Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Pregação no deserto

Internacional

Oriente Média

Pregação no deserto

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 10/09/2010 12h44, última modificação 11/09/2010 14h19
São poucas as chances de progressos entre Israel e palestinos

Em 2 de setembro, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, encontrou-se com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, em Washington, com o patrocínio de Barack Obama e Hillary Clinton, participação do Egito, da Jordânia e do chamado Quarteto do Oriente Médio (EUA, ONU, União Europeia e Rússia). A proposta era chegar a um acordo de paz viável no prazo de um ano.

Se tivesse sucesso, poderia justificar, retroativamente, o prematuro Nobel da Paz concedido ao presidente dos EUA. Se persuadisse a opinião pública por alguns meses, poderia, talvez, evitar a derrota histórica para a qual caminha seu partido: uma pesquisa da Gallup indicou 51% de intenções de voto em republicanos ante 41% em democratas, a mais ampla margem a favor dos primeiros em 68 anos.

Mas tudo indica que não será mais convincente do que as proclamações por Obama de “missão cumprida” no Iraque e de restauração da independência do país- pelo primeiro-ministro Nuri al-Maliki. Essas não passaram de remake da ficção protagonizada, na primeira versão, pelos antecessores Bush Júnior e Ibrahim al-Jaafari, sem ter muito mais chances de se tornar realidade. Da mesma forma, a nova negociação repete em condições ainda mais desfavoráveis a de junho de 2003 entre Bush, Abbas e Ariel Sharon, cujo fracasso ficou patente em questão de semanas. Desta vez, o prazo de validade pode ser de apenas 24 dias: a data em que Israel- pretende voltar a liberar as construções de assentamentos judeus na Cisjordânia.

De 2003 para cá, a sociedade israelense foi tomada por uma onda macarthista, disposta a calar a boca dos críticos do sionismo nas universidades, cassar o mandato de deputados árabes, exigir juramento de lealdade dos cidadãos e criminalizar a dissidência. Se Sharon parecia ter uma estratégia de negociação e o respaldo de um partido conservador relativamente sensato e disciplinado, Netanyahu depende de uma coalizão de extremistas para se manter no poder. Isso inclui o partido Shas: o rabino Ovadia Yosef, seu líder, ao saber do agendamento do encontro em Washington, foi mais explícito ao augurar o extermínio do povo palestino do que Mahmoud Ahmadinejad jamais foi ao prever o fim do Estado de Israel: “Abu Mazen (Abbas) e seu povo maligno devem desaparecer deste mundo. Deus deve destruí-los com uma praga, eles e seu povo”. Antes, já havia clamado: “É proibido ser misericordioso com eles (árabes). É preciso bombardeá-los com mísseis e aniquilá-los”.

Se Abbas, em 2003, podia se considerar líder de todo o povo palestino com razoável legitimidade, hoje está desprestigiado, enfrenta o governo palestino rival do Hamas, em Gaza, e pode, no máximo, responder por um acordo parcial, em relação aos palestinos da Cisjordânia.

Bush, em junho de 2003, parecia vitorioso e em ascensão – e, de qualquer forma, Israel não tinha razões para esperar que a conjuntura política nos EUA se tornasse ainda mais favorável a seus propósitos. Hoje, Obama é um líder enfraquecido e a perspectiva é de que, em questão de meses, o Congresso dos EUA se torne mais conservador e antiárabe – e as chances de eleição de um presidente do mesmo estilo em 2012 são crescentes. Israel- parece disposto a esperar, talvez também a apostar em uma guerra de maiores proporções envolvendo o Irã- -para- --reforçar sua posição no Oriente Médio.

Por que Israel cederia algo substancial agora? Como Abbas aceitaria um acordo no qual não obtivesse nada para seu povo?
Na sua primeira fala em Washington, Netanyahu, embora se dissesse disposto a “encontrar um compromisso histórico”, ofereceu apenas uma imagem de melhora de renda para os palestinos, com uma Cisjordânia “dominada por prédios de apartamentos, não de mísseis; com estradas cheias de comércio, não de terror”. O enfoque economicista já foi tentado antes, mas viver em enclaves inviáveis e sobreviver trabalhando para Israel não é uma perspectiva que os palestinos julguem sedutora.
Os ministros israelenses não têm um discurso único. Ehud Barak, ministro da Defesa trabalhista, disse que o acordo poderia incluir a cessão de parte de Jerusalém Oriental aos palestinos – o que seria, por fim, uma concessão de Israel que indicaria real disposição para negociação. Mas foi logo desmentido por um assessor de Netanyahu, que esclareceu que a posição do governo é que a cidade continuará como “capital eterna e indivisível” de Israel.

No fim das contas, na política israelense, sempre prevalece a vontade do primeiro-ministro. Quando Ehud Barak, no cargo, decidiu retirar-se do Líbano e Ariel Sharon de Gaza, o gabinete foi comunicado quando a decisão estava tomada. A questão é manter o governo unido após uma decisão controvertida, mas Netanyahu não parece querer arriscar nessa direção. Pelo contrário, blinda-se contra qualquer concessão. Antes da negociação, colocou três condições: que o acordo pusesse ponto final ao conflito, que Israel fosse reconhecido como Estado judeu (logo, seu direito a proibir o retorno dos árabes expulsos de seu território) e que houvesse “garantias satisfatórias” de segurança para Israel, o que se traduz em restrições práticas à soberania de um eventual Estado palestino.
Abbas quer, ao menos, o congelamento efetivo dos assentamentos judeus na Cisjordânia para negociar, mas pode não obter nem isso: Netanyahu re-cusou-se a oferecer a prorrogação do congelamento, que nunca foi inteiramente respeitado, nunca abrangeu Jerusalém Oriental e expira em 26 de setembro.

Do lado palestino, um atentado do Hamas matou quatro colonos judeus da Cisjordânia, numa aparente tentativa de sabotar a possibilidade de negociação. Uma Coalizão Palestina Contra as Negociações Diretas, formada por ONGs, movimentos sociais e partidos palestinos nacionalistas e de esquerda (Frente Popular, Frente Democrática, Partido do Povo Palestino e Iniciativa Nacional Palestina) protesta contra uma negociação nas atuais condições.
Infelizmente, não há como ser otimista: as negociações provavelmente não avançarão e os democratas dos EUA perderão a maioria na Câmara e no Congresso, tornando ainda mais difícil a Obama liderar novas iniciativas.

registrado em: