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Rajoy e as duas crises

por Gianni Carta publicado 13/02/2013 09h22, última modificação 13/02/2013 09h24
Os indicadores econômicos assustam, mas a questão moral piora notavelmente a situação

Os indicadores econômicos não mentem: a Espanha vai mal. No quarto trimestre de 2012 a economia sofreu uma contração de 1,8% em relação ao mesmo período no ano anterior. Um rigoroso programa de austeridade tenta combater a falta de competitividade, a turbulência no setor de bancos e as dívidas domésticas e empresariais. A taxa de desemprego de 26% – e atinge 46% entre aqueles com menos de 35 anos – é a mais elevada desde 1975, quando acabou a ditadura franquista.

No entanto, as raízes da crise, que parecia ser apenas econômica, são muito mais profundas. Na verdade, em sintonia com outros países europeus e mundo afora, trata-se de uma crise moral. No dia 31 veio à tona a séria suspeita de corrupção nos altos escalões governistas, e até o premier direitista Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), estaria implicado, segundo documentos publicados pelo diário de centro-esquerda El País. Eleito faz um ano, Rajoy, de 57 anos, repete: “É falsa a acusação. Jamais, repito, jamais, recebi ou distribuí dinheiro irregular, nem neste partido nem em outro lugar”. E acrescentou que postaria detalhes de sua conta pessoal no site do governo.

Por sua vez, Alfredo Pérez Rubalcaba, o líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), pediu a demissão do premier no domingo 3. Incentivo para exigir a renúncia do primeiro-ministro não faltou ao líder do PSOE. No dia anterior, manifestações varreram todas as grandes cidades do país. Uma petição contra o premier na internet contava com milhares de signatários. Diante da sede do PP em Madri, Rubalcaba disse que Rajoy “é um fardo” para o país. “Ele (Rajoy) acrescentou à crise uma crise moral pública.”

A crise é moral também porque ela embute velhas questões, como a territorial, no caso de uma Catalunha e de um País Basco em busca de independência. Os catalães, aliás, preparam-se para um referendo pela sua soberania, em 2014. Outro debate mais recente questiona a serventia de uma monarquia constitucional maculada por casos de corrupção, intrigas, e pela imagem de um rei, Juan Carlos I, a se contradizer e a cometer gafes. Um exemplo foi a tentativa do rei, em abril do ano passado, de acobertar suas andanças com uma aristocrata alemã em uma caçada de elefantes na África, e paga, consta, por um magnata da Arábia Saudita.

Dias antes de vir à tona a caçada avaliada em 10 mil euros diários – e nada politically correct – e realizada -enquanto o rei lamenta o fato de seus súditos estarem se sacrificando por causa do draconiano programa de austeridade, seu neto de 13 anos, também ele na caçada em Botsuana, literalmente deu um tiro no próprio pé. O adolescente, indagaram os espanhóis, estaria acima da lei para poder usar uma -espingarda de calibre 36?

Mais recentemente, emerge o caso de Iñaki Urdangarin, o genro predileto do rei, acusado de prevaricação e malversação de fundos públicos. O -paradeiro de Urdangarin, que deixou a mulher e quatro filhos, é trágica para o rei também porque o ex-campeão de handebol de 2 metros de altura é basco e, portanto, bastante útil para mostrar os laços afetuosos entre a família real e um célebre representante de regiões em busca de independência. Em miúdos, a imagem do rei, agora com 75 anos, não é mais aquela do homem que contribuiu para a restauração da democracia no país e foi capaz de peitar uma tentativa de golpe de Estado em 1981.

O último incidente, o de corrupção no seio do governo, supostamente envolve, além do premier Rajoy, centenas de políticos de seu PP. Entre eles, destacam-se Cristóbal Montoro, o ministro da Fazenda, e Ana Mato, ministra da Saúde. Segundo o El País, mas secundado por periódicos conservadores como El Mundo, o chefe de Estado teria se beneficiado, juntamente com seus colegas, de um “complemento salarial” em dinheiro vivo não declarado de 1997 até 2008. Em um editorial do El Mundo, lê-se: “O premier Rajoy deveria reconhecer que o PP recebeu doa-ções opacas” e “anunciar uma investigação para determinar se certos integrantes da direção do partido receberam complementos ilegais de salários”.

Os 25,2 mil euros anuais recebidos por Rajoy durante o período de 11 anos (remessas que, devido ao seu pequeno valor, arrancariam sorrisos de líderes corruptos de outros países), seriam, sempre segundo os documentos publicados por El País, oriundos de uma conta secreta controlada pelo -ex-tesoureiro do PP, Luis Bárcenas. O jornal teve acesso e estampou em várias edições os cadernos manuscritos de Bárcenas, nos quais ele anotou os pagamentos oficiais e não oficiais da contabilidade do partido, inclusive aqueles enviados a Rajoy.

