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FARC

Santa Ingrid

por Gianni Carta publicado 25/07/2008 15h47, última modificação 25/10/2011 13h40
Betancourt, supostamente de centro-esquerda, não vê nada de errado no fato de o ultraconservador Uribe tentar ser presidente

Betancourt, supostamente de centro-esquerda, não vê nada de errado no fato de o ultraconservador Uribe tentar ser presidente

No concerto na praça do Trocadéro, diante da Torre Eiffel, no domingo 20, Ingrid Betancourt gritou para a massa, estimada em 8 mil espectadores: “Chega de manter reféns (pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia)... Aceitem a mão estendida pelo presidente (Álvaro) Uribe. Deponham suas armas e soltem os reféns!” 

A franco-colombiana Betancourt, de 46 anos, ex-candidata à Presidência da Colômbia em 2002, foi libertada no início deste mês – supostamente pelos serviços de inteligência colombianos –, após mais de seis anos detida na selva colombiana pelas Farc. 

A rádio Suisse Romande e o diário, também suíço, Le Temps, alegam, “por fontes seguras”, que, a partir de transação iniciada nos Estados Unidos, entre 5 milhões e 20 milhões de dólares teriam sido entregues às forças revolucionárias. 

Logo após sua libertação, ao lado de mais 14 reféns, Betancourt rumou para Paris, onde cresceu (o pai era diplomata), e, em conseqüência de seu casamento com um diplomata francês (com o qual teve uma filha e um filho), obteve a dupla cidadania. 

Na chegada de Betancourt na Capital das Luzes teve início uma nada surpreendente campanha de marketing (as “luzes” fazem sentido), da qual fizeram parte o presidente Nicolas Sarkozy (o qual fez vigorosa campanha para liberar Betancourt) e a própria ex-candidata à Presidência da Colômbia.

Sarko e sua mulher turinesa, Carla Bruni, receberam a esguia Betancourt aos pés da escada do avião. Imagens fantásticas que revelaram, mais uma vez, a inclinação de Sarko e La Bruni para cenas teatrais – ou, como se diz agora, Sarko shows. 

De fato, um detalhe importante confirma essa propensão cinematográfica dos Sarko, por vezes até não isenta de atos truculentos. Bernard Kouchner, fundador dos Médicos Sem Fronteiras, ex-socialista, e agora, em fim de carreira, mas seduzido por Sarko a se tornar ministro do Exterior (uma tática do presidente para mostrar ao mundo que não existem mais ideologias), foi resgatar Betancourt em Bogotá. Uma vez em Paris, Kouchner teve de permanecer no avião – até o término do Sarko show. O ministro do Exterior, homem de grande volatilidade ideológica devido ao seu ego inflado, merece este fim ignóbil. 

Por sua vez, Betancourt é uma mulher corajosa porque acreditava (e acredita) no diálogo com as Farc e, ao mesmo tempo, criticava a corrupção de governos anteriores. Mas à parte o fato de ter sido deputada e senadora de centro-esquerda, ela não tinha as mínimas chances de ser eleita presidente, quando seqüestrada pelas Farc, em 2002. 

O que a torna agora tão popular e com chances maiores de se tornar presidente da Colômbia em 2010 ou de ganhar o Prêmio Nobel da Paz? Seria o fato de ela ter sobrevivido a seis anos de tormentos inenarráveis? 

A campanha midiática de Betancourt, na Europa, não faz a Colômbia evoluir. Na França, Sarko a condecorou com a Légion d’Honneur, a mais alta condecoração honorífica francesa, que recompensa méritos rendidos à Nação. O que fez Betancourt para a França?

Muito mais preocupante é o fato de Betancourt reforçar uma tendência reacionária na Colômbia, por meio de suas declarações políticas e religiosas. Como ressaltou Maria Jimena Duzán, da revista Semana, publicação de Bogotá, a Colômbia é, devido às Farc, cada vez mais reacionária e de uma religiosidade católica demasiado exacerbada – e igualmente reacionária. 

Duzán lembra que a Constituição colombiana de 1991 é laica. E conta que Uribe, antes de falar ao vivo na tevê sobre a libertação, mandou levarem ao ar três ave-marias. Em Paris, Betancourt caminha com um rosário, feito com barbantes no cativeiro. Diz, com ares de Madre Teresa, ter rezado muito, e para a tevê BBC revelou não ter raiva de seus detentores. Ela quer negociar a libertação de centenas de reféns, e não só na Colômbia, mas mundo afora. Donde o possível Nobel da Paz. 

Betancourt, supostamente de centro-esquerda, não vê nada de errado no fato de o ultraconservador Uribe tentar ser presidente (apesar de a Constituição, por ora, não permitir) pela terceira vez, em 2010. Ao mesmo tempo, ela não diz se quer disputar a sucessão. 

Será que, não tivesse sido seqüestrada, ela apoiaria outra possível candidatura de Uribe? O atual presidente tem elos com paramilitares, cujos métodos são tão bárbaros quanto os das Farc. Aparentemente, Betancourt perdoa todos. Veremos como se comportará dentro de dois anos.