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Refugiados sírios provocam tensões sectárias no Líbano

por The Observer — publicado 20/03/2013 10h18, última modificação 20/03/2013 10h18
The Observer: Beirute enfrenta uma crise, lutando para abrigar um vasto influxo de deslocados

Por Martin Chulov

Na borda do centro interno reconstruído de Beirute, um empresário de Damasco, Abu Ziad, entrava em seu novo BMW preto no estacionamento da maior mesquita sunita da cidade. Seu carro era o mais bonito do lugar e chamou a atenção de uma fila de sírios que esperavam impacientemente para lhe pedir dinheiro. Todos tinham visto a placa do carro e expuseram seu caso a Ziad em um dialeto diferente do dos agricultores pobres da Síria.

"Você é meu filho", disse uma senhora encurvada em um hijab [véu] verde, segurando a foto de um menino. "A vida é cruel aqui, por favor ajude esta velha." Durante alguns minutos, o barão e os mendigos estiveram unidos: todos estrangeiros em uma terra que, não muito tempo atrás, dificilmente seria considerada um abrigo para qualquer pessoa que fugisse dos problemas da região.

 

 

Com a guerra civil a assolar a Síria já em seu terceiro ano, porém, o Líbano enfrenta uma inversão de papéis: cerca de um milhão de sírios buscam abrigo aqui, dos quais 350 mil são refugiados que trouxeram pouco mais que a roupa do corpo.

Outros, como Abu Ziad, membro da elite rica, assim como as classes média e empresarial, vêm comprando grande número de residências ou pagando em dinheiro aluguéis por um ano inteiro. O êxodo de Damasco é tão acentuado que algumas empresas sírias conseguiram montar uma folha de pagamento completa no exílio para conduzir à distância os negócios em seu país.

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A transformação do Líbano de uma causa perdida em última esperança, na visão de muitos sírios, está sendo encarada com crescente alarme em Beirute, cujas autoridades advertem sobre a falta de meios para absorver e alimentar os recém-chegados e a fragilidade de uma sociedade em que as tensões étnicas, sectárias e regionais continuam mal contidas.

"Não é o lugar que conhecíamos", disse Abu Ziad, que construiu uma casa em Beirute para sua família. "Quem teria pensado em vir aqui para alguma coisa além de férias?

"Antes disso tudo, costumávamos zombar dos libaneses e do modo como eles se importavam tanto com quem era xiita, sunita, cristão ou druso. Nunca pensamos que tivéssemos a mesma coisa entre nós. Agora veja-nos. O que está acontecendo é um pesadelo. Vai levar pelo menos cinco anos para se acertar."

Os minaretes da gigantesca mesquita em estilo otomano se refletem nos óculos espelhados de Abu Ziad. Descendo o morro, depois do santuário do ex-primeiro-ministro assassinado a tiros Rafiq Hariri, cujo dinheiro construiu a mesquita e reformou a área urbana vizinha nos anos 1990, dois navios de guerra russos estão atracados no porto. Mais cedo, dois aviões de guerra israelenses circularam sobre Beirute durante várias horas, deixando faixas brancas no céu enevoado de primavera.

A guerra civil no Líbano pode ter terminado há 22 anos, mas a influência dos atores regionais que têm um profundo e antigo interesse aqui continua muito visível. Seis quilômetros a sudeste do centro, o patrocínio do Irã ao Hezbollah e ao setor xiita da cidade também se destaca com as bandeiras e cartazes do líder religioso iraniano aiatolá Khamenei. E no norte do Líbano, o coração sunita do país, bandeiras turcas e sauditas são vistas habitualmente ao lado da libanesa.

A antiga dependência de interesses externos e do influxo de chegadas em um tecido social já delicado abalou profundamente os senhores feudais do Líbano, que há vários meses tentam manter um verniz de distância da crise na Síria. Enquanto isso, os combatentes xiitas ligados ao Hezbollah e combatentes sunitas que apoiam o bloco de Hariri assumiram papéis crescentes nos campos de batalha do país.

"Isto não pode mais ser escondido", disse o ex-presidente libanês Amin Gemmayel, líder do bloco Falange Cristã, que nunca esteve distante das tribulações históricas do Líbano. "O Líbano costumava ser uma verdadeira democracia e um país liberal, e todos os países da região se aproveitaram disso para construir uma espécie de santuário para seus próprios interesses. Mas não é mais liberdade; é um abuso de liberdade. Esse é o paradoxo libanês."

Gemmayel está em sua antiga casa otomana de arenito no sopé das montanhas próximas a Beirute -- o centro cristão do país, onde há temores acentuados do que emergirá dos destroços da Síria. Muitos dos que fugiram de Damasco, em particular, pertencem às diversas seitas cristãs, e muitos entre eles, como Ziad, perderam fortunas enquanto a guerra e a insurgência arrasavam o país.

Gemmayel e outros líderes cristãos contatados pelo Observer dizem que o clima no Líbano hoje é tristemente conhecido. "É muito mais perigoso do que em 1975 [quando começou a guerra civil libanesa]", disse Gemmayel. "Na época, o país estava dividido. Havia fronteiras [entre as seitas que estavam amplamente reunidas em comunidades]. Hoje não é mais assim."

Esses temores se refletem do outro lado da cerca política. Mohamed Obeid, um ex-diretor geral do Ministério da Informação libanês, que é ligado ao Hezbollah e mantém laços com figuras do regime sírio, disse: "A mistura entre sunitas e xiitas no Líbano é enorme. Há pelo menos 200 mil casos de casamentos mistos, e muitas famílias se fundiram em muitos lugares.

"Em 1975 a guerra começou em uma linha de falha cristã-muçulmana. Desta vez a grande preocupação é sunita-xiita. Sempre que há um choque regional o Líbano paga o preço. Na última vez, principalmente por causa das ambições de Yasser Arafat [para os palestinos], entramos em uma longa guerra durante 17 anos e não recuperamos a Palestina e perdemos o Líbano. Agora, tenho medo de que os mesmos governos estejam cometendo os mesmos erros. [O ministro das Relações Exteriores francês, Laurent] Fabius e os europeus, por exemplo, querem uma parte do bolo."

Fabius indicou na semana passada que a França e o Reino Unido podem ignorar a oposição da União Europeia aos elementos que se armam no movimento rebelde da Síria que não estão alinhados com grupos jihadistas. Os países a integrar a UE, entre eles a Áustria, que lidera uma força de paz nas colinas do Golã, entre a Síria e Israel, reiteraram sua oposição mais tarde.

A capacidade do Líbano de absorver os choques da região continua sendo posta em xeque por todos, da ONU aos protagonistas de guerras passadas. O alto comissário para Refugiados da ONU, António Guterres, advertiu na sexta-feira sobre uma "ameaça existencial" ao Líbano causada pela crise síria e pediu o apoio internacional para o Estado fragilizado.

"Estivemos nesse caminho anos atrás", disse o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Munir Maqda, no campo de refugiados de Ain al-Halwe em Sidon, o maior dos 12 campos existentes no Líbano. "E agora estamos seguindo por ele novamente." Maqda contou a história de uma recente reunião em Damasco entre autoridades sírias e palestinas que salientou como as relações desmoronaram desde que a crise se intensificou.

"O chefe do serviço de inteligência da OLP em Ramallah foi com uma delegação ver [o vice-ministro das Relações Exteriores Faisal] Meqdad em fevereiro", ele disse. "Nós lhe dissemos que queríamos isolar os palestinos através da neutralidade política." A reunião foi arranjada depois que um grande número de palestinos e sírios fugiram de Damasco em dezembro, após a irrupção de lutas no campo principal de Yarmouk -- acrescentando uma dimensão à crise dos refugiados no Líbano.

"Ele nos disse: 'Ou você está conosco ou contra nós'", disse Maqda. "Nossa decisão foi tomada."

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