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Portugal: “O meu país é o que o mar não quer”

por Eduarda Freitas — publicado 24/11/2010 12h26, última modificação 26/11/2010 17h50
Hoje é o dia de greve geral contra as medidas de austeridade do Governo. Funcionários públicos, jornalistas, professores, médicos, enfermeiros, motoristas…quase tudo a meio gás
Portugal: "Meu país é o que o mar não quer"

Hoje é dia de greve geral contra as medidas de austeridade do Governo. Greve geral dos Funcionários públicos, jornalistas, professores, médicos, enfermeiros, motoristas… quase tudo a meio gás. Por Eduarda Freitas. Foto: AFP

O meu país está em greve.

Está triste, está só, está escuro. Está desligado.

O meu país conquistou mundos em caravelas parecidas com cascas de nozes e espalhou uma língua que tem uma palavra única: saudade. Mas agora o meu país não olha para as nozes, porque habituou-se a comer caviar.

O meu país, dizia o poeta Ruy Belo “é o que o mar não quer”. Eu quero. Eu quero o meu país como quem quer um pai, uma mãe, um amor. Um país com quem me possa chatear e fazer as pazes amanhã, porque vale a pena, porque não quero ficar triste e porque a vida são dois dias. Não é? E já se sabe, “ o Carnaval são três”. Quero viver no terceiro dia a contar do fim deste país que não sabe o que fazer. Às voltas consigo próprio e connosco cá dentro, porque nós – os que hoje fazemos greve e os que hoje não fazemos – somos as serras e o mar, somos os pescadores que morrem nas ondas altas, os agricultores velhos sem vontade de pegar nas enxadas, somos os professores maltratados pelos alunos e os alunos com professores que não sentem amor pelo que fazem. Somos os jovens que deixam as aldeias porque estão quase vazias e procuram as cidades onde não cabem, somos os investigadores que vão ser heróis lá fora. Nós, os que hoje saímos à rua e os que hoje não saímos, somos os pais e os filhos com telemóveis à hora de almoço, somos os que enviamos 20 mensagens por dia repletas de “k” em vez dos nossos “q” de quá quá. Nós somos os empresários que ganham muito e pagam pouco e somos os outros, os que pouco fazem e menos querem fazer.

Somos os que têm duas televisões e os que não podem ir à praia porque gastam gasolina e o Centro Comercial fica mais próximo. E somos aqueles que fogem aos impostos porque o estado rouba e assim roubamos nós primeiro, e “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão!”. E somos os que vamos para Punta Cana e não conhecemos as nossas aldeias histórias porque o tempo não está para gastar dinheiro em viagens e não compramos livros porque estão caros e ainda por cima nos aviões emprestam revistas de borla.

Desculpem, mas hoje estou chateada com o meu país.

Porque não o entendo, porque não o sinto. Porque dormi mal a pensar se haveria ou não de fazer greve. E porque estou chateada por não ter chegado a uma conclusão de jeito. E por isso, decidi trabalhar, porque tinha muito que fazer, mas a modos que envergonhada por trabalhar, ou por não saber se deveria ou não fazer greve. Serei traidora dos princípios que movem as massas? Mais quais princípios?  São princípios ou são fins?

Eu queria que na fileira da frente do meu país estivesse gente que me inspirasse. Gente que me fizesse sorrir com esperança que amanhã vou fazer as pazes com o meu país. Aí sim, eu faria greve!

Só que todas as pessoas que eu conheço e que me inspiram (e são muitas!) não mandam neste país. Andam por aí a cantar e a escrever poemas, a encher balões para festas de meninos, a contar estrelas quando a noite se acende.

Hoje estou chateada com o meu país. Mas não com quem faz das palavras a luta das almas. Por isso, deixo-vos um poema. “Morte ao meio-dia”, que é quando o sol está mais alto.

MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

Ruy Belo, in “Boca Bilingue” (1966)

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