier. Ele caçoa e venera o society. Com ou sem razão? Certo é que, com o dinheiro de Liliane, o escritor-fotógrafo comprou sete apartamentos no boêmio e fascinante bairro de Saint-Germain-des-Prés, logo atrás da praça Saint-Sulpice. Esses apartamentos foram reunidos em uma villa romana. Lá, convidados podem apreciar quadros, todos doados a Banier por Liliane: Matisse, De Chirico, Picasso, Léger, Mondrian...