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Procura-se um líder global

por The Observer — publicado 08/11/2011 13h23, última modificação 08/11/2011 16h48
'Se eu fosse a revista Forbes, deixaria de publicar tabelas de liderança global até que surja alguma evidência de que ela realmente existe'

Por Andrew Rawnsley

 

 

A revista Forbes acaba de publicar sua lista anual das "pessoas mais poderosas do mundo". No topo da suposta liga dos campeões está Barack Obama, um homem tão poderoso que consegue quase nada contra um Congresso destrutivo que não quer trabalhar com ele para abordar os enormes problemas dos Estados Unidos, quanto menos os do resto do mundo. Em segundo lugar a Forbes coloca Vladimir Putin, que me parece simplesmente errado. É verdade, ele arranjou as coisas de modo a não ser muito perturbado pela oposição interna, mas a Rússia há muito tempo entregou à China sua posição de principal rival global dos Estados Unidos, e neste momento sua força econômica depende arriscadamente do preço das matérias-primas. O número 3 é Hu Jintao, presidente da China. Este parece mais correto, porque praticamente todo mundo aceita a tese da ascensão do Oriente. Mas o líder dos nervosos autocratas de Pequim talvez não se sinta tão poderoso ao olhar para os americanos e europeus abalados pela crise.

Em quarto lugar está Angela Merkel. O tamanho e as forças econômicas fundamentais de seu país certamente devem fazer de Frau Merkel a líder preeminente na Europa. Mas a chanceler alemã está se mostrando desigual na luta para salvar o projeto europeu, ao qual seu país se dedicou nos últimos 60 anos.

Somente um britânico está na lista da Forbes -- David Cameron entrou raspando entre os dez primeiros. Ele é classificado abaixo de dois Bens, o papa Bento 16 e Ben Bernanke, do Federal Reserve dos EUA, mas acima de Sonia Gandhi e Nicolas Sarkozy. Esta não é a observação mais patriótica que já fiz na vida, mas a décima pessoa mais poderosa do mundo é provavelmente um excesso de generosidade para com o primeiro-ministro do Reino Unido. Ele preside uma economia anêmica. Sua estratégia de redução do déficit e as fortunas políticas ligadas a ela estão ameaçadas de destruição por forças internacionais muito além de seu controle. O poderio militar a sua disposição está tão emasculado que, durante o recente conflito na Líbia, a Marinha Real não pôde destacar um navio de guerra para patrulhar o litoral da Grã-Bretanha. Seu país poderá literalmente afundar em um futuro previsível se os nacionalistas retirarem a Escócia do Reino Unido. Além disso, Cameron cavalga uma coalizão que começa a demonstrar fraturas de fadiga, especialmente quanto a como reagir à crise na Zona do Euro.

Quando a Forbes começou a elaborar sua liga do poder, provavelmente imaginou que induziria os leitores a arfar de medo ou engasgar de respeito. Mas o efeito da publicação dessa lista neste momento é salientar quão impotente qualquer líder individual, por maior que seja seu poderio nominal, pode ficar diante de uma emergência global. Há meses existe uma crescente sensação de que os líderes são qualquer coisa menos os senhores dos acontecimentos e os capitães do destino de seus países.

Isto ficou ainda mais claro na reunião anual dos líderes globais, em uma Cannes açoitada por tempestades. Os franceses haviam preparado todos os adereços cerimoniais costumeiros de poder e pompa, algo que, como nós britânicos, eles fazem bastante bem. Havia bandeiras enormes, hectares de tapete vermelho, a guarda de honra em uniformes da era napoleônica, limusines à prova de balas e comunicados cheios de aspirações e vazios de atos. Nunca os rituais das cúpulas pareceram tão ocos, pois o G20 fracassou completamente em gerar uma solução para a crise da Zona do Euro. Ele tampouco avançou na missão de abordar os desequilíbrios de longo prazo na economia global. No máximo, tornou ainda mais grave o risco de implosão, ao anunciar de forma tão dramática a incapacidade desses líderes de enfrentar desafios nessa escala.

Foi especialmente terrível para Nicolas Sarkozy. Uma reunião originalmente concebida -- pelo menos na sua mente -- para salvar o mundo tornou-se refém dos loucos dramas da Grécia: o liga-desliga do referendo, o liga-desliga da renúncia do primeiro-ministro, o liga-desliga da formação de um governo de união nacional. A Grécia é uma potência insignificante, e já o era antes de cair no redemoinho. A economia grega é apenas 2% do PIB europeu e uma porcentagem ainda menor do PIB global. O fato de que um país tão pequeno possa dominar uma cúpula dos mais poderosos da Terra foi um lembrete -- se é que alguém precisa ser lembrado -- da interconectividade do mundo. Uma infecção que começa em um pequeno lugar pode rapidamente se espalhar para lugares muito maiores. Também poderia ter sido um lembrete de que governos individuais não podem solucionar problemas internacionais. Nunca antes eles foram tão dependentes de chegar a um acordo e raramente foram tão inaptos ao fazê-lo.

Existem motivos específicos para a fragilidade de cada um dos atores. Barack Obama foi a Cannes pedir que os europeus agissem juntos, mas o presidente americano não tem autoridade moral para unir as cabeças quando seu próprio país tem uma posição fiscal temível e uma política toxicamente disfuncional. Falta quase exatamente um ano para que os EUA decidam entre Barack Obama e quem os republicanos finalmente concordarem para ser seu candidato à Casa Branca. Este é historicamente um período no qual os presidentes candidatos a um segundo mandato são consumidos pelos assuntos domésticos.

Nicolas Sarkozy deve enfrentar o veredicto dos eleitores ainda mais cedo. Seu mandato expira em abril. Ele parecia esgotado em Cannes. Eu não acho que seja seu novo bebê quem está lhe tirando o sono, mas seus índices de aprovação abissais. Certamente devemos estar no último ato da comédia obscura chamada Silvio Berlusconi. Em sua companhia, Angela Merkel deveria parecer um colosso. Mas a chanceler alemã, que também enfrenta uma eleição geral no ano que vem, é outra líder assustada. Para frustração de seus pares, incluindo o contingente britânico no G20, Merkel se opôs obstinadamente a algumas medidas que poderiam ajudar a resolver a crise do euro. Segundo um assessor de David Cameron, "muita pressão foi imposta a Merkel" para dar ao Banco Central Europeu (BCE) o poder de assumir o papel tradicional de um banco central em uma crise e tornar-se um credor de último recurso. Não adiantou. Frau Merkel resiste não porque seja forte, mas porque é vulnerável, uma prisioneira dos eleitores, da Constituição e da história da Alemanha. Os alemães relutam em assinar compromissos financeiros ainda maiores com o resto da Europa. Eles temem (e não sem razão) que isso daria aos países devedores menos incentivos para aplicar reformas. Você acreditaria em alguma promessa feita por Silvio Berlusconi?

Memórias da hiperinflação na República de Weimar, e a quem e ao quê ela levou, moldaram profundamente a reação da Alemanha à ideia de que o BCE deva poder imprimir seu caminho para sair da crise. Frau Merkel está ainda mais contraída pela ansiedade de que os contribuintes alemães se revoltem contra ela se preencher cheques ainda maiores para socorrer banqueiros imprudentes em países irresponsáveis do Club Med. Pode-se culpar um trabalhador e contribuinte alemão por resistir a isso? Quem gostaria de entregar um monte de dinheiro quando o agradecimento que se recebe é ser chamado de nazista?

Para alguns observadores, o G20 foi um retrato que captou a mudança no poder econômico global de um Ocidente em declínio para um Oriente e um Sul ascendentes. Lá estava o presidente Sarkozy passando o chapéu para as delegações chinesa, indiana e brasileira, suplicando para que fornecessem algum dinheiro para o Fundo Europeu de Estabilização Financeira, o órgão de combate à crise. Uma imagem simbólica foi apresentada: o presidente francês esperando em sua passarela vermelha por um Dr. Hu atrasado. Que então recusou o pedido de ajuda. Parecer um mendigo é triste; ser rejeitado é humilhante.

A China realmente está com a carteira recheada graças a suas enormes reservas de divisas estrangeiras. Mas isso não torna o Dr. Hu tão forte quanto pode parecer para os europeus. Ele dirige uma ditadura que está assustada com as tensões domésticas e a ameaça de instabilidade interna. Apesar de todos os seus avanços econômicos, milhões de chineses continuam vivendo em uma terrível pobreza rural. Em termos absolutos, a economia da China está em uma trajetória para superar a dos EUA e a da Europa, mas somente muitas e muitas décadas depois, ou nunca, a China será igual aos americanos ou europeus em termos de PIB per capita. Pode-se entender por que os chineses (renda média anual de cerca de US$ 5 mil) relutam em preencher um cheque para salvar os gregos (US$ 28 mil por ano), quando os alemães (US$ 40 mil) não querem contribuir com mais. Provavelmente devemos ficar aliviados, de qualquer modo. O dinheiro de Pequim viria com condições indesejáveis e talvez intragáveis.

Portanto, o G20 provou que seus líderes são fortes em apenas um sentido. Cada qual tem poder suficiente para vetar a ideia de outro sobre como se safar da crise. A China disse não ao grito de socorro francês. A Alemanha resistiu às súplicas de todos os outros para dar mais poder ao Banco Central Europeu. Os Estados Unidos ficaram frios diante dos pedidos da Grã-Bretanha para fazer do FMI os salvadores da situação. O resultado é que nos aproximarmos ainda mais da catástrofe absoluta de uma onda de moratória soberana na Zona do Euro que faria a fusão dos bancos em 2008 parecer branda, em comparação. Se eu fosse a revista Forbes, deixaria de publicar tabelas de liderança global até que surja alguma evidência de que ela realmente existe.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves