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Retrato da pobreza em Nova York

por Eduardo Graça — publicado 16/11/2011 08h45, última modificação 16/11/2011 09h00
Desde o início da recessão, as famílias nova-iorquinas, em média, viram seus orçamentos diminuírem 5% e um aumento ainda mais impressionante da desigualdade social
nova york

Desde 2008, as famílias nova-iorquinas viram seus orçamentos diminuírem 5% em média e um aumento impressionante da desigualdade social . Foto: Wilhelmja

O rosto da pobreza nova-iorquina é negro, jovem e vive no Bronx. Ou, ao menos como escancara o documentário To Be Heard, esta é a sua faceta mais explícita. Sucesso de crítica, eleito pelo New York Times como um dos melhores documentários do ano nos Estados Unidos, dono de uma coleção impressionante de prêmios no circuito de festivais, o filme, que entrou em cartaz na primeira semana de novembro em Los Angeles, acompanha a vida de três adolescentes nova-iorquinos – Karina Sanchez, Pearl Quick e Anthony Pittman – engajados no projeto Power Writing, idealizado por educadores decididos a transformar a vida dos meninos pobres da ilha por meio da poesia.

“A miséria americana começa na escola. O retrato da deterioração do nosso sistema de ensino público, outrora uma prova mais ou menos fiel da sociedade de classe média vendida pelo sonho americano, é hoje o símbolo maior de nossa decadência. A pobreza da ignorância é nossa maior chaga”, diz um dos diretores e produtores do filme, Roland Legiardi-Laura.

Os números atestam o que se vê na tela: em setembro, a prefeitura anunciou que o ritmo do aumento da pobreza em Nova York foi ainda maior do que no restante do país, com a maior metrópole americana afetada diretamente pela recessão. De acordo com o Censo Nacional, atualizado em 7 de novembro, vive abaixo da linha de pobreza 1,6 milhão de nova-iorquinos, aumento de 1,4% entre 2009 e 2010 (ou 75 mil cidadãos a mais), no que já é o maior salto para baixo na economia da cidade em duas décadas.

Desde o início da recessão, há quatro anos, as famílias nova-iorquinas, em média, viram seus orçamentos diminuírem 5% no período e um aumento ainda mais impressionante da desigualdade social. Em todos os EUA, 16% da população (um aumento de 0,8% em relação ao anunciado em setembro) é considerada pobre. Os números seriam ainda maiores se excluídos os programas sociais do governo Obama, que, de acordo com o Center on Budget and Policy Priorities, manteve 11 milhões de americanos no limite do índice de pobreza. Os diretores do centro de estudos alertam para o aumento imediato da pobreza se projetos de apoio de Washington forem cortados no próximo orçamento federal, como desejam os republicanos.

“Ser pobre e precisar de ajuda do Estado não é crime”, afirmou em editorial o New York Times, contra a “punição gratuita de cidadãos que necessitam de fato do governo” em estados como a Flórida, onde o governador Rick Scott, republicano, assinou em maio uma lei que exige exame de urina (para provar não serem dependentes químicos) de todos os que quiserem receber os benefícios do Programa de Assistência Temporária para Famílias Necessitadas. Em Nova York, por sua vez, exatamente como no Arizona, o prefeito Michael Bloomberg exige dos beneficiados pelo programa de vale-alimentação que concordem em ter suas digitais eletronicamente arquivadas para evitar possíveis fraudes, mas que acabariam por estigmatizar os moradores da cidade em busca do auxílio público.

Enquanto isso, os mais ricos de Manhattan – simbolizados pela imagem das ladies who lunch da Park Avenue – seguem com a maior renda do país, de, em média, 371 mil dólares por ano. Para se ter uma ideia, os bairros mais pobres reúnem uma crescente população adulta de alijados, os milhares de Anthonys, Karinas e Pearls, invisíveis aos olhos dos turistas, que tentam viver com 9.845 dólares, em média, a quinta pior marca em todos os EUA (o limite oficial da pobreza, de acordo com Washington, seria de 24 mil/ano para uma família de quatro pessoas, incluindo dois menores de idade).

A cidade partida da zona norte do planeta tende, ainda segundo o Censo, a aumentar nos próximos anos a discrepância entre os bairros mais afluentes de Manhattan e os cantões do Bronx, como os retratados em To Be Heard: a pobreza entre menores de 18 anos aumentou quase 3% no último ano e chega a assustadores 30% da população não adulta da cidade.

“Pearl mora na frente do Jardim Botânico de Nova York, um dos mais belos parques da cidade, mas nunca havia passado da entrada, tanto por conta do preço da admissão, 18 dólares para estudantes, quanto pela ideia de que aquele lugar ‘não era para pessoas como ela’”, diz o idealizador do programa Power Writing.

Não é surpresa para Legiardi-Laura o dado de que mães solteiras, negros e adultos sem curso superior aparecem, segundo o Censo, no piso da pirâmide de renda da cidade que nunca dorme. “É balela dizer que vivemos em uma sociedade pós-racial. Dos três personagens principais do filme, dois são negros e uma é de origem hispânica, mas a escolha não foi por motivos étnicos. Eles criaram um forte laço de união, uma amizade, que ajudou a linha dramática da história. Mas é bom lembrar que os professores mandavam sempre para o nosso curso, eletivo no currículo, os alunos que eles consideravam ‘problemáticos’, pois nunca tivemos qualquer problema em classe.”

No Bronx, cenário de To Be Heard (em português, algo como Para Vocês Escutarem), o Censo informa que 58% das mães solteiras de origem hispânica vivem abaixo da linha de pobreza. É o caso da família de Karina Sanchez. Mais velha de seis irmãos, ela sofre com a violência doméstica de uma mãe abusiva e se vê forçada a ganhar a vida adulta antes do tempo. No decorrer da uma hora e meia de projeção, descobrimos que ela foi expulsa de casa, vive com o namorado e, exatamente como a mãe, que engravidou cedo, espera o primeiro filho.

Anthony Pittman é o mais problemático dos três jovens. Seu pai está na cadeia, por razões nebulosas, e sua revolta é expressa nas competições de poesia (o chamado Poetry Slam) que tomou conta da noite da cidade, em locais da moda como o Bowery Poetry Club, localizado em uma área depauperada, hoje em rápido processo de revitalização por causa do enriquecimento dos vizinhos SoHo, East Village, Little Italy e Lower East Side. Acusado de fazer sexo com uma menor de idade, Anthony, exatamente como o pai, termina na cadeia.

Também negra, Pearl Quick equilibra os estudos com o emprego de caixa em uma grande livraria da cidade. Seu sonho é conseguir bolsa de estudos para uma universidade. Alguns dos momentos mais desconcertantes de To Be Heard são as visitas promovidas pelo trio por detrás do Power Writing – além de Legiardi-Laura, Amy Sultan (uma das diretoras do conceituado Nuyorican Poet’s Café, no East Village) e Joe Ubiles – a prestigiadas instituições de ensino nas cercanias de Nova York, povoadas majoritariamente por brancos.

Depois de muita batalha e várias decepções, Pearl consegue a bolsa de estudos, uma vantagem em relação a milhares de colegas de classe média que sairão da universidade devendo, em média, nas contas da organização sem fins lucrativos Institute for College Access & Success, 24 mil dólares. Seria a nova bolha dos EUA?

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