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The Observer

Primavera egípcia 2014: a contrarrevolução está concluída?

por The Observer — publicado 25/03/2014 14h01, última modificação 25/03/2014 14h04
A alegria da revolução de janeiro de 2011 deu lugar ao retorno de uma forma de governo autoritário. Quanto poder o novo homem forte do país, Abdel Fatah al-Sisi, pretende exercer?
Mohamed El-Shahed / AFP
Egito

Manifestantes favoráveis ao presidente deposto Mohamed Morsi fazem protesto na Universidade do Cairo, em 19 de março

Por Patrick Kingsley

O ativista Alaa Abd El Fattah é um dos pelo menos 16 mil dissidentes políticos que mofam nas prisões egípcias, e foi em sua cela que ele escreveu o seguinte na semana passada: "Todo mundo sabe que a maioria das pessoas presas é jovem e a opressão visa toda uma geração para subjugá-la a um regime que não quer, e em todo caso não pode, acomodá-la ou incluí-la".

É uma avaliação sombria do Egito contemporâneo, três anos e dois meses depois de uma revolução que deveria dar poder a Abd El Fattah e a muitos dos que estão presos com ele. Em sua carta, Abd El Fattah salienta a natureza arbitrária de muitas dessas detenções, a tortura a que milhares provavelmente foram submetidos – e a apatia, e muitas vezes o entusiasmo, do público por esse crime.

Entre os revolucionários e defensores dos direitos do Egito não é mais notável dizer que o país voltou à era de Hosni Mubarak – ou pior. Ao retrato feito por Abd El Fattah de uma revolução de ponta-cabeça, outros poderiam acrescentar, entre muitas outras críticas: a brutalidade desenfreada da polícia; jornalistas presos; a proibição do tipo de protesto que conduziu à revolta de 2011; o exílio de Mohammed ElBaradei e Wael Ghonim, dois dos políticos e ativistas mais ligados à queda de Mubarak. Mais a provável eleição para a presidência do chefe do exército, cuja presença acompanhou a volta da opressão no estilo Mubarak: Abdel Fatah al-Sisi.

No gabinete, escreve um ex-ministro sobre Mohamed Morsi, cuja presidência de um ano foi derrubada em julho passado: "Não restou ninguém que tenha qualquer ligação com a revolução de 25 de janeiro". A nuance da tese de Yahia Hamed é discutível, porque o próprio governo de Morsi tinha inclinações autocráticas, e a medida em que a Irmandade Muçulmana de Morsi participou do início da rebelião em 2011 é contestada há muito tempo. Mas a premissa do general Hamed se mantém: a recente organização do gabinete egípcio viu a saída das vozes mais moderadas do governo – os liberais seculares que apoiaram a derrubada de Morsi em julho passado, não porque desejassem maior autoritarismo, mas porque queriam menos.

Mas em que medida tudo isso marca um círculo completo de volta à ditadura permanente – e quão semelhante essa ditadura seria da de Mubarak – está aberto a discussão. Às vezes se supõe que o poder de Sisi seja total. Certamente ele goza de mais influência que qualquer outro egípcio e tem um grande número de seguidores fiéis. Mas quanto poder ele exerce diretamente – e quanta coesão existe entre exército, polícia secreta, o gabinete e o judiciário – é uma incógnita.

"Para mim, a característica mais notável deste momento é que ninguém está no comando", diz Michael Hanna, um analista da política egípcia. "Os militares não estão realmente no comando, nem tomando decisões sistêmicas." Mesmo que Sisi seja a favor, ele poderia não estar diretamente coordenando a opressão no Egito – que pode ser resultado de diferentes facções em outras partes do Estado usando um vazio de liderança para se afirmar. "Então o verdadeiro teste vem depois da eleição", diz Hanna.

"Um presidente Sisi – com o apoio dos militares e com o que ele considera um mandato popular – decidirá que pode tomar decisões?"

Seja qual for sua forma de agir, também não se deve supor que Sisi represente as mesmas elites que Mubarak representou. Sisi pode ter sido chefe da inteligência do exército sob o ditador deposto, e o último primeiro-ministro do Egito pode vir do Partido Democrático Nacional (PDN) de Mubarak. Mas nos últimos anos de Mubarak oficiais graduados do exército estavam em disputa com a liderança do PDN, cujos instintos neoliberais ameaçavam o vasto império econômico dos militares. Quando Mubarak caiu, deixando generais mais velhos no comando, essas autoridades do PDN – que inclui o filho de Mubarak, Gamal – estiveram entre os primeiros a sofrer a retribuição.