Bárcenas, ao que tudo indica, está longe de ser flor de um orquidário. Em 2010, foi forçado a deixar o PP por causa de uma investigação sobre o caso batizado pela polícia espanhola de Gürtel, em homenagem a Francisco Correa, o intermediário do ex-tesoureiro (em alemão, Gürt significa Correia). O caso implica uma rede a envolver grupos empresariais que pagavam comissões ilegais às dezenas de administrações do PP em troca de contratos públicos. Somente no período entre fevereiro de 2002 e julho de 2004, 600 mil euros da Construtora Hispânica teriam sido depositados no caixa 2 do PP.

A Procuradoria revelou, entre outros, que Bárcenas tem conta bancária na Suíça com 22 milhões de euros de proveniência desconhecida. Mais: para regularizar sua situação junto à Receita, Bárcenas fez uma remessa de 1,5 milhão de euros de outra conta na Suíça, esta de uma empresa uruguaia da qual é sócio. Na verdade, o esquema do PP parece remontar a 1990, mas a Pro-curadoria pediu à Receita as declarações de renda referentes aos últimos 13 anos de Rajoy e de seu Partido Popular.

Na sua visita a Berlim, na segunda-feira 4, Rajoy pediu à chanceler Angela Merkel iniciativas para relançar a economia europeia. Na Espanha, o premier lançou um pacote de estímulo, o qual, entre outros, deverá incluir cortes de impostos para jovens empresários. O programa de austeridade, no entanto, prossegue a todo vapor. Tem como objetivo reduzir o déficit orçamentário do país e inclui, entre outros, impostos gerais mais elevados e cortes de benefícios para os desempregados. Merkel, assim como o Fundo Monetário Internacional (FMI), elogiou seu homólogo. De fato, o FMI anunciou que o programa de recapitalização dos bancos tem feito avanços. A Espanha, no entanto, ainda precisa fazer ajustes fiscais externos, esclarece o Fundo.

Na coletiva à imprensa ao lado de Merkel, Rajoy prometeu, mais uma vez, que tiraria a Espanha da crise. Mas, é óbvio, os representantes da mídia espanhola estavam mais interessados em fazer perguntas sobre os supostos financiamentos irregulares do Partido Popular. Mais uma vez, Rajoy voltou a dizer que as afirmações feitas pela mídia são “absolutamente falsas”. E repetia: “Salvo alguma coisa publicada por certos meios de comunicação”. Rajoy, enigmático, preferiu não ser mais específico, mas parece claro aludir a alguns de seus aliados prontos a aceitar pagamentos ilícitos.

No atual contexto econômico, em que o programa de austeridade afeta a vasta maioria, os espanhóis estão no mínimo enfurecidos. Segundo enquete realizada por El País, 77% dos entrevistados desaprovam Rajoy como premier, enquanto 85% nutrem escassa ou nenhuma confiança nele. Para 96% da população, a corrupção não é punida como deveria ser.

No entanto, se Rubalcaba pede a demissão de Rajoy, ele não exige, ao mesmo tempo, eleições antecipadas. Os socialistas querem uma troca de liderança, visto que o PP tem maioria absoluta no Parlamento e o próprio PSOE está envolvido em casos de corrupção. Na verdade, tanto à direita quanto à esquerda os fundos ilícitos oriundos da bolha imobiliária não pareciam incomodar os políticos e o povo como ocorre atualmente. Até 2008, os espanhóis, como os norte-americanos antes de a bolha estourar na terra do Tio Sam, aproveitaram-se de empréstimos para comprar suas moradias e, com frequência, uma segunda casa para alugar. O quadro mudou, o sacrifício do povo é grande e os casos de corrupção dos políticos provocam reações iradas.

Como escreve um editorialista do El País, talvez o povo espanhol paga por não ter se manifestado contra a corrupção enquanto era tempo. O golpe é moral para o povo que se sente “humilhado”, inclusive pelas críticas de diários conservadores como Financial Times, Wall Street Journal e Le Figaro. Os espanhóis, escreve o editorialista, “aspiram integrar a primeira divisão europeia, mas ocupam a terceira”. E quando a BBC faz uma reportagem para mostrar como a crise afeta a comunidade de Valência, a Embaixada da Espanha em Londres “envia uma nota indignada de protesto ao editor responsável”. Enfim, porta-se como uma “república bananeira”. Mais: “A Espanha é uma superpotência somente no futebol”. Pelo menos na Espanha há, ao contrário de outros países, vozes que se alçam para criticar o próprio país.

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