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Praça Vermelha: a nova Tahrir?

por Gianni Carta publicado 08/12/2011 11h33, última modificação 09/12/2011 14h39
Gorbachev e Clinton dizem que houve fraude nas legislativas. Putin diz que castigará exageros em novo protesto previsto para sábado
putin

Detidos em protestos contra o premier e fraude nas legislativas chega a mil. Gorbachev e Clinton criticam pleito; premier diz que castigará exageros. Foto: Kirill Kudryavtsev / AFP

Vladimir Putin ainda é o político mais popular da Rússia. Em 4 de março será eleito, pela terceira vez, presidente.

Mas o primeiro-ministro, presidente de 2000 a 2008, está nu.

Desde as legislativas de domingo, milhares de pessoas protestam nas ruas de Moscou e São Petersburgo contra o premier e fraude eleitoral. O ex-premier Mickail Gorbachev pediu a anulação do voto e a realização de novas eleições. "Acredito que ignorar a opinião pública descredibiliza as autoridades e desestabiliza a situação", disse Gorbachev para a agência de notícias Interfax.

Por sua vez, Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, declarou na quinta-feira 8: "Expressamos nossas preocupações que consideramos fundamentais sobre o pleito. E apoiamos os direitos e as aspirações do povo russo de obter progressos e de esperar um futuro melhor".

Putin rebateu alegando que o objetivo dos Estados Unidos é estimular os protestos. "Ela (Clinton) deu o tom para alguns ativistas da oposição, deu o sinal a eles, eles ouviram esse sinal e iniciaram sua atividade."

Detalhe: os protestos tiveram início antes de Clinton levantar a possibilidade de que o pleito teria sido fraudado.

A Rússia Unida, liderada pelo atual presidente Dmitri Medvedev, fantoche de Putin, obteve 238 deputados na Duma, Câmara Baixa do Parlamento, em um total de 450. Ou seja, 12 cadeiras acima da maioria absoluta. Assim, a agremiação perdeu a maioria de dois terços para modificar a Constituição. Apesar de ter amealhado 49,54% dos votos, a Rússia Unida sofreu uma perda de 15% em relação às eleições de 2007.

Segundo Yevgenia Albats, diretora do semanário Novoye Vremya, mais de 15% dos votos foram falsificados. “O resultado real da Rússia Unida não supera 35%.” Para a jornalista do semanário cujo site foi alvo (entre tantos outros) de um ciberataque, tratou-se de um voto de protesto contra Putin.

O primeiro-ministro é, de fato, o grande derrotado.

Sua reação foi colocar mais policiais nas ruas. Helicópteros sobrevoam as grandes cidades. "Todos exageros serão punidos", avisou Putin na quinta. Sábado 10 haverá manifestações em Moscou, São Petersburgo e em outras cidades. O temor de uma reção truculenta por parte da polícia paira no ar.  A Praça Vermelha seria a nova Tahrir?

Até quinta mil pessoas haviam sido detidas, segundo a agência oficial de notícias Itar-Tass. Entre elas, Alexei Navalny, blogueiro e autor do slogan da campanha pelo voto útil -- “contra o partido dos ladrões e corruptos” -- nas legislativas de domingo. Navalny foi condenado a 15 dias de cárcere.

O que aconteceu com a imagem de Putin? Com seus enigmáticos olhos de ex-espião da KGB, esse “homem de ação” encantou – e constrangeu – russos e cidadãos mundo afora.

Desde sua chegada ao Kremlin, o judoca Putin é fotografado aplicando golpes indefensáveis. Eis o recado: Putin, de 58 anos, é forte. E à imagem de Mussolini também mostra seu largo torso nu para as câmeras. Na Sibéria, numa inesquecível viagem em 2008, o vimos, sempre de torso nu à vista, caçar tigres, pescar, cavalgar.

Ridículo ou não, ninguém discutia a sua popularidade.

Mas quando, em setembro, anunciou que se candidataria à presidência e Medvedev seria seu primeiro-ministro, a Rússia Unida perdeu 9 pontos porcentuais em uma escassa semana. Para numerosos cidadãos caiu a ficha: o acordo entre os dois líderes revelou como o processo político, baseado em lealdades mafiosas, como aquelas existentes em um mercado livre caótico, é de um inaudito cinismo. Cidadãos russos constataram, assim, que os próximos pleitos não passariam de espetáculos circenses.

E vale acrescentar: serão duradouros espetáculos circenses. Graças a Medvedev, o mandato presidencial é agora de seis anos, em lugar de quatro. Assim sendo, é provável que Putin, se for novamente candidato em 2018, permaneça no poder até 2024. Ele superará Leonid Brezhnev, que ficou 18 anos na liderança da União Soviética. E só perderá para Stalin, ditador por 31 anos.

Até quando a maioria do povo aturará o ex-espião? Enquanto uma minoria enriquece num corrupto sistema totalitário, o nível de vida da vasta maioria despenca. E, claro, o medo de uma ditadura paira no ar.

Isso porque, como vimos na segunda, quem manifesta contra o premier pode acabar atrás das grades. Durante seus mandatos, na presidência e como premier, jornalistas e empresários foram intimidados, presos e assassinados.

No mês passado, num evento de artes marciais Putin subiu no ringue para celebrar com o lutador vitorioso e foi vaiado. As vaias para Putin e sua legenda, como as manifestações, estão se tornando cada vez mais rotineiras. Resta saber como ele reagirá.

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