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Sabedoria popular entre xeques

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 10/02/2011 14h20, última modificação 10/02/2011 17h23
Líderes árabes pedem o adiamento da III cúpula de chefes de Estado da América do Sul-Países Árabes que aconteceria em Lima, entre 13 e 16 de fevereiro. Por Viviane Vaz, direto de Jerusalém
Sabedoria popular entre xeques

Líderes árabes pedem o adiamento da III cúpula de chefes de Estado da América do Sul- Países Árabes que aconteceria em Lima, entre 13 e 16 de fevereiro. Os últimos acontecimentos fizeram os governantes pensar duas vezes antes de vir à América Latina. Por Viviane Vaz. Foto: Pedro Ugarte/AFP

Líderes árabes pedem o adiamento da III cúpula de chefes de Estado da América do Sul- Países Árabes que aconteceria em Lima, entre 13 e 16 de fevereiro

Diz a sabedoria popular que quem foi à roça, perdeu a carroça. E quem foi ao vento, perdeu o assento. E com receio de perder o lugar nos governos de países árabes, muitos líderes da região decidiram não comparecer à terceira cúpula América do Sul - Países Árabes (Aspa). A reunião ocorreria em Lima, Peru, entre os dias 13 e 16 de fevereiro, para fortalecer os laços políticos e econômicos dos dois blocos regionais, mas a Liga Árabe preferiu adiar a cúpula para abril. A queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali na Tunísia, a dissolução do governo do premiê Saad al Hariri no Líbano, e o clamor popular das últimas duas semanas para derrubar o ditador egípcio Hosni Mubarak fizeram os governantes pensar duas vezes antes de ir a Lima. Entre os árabes também há o provérbio: “quem deixa sua casa, perde seu prestígio”.

O secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Ben Hali, confirmou nesta quarta-feira que a decisão de cancelar a reunião com os líderes sul-americanos se deve aos acontecimentos no Egito, onde se encontra a sede da organização. Ben Hali ressaltou que a Liga Árabe contatou todos os países da América do Sul para acertar o adiamento do encontro. Segundo apurou a Carta Capital, o Itamaraty foi consultado sobre o tema na semana passada.

Na segunda-feira, o presidente peruano e anfitrião do encontro, Alan Garcia, já tinha anunciado a mudança de data e disse que compreendia o pedido da Liga Árabe. Em espanhol também há o ditado “quien se va a Sevilla, pierde su silla” e “él que se va de Quito, pierde su banquito”. “Ninguém quer deixar seu escritório, protestos novos e inesperados podem acompanhá-los à reunião e para o jornalismo internacional seria um festival de interrogações”, analisa o colunista peruano do jornal La República, Mirko Lauer. “Devem ter calculado que não havia maneira de mostrar sua melhor cara”, completa.

Se a reunião de cúpula se realizasse na data prevista, os participantes não teriam como se esquivar de uma declaração conjunta em defesa da democracia. A criação do Estado palestino também seria um assunto de destaque na reunião, após receber o reconhecimento expresso de vários países sul-americanos nos últimos três meses, entre eles do Brasil. O aumento do preço dos alimentos e o desemprego entre os jovens também mobilizariam as discussões. Um diplomata árabe ouvido pela Carta Capital diz que as turbulências são uma “resposta lógica” à corrupção, à extrema pobreza e à falta de respeito aos direitos humanos e às liberdades individuais. “No mundo árabe desapareceu o Estado com planos estratégicos para servir ao povo. O Estado se colocou como Estado de família --que é a família do presidente, que tem tudo e controla tudo”, disse o funcionário.

O desafio agora é encontrar uma nova data para a cúpula Aspa. A Liga Árabe já tem prevista uma reunião com seus 22 membros para o final de março. Os países árabes devem chegar a posições conjuntas sobre a crise política e econômica na região, antes de seguirem rumo à América do Sul. Por outro lado, a nova data também não deve se aproximar das eleições presidenciais no Peru. Garcia termina seu mandato em 28 de julho e tem um grande interesse em fechar o governo com chave de ouro em uma cúpula de 33 países. Ele sugeriu à Liga Árabe a nova data de 20 de abril.

O chanceler peruano, José Antonio García Belaunde, prevê que o evento seja realizado entre 15 e 30 de abril e ressaltou que os países árabes “deixaram claro que não queriam suspender a cúpula sem ter uma data”. “Espero que para então a normalidade tenha voltado a certos países da região e possamos fazer este encontro para o qual tinham confirmado a assistência todos os presidentes da América do Sul e um número significativo de emires, reis, príncipes coroados, primeiro-ministros e ministros do mundo árabe”, disse Belaunde à agência Andina.

A cúpula Aspa em fevereiro seria a estreia da presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, em um forum multilateral. A secretaria de imprensa da Presidência diz que Dilma ainda pretende participar do evento, mas que vai depender da agenda dos próximos meses. No mundo árabe, o Brasil já tem acordos de livre comércio com o Egito, a Síria e a Palestina, e durante a reunião da Aspa devem ser assinados novos tratados com a Jordânia, os Emirados Árabes, Omã e Marrocos.

Perdas e ganhos

O diretor-geral de Promoção Econômica do Ministério de Relações Exteriores do Peru, Jaime Pomareda, afirmou à imprensa peruana que o país investiu muito em “recursos humanos, financeiros e logísticos” para o evento --um total de 14 milhões de soles (cerca de US$ 5 milhões). O ministro de Comércio Exterior e Turismo do Peru, Eduardo Ferreyros, avaliou que a cúpula pode significar US$ 3 bilhões de investimentos para a região, com a inscrição de 356 empresários. A maioria provêm dos Emirados Árabes Unidos, do Chile, Brasil e Argentina.

Se a crise no Egito atrapalhou os negócios de muitos líderes árabes e sulamericanos, por outro, pode beneficiar a um presidente da América do Sul: o venezuelano Hugo Chávez. Russ Dallen, economista do banco de investimentos BBO Financial Services de Caracas, disse em entrevista ao jornalista argentino Andrés Oppenheimer que se houver uma transição pacífica de poder no Egito e os preços se mantiverem estáveis, a Venezuela pode vir a ganhar US$ 5,1 bilhões adicionais. Se a agitação se estender ao principais produtores do Oriente Médio e o barril voltar a US$ 150, Dallen calcula que a Venezuela lucraria mais US$ $35 bilhões. E a recuperação econômica com os petrodólares poderiam ajudar a Chávez, há 12 anos no poder, a vencer mais uma eleição em 2012.

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