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Sarko e os barões da mídia

por Gianni Carta publicado 24/10/2008 23h20, última modificação 25/10/2011 13h40
Sarkozy argumenta que os barões da tevê trariam capital e know-how para os diários e as revistas

Sarkozy argumenta que os barões da tevê trariam capital e know-how para os diários e as revistas

A notícia não poderia ser pior: Nicolas Sarkozy entrou na Justiça para retirar das prateleiras das livrarias o Manual Vodu Nicolas Sarkozy e mais o boneco à sua imagem. As doze agulhas são grátis. Corri para o quiosque do Said. Graças à aguda crise da imprensa escrita na França, para sobreviver quiosques vendem desde brinquedos até relógios – e apenas alguns jornais ralos, CDs e livros. 

Said, ex-professor universitário, “infelizmente” não havia recebido o Manual Vodu Sarkozy. Sorriso nos lábios, ele indagou: “Por que o senhor quer dar umas alfinetadas no nosso presidente?” Retruquei: “Nunca pratiquei vodu, mas seria um prazer espetar uns alfinetes nas suas famosas frases (estampadas no boneco). Por exemplo, eu enfiaria com gosto um alfinete no ‘Teste DNA’ (referente ao teste que poderá ser aplicado em imigrantes oriundos de países que não fazem parte da UE), outro no ‘170%’ (o porcentual do aumento do salário e despesas do presidente desde que chegou ao Élysée).” 

Cordato, Said argumentou que, em época de crise, um pouco de vodu poderia ser um alívio, e, de qualquer forma, humor não faz mal a ninguém. “E veja, Sarkozy processou os editores do Manual (K&B), e Ségolène Royal, para a qual dedicaram um kit com o manual, boneca e agulhas, não teve a mesma reação.” Sábio Said. Sugiro que a boneca Ségo mereceria uma alfinetada onde se lê Vive le Québec libre. Mais risos de Said. 

Indaguei-lhe se ele não considera a possibilidade de Super Sarko ter medo de mau-olhado. “Talvez”, ponderou Said. “Mas Sarkozy, isso está claríssimo, preocupa-se muito com sua imagem. Não é a toa que o chamam de Bling-Bling. O homem está o tempo todo na tevê.” Aliás, continuou Said, “a crise da imprensa e por tabela dos quiosques faz parte de um grande plano relacionado à difusão da imagem de Sarkozy”. 

Como assim? 

Said lembra que neste mês Sarkozy convocou mais de uma centena de experts para participar de uma conferência dedicada à concepção de um plano para salvar a imprensa escrita. Contudo, a conferência escamoteia outro objetivo de Sarko. De fato, o presidente já o explicitou: relaxar uma lei que proíbe uma única organização de ser dona de uma rede televisiva, de um jornal ou de uma estação de rádio, como é o caso da família Marinho no Brasil. 

Sarkozy argumenta que os barões da tevê trariam capital e know-how para os diários e as revistas. Por meio da emenda, Sarko pretende conferir maiores poderes aos seus amigos bilionários da mídia para, assim, poder difundir ainda mais sua imagem. Martin Bouygues, dono da TF1, a maior rede de tevê privada da França, ficaria eternamente grato ao presidente. Outro que promoveria Sarko seria Serge Dassault, dono do conservador Le Figaro. Prova de que Sarko ajuda prontamente os barões da mídia já foi dada. Neste ano, o presidente propôs banir comerciais na tevê pública e, assim, os anunciantes levariam seus comerciais para as redes de tevê privadas. 

Quanto à imprensa escrita, ela vai mal em toda a Europa (e mundo afora) em conseqüência da competição com a internet e os jornais gratuitos. Mas, na Europa, a imprensa francesa é aquela mais próxima do abismo. O maior diário francês, o Figaro, tem tiragem diária de 320 mil exemplares. A do equivalente britânico, The Daily Telegraph, é de 880 mil. Os diários nacionais britânicos têm o dobro da tiragem dos franceses.
E ironicamente a imprensa francesa é a mais ajudada pelo Estado na Europa. Anualmente o Estado transfere mais de 1 bilhão de euros em subsídios diretos e indiretos para a imprensa. O motivo? Esse sistema foi colocado em prática depois da guerra para se manter um certo controle sobre a imprensa. 

Além disso, os publishers têm outras dificuldades. Por exemplo, têm de usar a rede de distribuição NMPP (Nouvelles Messageries de la Presse Parisienne), dirigida por Arnaud Lagardère (outro amigo de Sarko). Por sua vez, aceitam as subvenções do Estado e os altos custos de impressão e distribuição para manter grupos estrangeiros de mídia fora do mercado francês. Em suma, os publishers querem mudar alguns aspectos que afligem a imprensa – ma non troppo. 

Said diz sabiamente que vai continuar diversificando seu negócio. “Quem sabe acabarei vendendo tapetes persas.” Bom orador, Sarko diz que uma “democracia não pode funcionar com uma imprensa à beira do precipício”. 

Pior ainda seria uma mídia nas mãos de dois ou três barões.