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Quem é quem nesta briga

por Gianni Carta publicado 10/03/2013 09h30, última modificação 10/03/2013 09h30
Às vésperas do Conclave, definem-se as posições. De um lado os tradicionalistas da Cúria, do outro os partidários da transparência

O conclave que elegerá o novo papa terá início provavelmente na próxima semana, mas parecem infindáveis as dúvidas sobre o rumo a ser tomado pelo Vaticano. Isso ficou transparente nesta primeira semana de “congregações gerais”, nas quais os prelados debateram o futuro da Igreja Católica após a renúncia de Bento XVI. Nessas -reuniões, duas facções se digladiam com teses discordantes a respeito da futura Igreja Católica.

De um lado, o decano dos -cardeais Angelo Sodano e o secretário de Estado Tarcisio Bertone defendem com unhas e dentes a manutenção da máquina governamental. Ambos querem acelerar o processo do Conclave para, consta, não somente manter o status quo, mas também para evitar mais “inconvenientes” perguntas sobre o famoso dossiê que teria, segundo o diário La Repubblica, levado Joseph Ratzinger a tomar a decisão de abdicar ao lê-lo em 17 de dezembro de 2012. De fato, a história teria chocado Ratzinger de forma contundente quando imaginava que o VatiLeaks, o caso provocado pelo vazamento de documentos papais, havia terminado com a condenação, em 6 de outubro, de seu mordomo Paolo Gabriele a um ano e meio de cadeia. O mordomo fugira com do-cumentos papais para, alegava, defender os interesses do patrão.

Do outro lado do tablado político vaticano estão os cardeais estrangeiros, pouco informados sobre o funcionamento da Cúria Romana, aparato administrativo da Santa Sé. Os norte-americanos, favoráveis a maior transparência, têm sido os mais ativos e, até terça-feira 5, realizaram as mais frequentadas coletivas à imprensa no North American College de Roma.

O Colégio de Cardeais (leia Bertone) considerou, no entanto, que os norte-americanos estavam rompendo os votos de confidencialidade das congregações. Os prelados estavam proibidos de revelar quem falou e qual o tema abordado, e só valeria desenvolver temas como “o futuro da Igreja Católica”. No entanto, uma pergunta sobre a postergação do Conclave, visto que deveria começar em 11 de março, foi considerada abusiva por Bertone.

Ironicamente, são os diários italianos a reportar conversas com prelados do alto escalão, e jamais citam seus nomes. Na quinta-feira, por exemplo, o La Repubblica entrevistou um “corvo”, conforme a terminologia em voga, como o ex-mordomo Paolo Gabriele. A fonte falou sobre a existência de um total de 20 “corvos”, desde prelados até laicos e mulheres, todos ligados à Santa Sé. O objetivo deles, como o de Gabriele, seria o de ajudar o papa. Mas como ajudar, indaga o repórter, se o papa abdicou? A renúncia foi um desafio de Bento XVI, agora papa emérito, que lutava por uma Igreja “livre, forte e transparente”. O repórter indaga se a missão foi cumprida. “Depende de quem será o novo papa, que facção o elegerá, e quem será o próximo secretário de Estado.”

Essas misteriosas histórias deixam os norte-americanos perplexos, donde as insistentes perguntas sobre o -VatiLeaks. Para recapitular, o célebre relatório de 300 páginas é no mínimo contundente. Baseia-se no não cumprimento de dois mandamentos. Um deles é o adultério, eufemismo de pederastia. O outro mandamento vale para casos de corrupção, vários deles comprovados pelos investigadores, nomeados por Ratzinger, três cardeais octogenários.

Segundo o La Repubblica, os prelados contraventores frequentavam villas, saunas e até um aposento do Vaticano, este usado por um arcebispo italiano com seus amantes. De fato, a primeira congregação geral na segunda-feira 4 começou sob um clima pesado. Chegava a notícia do mais recente caso de “adultério” a envolver Keith O’Brien, o cardeal escocês que acabara de renunciar debaixo de acusações de “comportamento inadequado” com jovens seminaristas.

Por essas e outras, os cardeais estrangeiros dizem precisar de tempo para conhecer seus colegas e assim formar opiniões. Quantos dentre esses eleitores do próximo papa acobertaram, por exemplo, casos de pedofilia? Na quarta-feira 6, uma associação de vítimas da pedofilia divulgou uma lista negra de uma dúzia de cardeais que não podem se tornar papa por conta de terem escamoteado o abuso de menores por parte de outros prelados. Entre eles figura o canadense Marc -Ouellet, “o candidato perfeito”. Apesar de ser demasiado emotivo, é fluente em diversos idiomas, tem experiência pastoral e é apreciado na América Latina pela sua vivência na Colômbia. Mais: faz alguns anos integra a Cúria Romana. Outro “papável”, pelo menos segundo as redes sociais, é o americano Timothy Dolan. Outros são o brasileiro Odilo Scherer, o filipino Luis Antonio Tagle, o sul-africano Wilfrid Napier, além do italiano Angelo Scola.

