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Internacional

Soldado sequestrado

"Ninguém está tentando fazer nada", diz família

por Clara Roman — publicado 26/08/2011 13h28, última modificação 27/08/2011 12h17
Em carta, publicada na sexta-feira 26 em razão do aniversário do soldado Gilad Shalit, sequestrado pelo Hamas, familiares escrevem sobre a perseverança e a descrença no governo

Noam Shalit repondeu com um “não” seco e incisivo, quando questionado se confiava no exército israelense. Há mais de um ano, ele acampa em frente à casa do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e só sairá, segundo ele, quando voltar a ver seu filho Gilad, soldado sequestrado em território israelense próximo à faixa de Gaza em 2006 por forças do Hamas.

Gilad Shalit fazia a guarda de sua base e tinha apenas 19 anos quando foi capturado pelo grupo de resistência palestino. Era mais um dia, aparentemente tranquilo, dos três anos que Gilad teria de passar no exército a cumprir o serviço obrigatório a todos os jovens do país. Militantes do Hamas adentraram no território israelense por túneis, e levaram o jovem para Gaza. Pouco depois, Israel reagiu dando início ao bloqueio a Gaza, um dos mais longos da história e responsável por um aumento radical da miséria na região. Uma pesquisa recente apontou que um quinto da população de Gaza vive com um dólar por dia. A impossibilidade de se desenvolver a maior parte das atividades econômicas fez com que o Hamas se tornasse o principal empregador do local.

A resistência de Noam é o símbolo de um movimento mundial de comoção e de todo um ideário militar que se formou após o sequestro. Há alguns meses, a comunidade judaica de Porto Alegre, por exemplo, organizou uma passeata em prol da libertação do jovem. Mensagens de apoio de vários países foram pichadas nos muros da residência do premier israelense Benjamin Netanyahu e no acampamento onde Noam vive. Nos aniversários do episódio, centenas se reúnem no lugar onde Shalit foi visto pela última vez. Para o exército, a não recuperação do jovem significa uma quebra de confiança do contrato tácito estabelecido com todos os outros combatentes israelenses em ação.

Mas os sinais de que a esperança acaba começam a transparecer. Noam é lacônico, um homem visivelmente abalado. Sequer sorri quando visitantes lhe contam de manifestações em apoio à libertação de Shalit no exterior. “Ele envelheceu muito desde a última vez que o vi”, afirma Dan Rushansky, jovem que acompanhou a trajetória de Noam enquanto servia ao exército. “Viajou o mundo todo, falou com diversos ministros, mas as reuniões eram de fachada.” A movimentação infrutífera levou Noam e sua mulher a montar acampamento em frente à residência do primeiro-ministro.

A desilusão, transparente na ausência de palavras, foi traduzida em uma carta, escrita na sexta-feira  26 em razão do aniversário de Shalit, que completa 25 anos no domingo 28. Publicada no portal israelense Ynet, o texto é um misto de perseverança com uma descrença absoluta nas autoridades. "Estamos aqui, não desistimos", diz o texto. Ao longo dos parágrafos, a família explica ao seu amado filho todo esforço empreendido, todos os "nãos" e, sobretudo, a desconfiança em relação às afirmações oficiais, que insistem em dizer que "está sendo feito tudo ao alcance para libertar o soldado", enquanto alimentam o medo da população, relacionando a libertação de Shalit com o retorno do terror ao país. "Ninguém está realmente tentando fazer algo, em contraposição a tudo que é falado", diz a carta.

"Cada vez mais, com o passar do tempo, vemos como o senso de segurança da nação, da geração jovem que serve ao Exército e dos pais que os enviam, está cada vez mais fraco, sob a luz da quebra de nosso pacto não escrito (e não pela primeira vez) entre o estado e seus soldados - a obrigação primária - de trazer cada soldado de volta para casa sempre", escrevem os familiares.

Na semana passada, Khaled Meshal, do Hamas e o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barack, participaram de uma negociação mediada pelo Egito para por fim ao impasse de Shalit. As primeiras notícias pareciam indicar um acordo. O Hamas libertaria Shalit em troca de 450 prisioneiros palestinos em prisões israelenses. Mas, na quarta-feira 17, Meshal afirmou que não aplacaria a demanda para libertar o soldado, como fora solicitado por Barack, visto que o ministro israelense ofereceu colocar em liberdade um número inferior de presos palestinos. Na quinta-feira 18, ataques terroristas do grupo palestino Comitê de Resistência Popular no sul de Israel iniciaram um fogo cruzado entre o exército israelense e grupos da faixa de Gaza. Poucos dias depois, o Hamas anunciou o fim da trégua informal estabelecida depois da Operação Chumbo Fundido em 2009, que deixou 13 israelenses e mais de mil palestinos mortos. Cessar-fogo peculiar, uma vez que nenhum dos lados deixou de fazer pequenos ataques ocasionais nos últimos dois anos. Mesmo assim, o Hamas voltou atrás na segunda-feira 22 e anunciou uma nova trégua. Israel, no entanto, continua fazendo ataques diários à Faixa de Gaza.