"O PDN negligencia a sociedade", diz uma autoridade, que faz questão de retratar o exército como a salvação do Egito. "Sua corrupção é o motivo pelo qual a população continua sofrendo. Eles nunca voltarão e a era Mubarak nunca voltará. Uma nova era está chegando."

Como mostra a carta da prisão de Abd El Fattah, muitos temem que essa nova era traga de todo modo muitas das marcas de opressão da antiga. Mas outros também afirmam que a terrível situação econômica do país não permitirá que um novo governo use violência para esmagar indefinidamente a dissidência. Como mostra uma crescente série de greves de trabalhadores, as autoridades não têm nada a oferecer ao público em troca da abolição de seus direitos políticos. E mesmo que a previsão imediata seja obscura, diz esse argumento, o resíduo dos governos revolucionários permanecerá.

"Não acho que você possa reverter os ganhos de princípios liberais dos últimos anos", resume Samir Radwan, o primeiro ministro das Finanças do Egito na era pós-Mubarak, para o qual a sociedade civil do país ainda está em muito melhor forma que quatro anos atrás.

Hala Shukrallah, que se tornou a primeira mulher líder de um partido político do Egito no início deste mês, é um caso destacado. Sua ascensão seria inimaginável quatro anos atrás – um reflexo, disse ela ao Observer, de "mudanças reais e profundas na psique da população e da juventude egípcias".

Do mesmo modo, vários ativistas foram detidos por fazerem campanha contra a última Constituição egípcia, aprovada em janeiro. Mas o texto em si, embora imperfeito, representou um pequeno ganho incremental: é comparativamente mais liberal que qualquer de suas antecessoras.

Os detidos entram sob a custódia da polícia esperando ser espancados e torturados – mas nem tudo é um tráfego de mão única. Para surpresa de muitos, os policiais que assassinaram Khaled Said em 2010 – o ataque foi um dos pontos de partida da revolução de 2011 – tiveram suas sentenças prolongadas no mês passado. O capitão de polícia culpado pela morte com gás de 37 prisioneiros dentro de um microônibus da prisão em agosto passado foi condenado a dez anos de prisão na semana passada. São condenações extremamente raras e quase farsescas em comparação com as sentenças (inclusive de morte) que alguns seguidores de Morsi receberam simplesmente por protestar. Mas, em um momento de influência aparentemente total da polícia, dois juízes ainda foram independentes o suficiente para condenar policiais em serviço.

Também foi intrigante ver o rosto de Hisham Geneina espiando de uma página de jornal egípcio na semana passada. Geneina, o auditor-chefe do Egito, havia dado uma entrevista em que criticou a polícia por obstruir a pós-auditoria de suas contas – e mais tarde ele expandiu suas alegações para o Observer. Os contadores que fizeram a pré-auditoria da polícia, disse Geneina, foram pagos pela polícia – e isso, ele afirmou, causou um evidente conflito de interesses. Ao mesmo tempo, a equipe de pós-auditoria de Geneina às vezes não recebeu os registros necessários. Não foi uma explosão rebelde, mas diante do clima político também não foi uma aquiescência cordata.

Mas, para os milhares de pessoas presas ou para os jovens islâmicos cada vez mais frustrados com a inutilidade dos protestos de rua, algumas sugestões de otimismo pouco significam em meio a um ambiente de opressão generalizada. Em sua carta da prisão, Abd El Fattah afirma que os egípcios permitiram ser enganados por uma falsa promessa de progresso gradual e pela "encenação" de processo democrático.

"A encenação ajuda a normalizar a situação", escreve El Fattah, "ela [distrai as pessoas] para caminhos inúteis: negociações, conselhos, representações jurídicas, esforços com a mídia – até que a compreensão comum que qualquer pessoa acusada é culpada, que cabe aos revolucionários evitar ser presos ou mortos."

Ele termina com um chamado crescente à ação: "Todo mundo sabe: não há esperança para nós que entramos na prisão, exceto através de vocês que certamente seguirão. E então, o que vocês vão fazer?"

O sucesso do próximo presidente egípcio pode depender da resposta.

*Alaa Abd El Fattah foi libertado sob fiança em 23 de março, após a publicação original da reportagem

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