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Ratzinger e Martini

por Wálter Maierovitch publicado 17/02/2013 09h56, última modificação 06/06/2015 18h14
Bento XVI deveria ter ouvido o cardeal morto em 2012. Martini pedia uma Igreja independente

No ano da fé, o papa Ratzinger apontou como causa do seu ato de renúncia aquilo que os geriatras diagnosticam como “síndrome da fragilidade”. Algo inevitável quando, já na estação do inverno, alcançam-se os 85 anos de idade. Não se trata de doença, mas da perda dos vigores físicos e do ânimo, mantido o intelectual. “Não tenho mais forças, me perdoem”, disse.

Poucos acreditam na “síndrome da fragilidade” e no incontido desejo de Ratzinger de voltar aos livros. Quem deseja isso não deixa uma encíclica a caminho do prelo e não declara que continuará a residir nos jardins do Vaticano, no monastério Mater Ecclesiae, recentemente restaurado. Na sua vida sacerdotal e até chegar a papa, Ratzinger sempre esteve perto do poder e participou, com intervenções progressistas, nos trabalhos desenvolvidos no Concílio Vaticano II, obra de reformulação iniciada por João XXIII.

Grande é o elenco das causas de renúncia dadas como reais. Só não é maior ao das críticas por ele “jogar a toalha”. A mais acerba crítica veio de Stanislaw Dziwisz, arcebispo de Cracóvia e ex-secretário do papa Wojtyla: “Da cruz não se desce”.

O pontificado de Bento XVI foi marcado por desacertos e confusões, com destaque para os escândalos dos sacerdotes pedófilos, do Instituto para as Obras Religiosas (IOR), conhecido como Banco do Vaticano, da fuga de documentos e informações a envolver o condenado e perdoado mordomo Paolo Gabriele, do complô de assassinato do papa, transmitido a ele no ano passado pelo monsenhor Luigi Bettazzi e pelo cardeal Paolo Romeo (que desmentiu depois) e pela permanente luta intestina de poder entre alas.

Além disso, Ratzinger desgastou-se por conta própria, por exemplo, ao atacar o islamismo e, por tabela, o profeta Maomé. Ou quando forçou uma reaproximação com os lefebvrianos, com muitos nazifascistas de batina. E ao apressar a santificação do papa Pacelli, que silenciou quando judeus foram aprisionados em Roma e enviados para campos de concentração nazistas. Deve ser consignado que Ratzinger tentou se corrigir. Pregou no Muro das Lamentações e visitou uma sinagoga. As retratações, nos mundos islâmico e judaico, reforçaram as desconfianças, apesar do sustentado em contrário pelas diplomacias.

Não se deve olvidar, no campo dos “desgastes fatais”, como lembra o jornalista e historiador Corrado Augias na sua obra I Segreti del Vaticano, a inicial resistência de Ratzinger em admitir os casos denunciados de pedofilia por parte de sacerdotes e a tentativa, com o cardeal Soldano à frente, de considerar tudo chiachiericcio (conversa mole).

A mudança de atitude só veio depois de duros editoriais no The New York Times, Der Spiegel, El País, Le Monde e La Repubblica. E, lembra Augias, a resistência de Ratzinger cedeu após a publicação, em 9 de abril de 2010, pela Associated Press de uma carta de próprio punho, quando comandava o antigo Santo Ofício, na qual minimizava acusações de pedofilia contra o padre Stephen Kiesle, de Oakland, Califórnia. O reconhecimento e o pedido de perdão, em encontro com algumas vítimas, só aconteceram depois de muita resistência. No IOR, nunca foram cumpridas as ordens de Ratzinger de aplicação das normas antirreciclagem de capitais recomendadas pela União Europeia. A queda de Gotti Tedeschi, presidente do banco, ainda não foi explicada e, no momento, a magistratura italiana investiga a participação do IOR no escândalo do Banco Monte dei Paschi di Siena, um dos mais antigos em atividade no mundo e  terceiro maior da Itália.

Ratzinger, como até os coroinhas da outra margem do Rio Tevere sabem, perdeu o controle sobre a Cúria, composta de ministros escolhidos pelo próprio papa para ajudar na gestão da Santa Sé. Nas sombras das “muras leoninas”, é acusado de insistir em posições conservadoras e no discurso sobre o relativismo ético-moral. Isso teria afugentado fiéis, vocações e batismos na Europa. Na América Latina, abriu espaço para seitas evangélicas. O crescimento de católicos só se verificou na África e na Ásia, e isso pelo trabalho de clérigos progressistas e interessados em melhorar as condições materiais e sociais.

Num resumo, e vale para vaticínios (termo derivado de Vaticano), é significativa a carta deixada pelo cardeal emérito de Milão, Carlo Maria Martini, falecido em agosto de 2012: “Há um tempo tinha sonhos sobre a Igreja. Uma Igreja que trilha pela estrada da pobreza e da humildade, uma Igreja independente dos poderes deste mundo... Uma Igreja que dá espaço às pessoas capazes de pensar de maneira mais aberta. Uma Igreja que infunde coragem, sobremaneira naqueles que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje, não tenho mais esses sonhos. Depois dos 75 anos decidi orar pela Igreja”.

Bento XVI deveria ter ouvido o cardeal morto em 2012. Martini pedia uma Igreja independente

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