A última notícia de Shalit remonta a 2008. Além de Shalit, outro prisioneiro israelense continua desaparecido no Líbano. Foi sequestrado há 20 anos, e as últimas notícias dele chegaram em Israel há dez. Ao mesmo tempo, calcula-se que Israel tenha cerca de 6.000 palestinos em suas prisões.  De um lado, o resgate a qualquer custo de Shalit simboliza a promessa de que o exército israelense está disposto a tudo para recuperar o soldado. No entanto, nada impede que a devolução gere uma rotina de sequestros e subsequentes negociações. Pais de vítimas de terroristas que devem ser libertos se opõem aos possíveis acordos.

Shalit é uma peça estratégica na milimétrica guerra do Oriente Médio. Seu sequestro escancara a fragilidade do exército de Israel e o vínculo inevitável entre suas ações e a opinião de milhares de pais e mães cujos filhos dedicam dois ou três anos de suas vidas à instituição. Em 2006, o sequestro de um carro com soldados israelenses no Líbano, somado ao disparo de mísseis pelo grupo Hezbollah, deu início a uma guerra sangrenta que durou 34 dias. Calcula-se que 1.200 civis libaneses e 157 soldados israelenses morreram. O conflito se encerrou com uma resolução da Onu, em um acordo frágil. No início do mês, o ministro libanês da Defesa acusou Israel de ter rompido a resolução depois de um tiroteio na região de fronteira.

A nova Esparta

Nas ruas de Jerusalém e de Tel Aviv, os rifles estão em todos os lugares, reflexo de uma militarização intensiva do país. Os principais personagens desse processo são jovens de cerca de 20 anos, que ingressam no exército assim que acabam o ensino médio e passam dois (para as mulheres) e três anos (para os homens) exercendo os mais variados serviços, em meio aos treinamentos militares.

Nitsan Menda, 20, está há um ano no exército. Assistente social, ela trabalha cerca de 17 horas por dia ajudando soldados com suas necessidades financeiras. Tem duas horas para refeições por dia, mas confessa que muitas vezes deixa de comer para ter algumas horas de sono. De uma família de classe média, é sustentada pelos pais, uma vez que recebe apenas 100 dólares mensais pelos serviços prestados.

”É muito difícil acordar todo domingo e ir ao exército, é exaustivo”, diz. Mas admite alguns pontos positivos, como a independência e os amigos. Depois de completo o serviço obrigatório, o exército oferece ao soldado continuar na instituição recebendo gordos salários e trabalhando apenas 8 horas por dias. Mas Nitsan está decidida deixar a instituição assim que possível, pois, segundo ela, nada pode comprar sua liberdade. “Dinheiro não paga você ser um cidadão novamente”, diz. Ela vê com certa desconfiança as pessoas que decidem estender sua temporada nas Forças Armadas. “Certas pessoas amam esse trabalho porque ele dá poder”, diz ela. Apesar de treinamentos mensais de tiro, Nitsan nunca teve de participar de combates ou passar por situações de risco. Apesar de se sentir presa, Nitsan acredita na importância do exército, pois, na sua visão, Israel vive num contexto muito perigoso.

O caso de Dan Rushansky é diferente. Com 23 anos, ele já concluiu há dois seu serviço. Como de praxe, passou um ano viajando pelo mundo, com uma passagem, inclusive, pelo nordeste brasileiro. Quando era soldado, Dan desarmava bombas, tarefa relativamente arriscada. Esteve uma vez na Faixa de Gaza. Na ocasião, perdeu um amigo durante um tiroteio.

O episódio marcou sua concepção sobre tudo que tinha feito até então. “Eu achava que era um jogo até meu amigo morrer em um fogo cruzado. Nessa hora se percebe que podia ter sido com você”, confessa. A guerra parecia distante e os treinamentos, ainda que muito rigorosos, não tinham ligação com necessidades reais de combate. “Eu não tinha medo por mim, mas pelos outros”, oferece.

Dan confirma que esse raciocínio é comum entre os soldados israelenses. O país atravessa um momento de relativa paz, apesar de ações repressivas nas fronteiras e na Palestina. A maior parte do contingente das Forças Armadas se ocupa com tarefas burocráticas e raramente pega em armas.

Dan acredita que mesmo aqueles que participam das operações de risco não tem consciência de que participam de um conflito armado de grandes dimensões. Ele argumenta: “Por isso, eles põe meninos de 20 anos, que não tem muito a perder e nem refletem muito sobre o que estão fazendo”.

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