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Egito e Tunísia

Pós-Primavera conturbado

por Gabriel Bonis publicado 10/10/2011 20h00, última modificação 06/06/2015 18h15
Dois primeiros a derrubarem seus ditadores na onda de revoluções no Norte da África enfrentam impaciência popular e aumento de tensões étnicas

Pouco mais de oito meses após o início das revoluções árabes no Norte da África, Tunísia e Egito se preparam para as primeiras eleições democráticas depois da queda de seus antigos ditadores, Zine El Abidine Ben Ali e Hosni Mubarak, respectivamente. Contudo, ambos enfrentam tensões populares e conflitos nas ruas.

O fim de semana nos dois países foi marcado por atos violentos de grupos minoritários ou suprimidos nos governos anteriores. No Egito, cristãos coptas protestaram no domingo 9 contra o ataque a uma igreja na província de Assuã. O grupo, que representa 10% dos 85 milhões de habitantes do país, acusa muçulmanos radicais pela ação.

O protesto a reivindicar a saída do governador da província inicialmente  também contava com a participação de não-cristãos, segundo a agência de notícias EFE. Com início em frente à sede da tevê estatal do país, a manifestação espalhou-se pela Praça Tahrir e culminou na morte de ao menos 24 pessoas.

Desde a queda de Mubarak, é crescente o aprofundamento de conflitos étnicos. Entre março e maio deste ano, 25 pessoas morreram em ataques a igrejas coptas e em confrontos contra muçulmanos na capital, Cairo.

Na Tunísia, também no domingo, manifestantes islâmicos conservadores tentaram incediar os escritórios de uma emissora de televisão que exibiu o filme Persépolis, da quadrinista Marjane Satrapi e de Vincent Paronnaud. Porém, a polícia impediu a ação e prendeu 50 pessoas.

A animação retrata a vida de uma jovem iraniana durante a Revolução Islâmica do Irã em 1979 e seu exílio na Europa, onde se envolve com a cultura alternativa e o punk rock. Além disso, os ativistas teriam se irritado com sequências do filme nas quais Deus aparece conversando com a protagonista.

Os conservadores islâmicos, conhecidos como salafistas, eram reprimidos pelo antigo regime, mas estão demonstrando mais força, inclusive com o aparecimento de grupos muçulmanos ultraconservadores. Os protestos também envolviam a proibição do uso de véus nas universidades do país.

Os egípcios começam a demonstrar a insatisfação com o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), junta militar que administra o país desde a saída de Mubarak, principalmente em relação ao longo e confuso processo eleitoral elaborado pelos militares.

Os representantes do baixo parlamento, ou Assembleia do Povo, serão escolhidos em três turnos, o primeiro começando em 28 de novembro. Depois, o alto parlamento, semelhante ao Senado, abre eleições em 29 de janeiro até março, também em três etapas.

Após o preenchimento do Parlamento, um grupo reduzido das duas Casas fica responsável por redigir uma nova Constituição. Para então, após a aprovação da nova Carta Magna em um referendo, o novo presidente ser escolhido.

Essa complexa estrutura tem gerado impaciência nos líderes políticos do país e levantado dúvidas sobre a real intenção dos militares em deixar o poder no Egito. Segundo o semanário britânico The Economist, grupos jovens já propõem manifestações em série na Praça Tahrir às sextas-feiras pedindo a saída do CSFA, além de sete pré-candidatos à presidência terem se unido para pedir um processo mais curto.

Apesar de enfrentar problemas sociais semelhantes, a Tunísia já anunciou o início da campanha eleitoral em 1º de outubro para a Assembleia Constituinte, responsável por escrever a nova Constituição do país no prazo de um ano.

Mais de dez mil candidatos de 81 partidos concorrem em 23 de outubro a 218 cadeiras. Destas, 19 serão reservadas para eleitos no exterior. Outro aspecto positivo é a participação de observadores internacionais de EUA e União Europeia.

Boicote

Enquanto isso, os partidos políticos no Egito chegaram a ameaçar um boicote caso a junta militar não alterasse a lei eleitoral. Cerca de 60 grupos e partidos políticos, sem a participação da Irmandade Muçulmana, exigiram que os apoiadores de Mubarak não pudessem disputar cargos públicos, uma medida adotada na Tunísia.

No entanto, os militares cederam à pressão e, segundo o site da BBC Brasil, cancelaram uma lei eleitoral que separava um terço dos assentos do Parlamento a candidatos independentes. Agora, dois terços das cadeiras serão ocupadas por  eleitos em listas fechadas e o outro terço fica com as listas abertas.

Os egípcios também pedem que o CSFA revogue as leis de emergência utilizadas por Mubarak para reprimir dissidentes. Além disso, a Junta insiste em julgar civis em cortes militares, punindo ex-oficiais civis, mas grande parte dos oficiais de segurança responsáveis por décadas de abuso no regime de Mubarak escapou de penas fortes.

A polícia militar mostrou-se tão brutal quanto as forças do ex-ditador e a imprensa ainda sofre pressão em relação a críticas mais fortes. Além disso, ativistas temem que o atraso nas eleições seja uma estratégia dos militares para compor um Parlamento fraco e garantir um lugar protegido para o Exército no novo governo, com o largo poder que sempre teve no país.

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