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Renzi promete uma reforma por mês na Itália

por Deutsche Welle publicado 25/02/2014 17h05
Após ganhar moção de confiança no Senado, novo primeiro-ministro poderá iniciar suas reformas "radicais e imediatas". Mas terá de se apoiar na mesma coalizão do antecessor
ANDREAS SOLARO / AFP
Matteo Renzi

O novo primeiro-ministro de 39 anos almeja reformas e as almeja já

Com um discurso inflamado e em grande parte improvisado em prol de um curso pró-europeu para a Itália, o novo primeiro-ministro Matteo Renzi ganhou seu primeiro voto de confiança no Parlamento em Roma, em votação que terminou na madrugada desta terça-feira 25.

Com 169 votos a favor e 139 contra, o Senado apoiou a moção de confiança para o novo governo liderado pelos social-democratas. Renzi prometeu reformas trabalhistas, institucionais e fiscais em prol de uma mudança "radical e imediata" para reavivar a economia do país.

Em seu discurso, o novo chefe de governo disse que a culpa pelo endividamento italiano, que chega a 130% do Produto Interno Bruto (PIB), deve ser procurada na própria Itália. "A exigência para que nós coloquemos nossas finanças públicas em ordem não provém de Angela Merkel ou Mario Draghi", disse Renzi em alusão à chanceler federal alemã e ao presidente do Banco Central Europeu. "Devemos fazê-lo em respeito a nossas crianças, àqueles que vêm depois de nós."

Para dar prosseguimento ao seu curso pró-reformas, Renzi precisa ainda ganhar um voto de confiança na Câmara dos Deputados, onde seu partido de centro-esquerda possui uma maioria sólida. A votação está marcada para a noite desta terça-feira e é tida como mera formalidade.

Tudo vai ser diferente?

"Subito" – já, em italiano – é uma das palavras prediletas de Renzi. O novo primeiro-ministro de 39 anos, o mais jovem na história do país, almeja reformas e as almeja já. Ele prometeu uma reforma a cada mês – e uma virada radical na política e na economia do país.

Como ele pretende fazer tudo isso ainda é um mistério, pois a sua maioria parlamentar está apoiada nos mesmos parceiros de coalizão de seu antecessor Enrico Letta. E a urgência exigida pelo ex-prefeito de Florença não agrada a esses parceiros. Do contrário eles já teriam há muito aprovado a reforma do sistema eleitoral que Renzi promete levar adiante como projeto inicial. Ou eles teriam levado a sério a reestruturação da administração pública e a redução da burocracia descontrolada. Para a Itália, isso teria sido um divisor de águas.

A mídia italiana reagiu com ceticismo, queixou-se da falta de experiência política dos membros do governo. "Tudo recai sobre os ombros de Renzi", escreveu o jornal Corriere della Sera, de Milão. E o diário La Stampa, de Turim, tem dúvidas de que o governo realmente venha a superar a pior crise econômica do país desde a Segunda Guerra Mundial. Mas também muitos cidadãos questionam o que realmente vai mudar em relação ao governo de Letta.

"Temos apenas outro rosto à frente do governo. Renzi representa a mesma política de Letta", disse um dono de restaurante na rua Corso Como em Milão. A maioria dos transeuntes reagiu de forma moderada às notícias vindas de Roma. "Aí está mais um chefe de governo que não foi eleito diretamente", queixou-se uma jovem em frente à vitrine de uma sapataria.

Sem respaldo eleitoral

Este é o terceiro governo que não saiu das urnas. Em vez disso, cada vez mais é o presidente Giorgio Napolitano quem determina a nova liderança do país. Em novembro de 2011, ele colocou o economista Mario Monti à frente de um gabinete não eleito formado por tecnocratas, com vista a tirar o país da crise financeira.

E quando as eleições parlamentares em fevereiro de 2013 resultaram num impasse e, mesmo depois de semanas de negociações, não foi possível formar um governo, Napolitano forjou uma grande coalizão do partido de centro-esquerda de Renzi, o Partido Democrático (PD), com o partido de Silvio Berlusconi – sob a liderança de Letta, correligionário de Renzi.

Renzi é, agora, o terceiro primeiro-ministro sem mandato dos eleitores. E ele anunciou confiante que quer governar até o final do período legislativo.

Pesquisas de opinião apontam que os italianos querem novas eleições no fim do ano. E não somente eles – também dentro do partido de Renzi houve críticas. "Tínhamos a esperança de que ele pudesse levar nosso partido à vitória nas urnas. Mas, para isso, é preciso que haja eleições", disse um correligionário de Renzi à Deutsche Welle.

Um antigo companheiro de Renzi, o parlamentar Pippo Civati, de Monza, disse temer uma guinada à direita do partido e acusou Renzi de direcionar seu programa político seguindo os desejos da ala de direita. "Berlusconi é quem mais se alegrou com o novo chefe de governo", disse Civati numa entrevista de jornal. "Renzi está onde está porque ele deverá ser queimado politicamente."

Berlusconi: amigo ou inimigo de Renzi?

Berlusconi poderia estar contando com um desgaste de Renzi nos próximos meses, pois os problemas do país são enormes. Além disso, o energético florentino com uma predileção por soluções rápidas não tem uma varinha mágica. Assim, o brilho de sua estrela pode apagar antes das próximas eleições.

Ainda que Berlusconi tenha sido condenado judicialmente, tendo de deixar o seu assento no Senado, ele continua a influenciar a política italiana. Agora, ele e seus companheiros exigem reformas que o próprio Berlusconi não realizou durante os seus anos de mandato.

Somente se Renzi logo apresentar êxitos em seu caminho rumo à transformação do país, conseguirá manter-se no poder. Mas, para tal, ele precisa da ajuda dos outros partidos. E não possui o apoio do Movimento 5 Estrelas – liderado pelo ex-comediante Beppe Grillo e fortemente representado no Parlamento italiano.

Grillo rejeita o novo chefe de governo como parte da casta que combate. Assim, Renzi deverá contar com os mesmos parceiros de coalizão que seu antecessor Letta, ou terá de incluir até mesmo a Força Itália, de Berlusconi. Governar não deverá ser uma tarefa fácil para o novo primeiro-ministro.

Autoria Kirstin Hausen (ca)

Edição Alexandre Schossler


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