Entre os cardeais a reivindicarem maior transparência e a divulgação de mais “elementos” do VatiLeaks destaca-se o brasileiro Raymundo Damasceno Assis. Em entrevista ao diário La Stampa, ele disse que gostaria de saber mais sobre o relatório, pois “seu conteúdo influenciará nas votações”. Mas, como sustenta Gianni Vattimo, filósofo e político italiano, sabemos que o relatório se resume a dois fatos principais: sexo e dinheiro (leia a entrevista).

Vattimo é bastante crítico em relação ao IOR, o Banco do Vaticano. Vale sublinhar: o Vaticano, o menor Estado do mundo, tem a maior renda per capita do planeta. Em La Questua: Quanto costa la chiesa agli italiani (Feltrinelli, 2008), Curzio Maltese escreve: “O catolicismo é a única religião a dispor de uma doutrina social fundada sobre a luta contra a pobreza, “esterco do diabo” ... mas é também a única religião com seu próprio banco para administrar negócios e investimentos, o IOR”. O banco esconde um passado nebuloso de conexões e crimes com a Máfia e, por tabela, de lavagem de dinheiro de várias origens.

Diz Vattimo: “Sem o celibato eclesiástico e o tabu contra a homossexualidade, entre outros, a Igreja Católica seria pura e santa”. Outro absurdo, continua, “é a proibição do sacerdócio feminino em um momento em que há cada vez menos padres”. Don Gallo, que se autodenomina “angelicalmente anárquico”, concorda. “Mulheres têm de ser ordenadas.” Para esse padre genovês de 85 anos, que no início da década de 1950 foi missionário em São Paulo, é preciso livrar a Igreja Católica da sexofobia. Por que não aceitar a homossexualidade? “Somos todos seres humanos, filhos de Deus.” Quanto à pedofilia, Don Gallo diz que ela tem de ser combatida antes de tudo nos tribunais civis. “Somos, em primeiro lugar, laicos e, portanto, obrigados a respeitar nossa Constituição.”

 

Don Gallo não cessa de criticar a Igreja, mas jamais foi excomungado. O prelado genovês também é bastante ativo na política não relacionada à Igreja. De fato, Don Gallo encarna o jargão de que não há nenhuma esfera da vida pública e privada onde não haja política. Ele é, por exemplo, o homem a tentar concretizar um diálogo entre seu amigo Beppe Grillo, líder do Movimento Cinco Estrelas (M5S) e Pierluigi Bersani, secretário-geral do Partido Democrata (PD). (Leia à página 22 as últimas sobre a situação na Península.)

“Impossível não falar, ao mesmo tempo, em férias do governo e do papa aqui na Itália”, diz Riccardo Amati, ex-diretor em Londres da TV Bloomberg e atualmente analista político na Itália. “A demissão do papa foi uma clamorosa denúncia da corrupção, assim como a vitória de Grillo”, argumenta. O populismo sempre funcionou na Itália, basta considerar o fato de que Berlusconi foi o premier mais longevo no pós-Guerra. “Mas esses modos de se desfazer de castas eclesiásticas ou políticas são tão novos que defini-los como movimentos impulsivos ou populistas me parece redutivo.” Amati diz não ter certeza se essas “férias” na Igreja e na política mudarão algo nas duas áreas. “Mas de qualquer forma deram um choque necessário e, de agora em diante, quem se ocupa da coisa pública terá de levar os recentes acontecimentos em conta.”

Em um café de Trastevere, um bairro ao sul do Vaticano, Desiree Petrocchi, alta funcionária de uma multinacional, admite que não sabe até que ponto os grillini, grilinhos, têm alguma substância. “Mas não podemos separar as ações do papa, que é bispo da Igreja de Roma, das eleições políticas.” O papa, diz ela, é considerado italiano na Bota. De saída, os prelados, por baixo, custam aos contribuintes italianos mais de 4 bilhões de euros ao ano. Uma soma superior ao custo da política. Argumenta Maltese: “O Vaticano é um Estado estrangeiro que vive graças à Itália, mas tem direito de cuspir no prato em que come”.