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Internacional

Homenagem a Luther King

"Porque eles marcharam, as portas se abriram", diz Obama

por Eduardo Graça — publicado 28/08/2013 19h05, última modificação 28/08/2013 19h08
Ás vésperas do ataque à Síria, o presidente americano faz discurso de união nacional e relembra os 50 anos da Marcha a Washington
Jewel Samad/AFP
Obama Luther King

O presidente dos EUA, Barack Obama, acompanhado de Jimmy Carter e Bill Clinton, antes de discursar em homenagem a Martin Luther King

De Washington

Troque “Eu tenho um sonho” por “Porque eles marcharam”. Em um discurso de 29 minutos cravados, Barack Obama celebrou os cidadãos americanos de todas as cores – negros, brancos, latinos, asiáticos – que marcharam de forma pacífica contra a discriminação racial e a injustiça social, responsáveis por “modificar de forma definitiva a democracia americana”. “Porque eles marcharam, a América ficou mais justa. Porque eles marcharam, a Lei de Direito ao Voto passou. Porque eles marcharam, as portas da Oportunidade e da Educação se abriram e suas filhas e filhos puderam imaginar uma vida para eles além de lavar as roupas de outros cidadãos ou engraxar seus sapatos. Porque eles marcharam, câmaras de vereadores, assembleias legislativas e o Congresso mudaram e sim, eventualmente, a Casa Branca mudou também”.

O discurso foi feito diante de dezenas de milhares de pessoas que enfrentaram a chuva fina na capital federal e ocuparam o National Mall desde cedo para celebrar os 50 anos da Marcha em Washington por Emprego e Liberdade e o discurso histórico de Martin Luther King Jr.

Obama buscou a todo tempo a intersecção possível entre o histórico movimento de direitos civis dos negros e a agenda liberal de seu mandato. “Porque eles marcharam, os EUA se tornaram uma nação mais livre e mais justa, não apenas para os afro-americanos, mas para mulheres e latinos, asiáticos e indígenas, católicos, judeus e muçulmanos, gays e cidadãos portadores de necessidades especiais”, seguiu.

Em uma das raras ocasiões em que o presidente tratou publicamente do problema das relações étnicas na sociedade americana, Barack Obama afirmou ainda que “de certa forma, assegurar os direitos civis, o direito ao voto, a erradicação legal da segregação, a própria e enorme significância destas vitórias, possivelmente obscureceu um segundo objetivo da Marcha. Os homens e mulheres que marcharam 50 anos atrás não estavam em busca de uma ideia abstrata. Eles estavam em busca de empregos e de justiça. Não exigiam apenas o fim da opressão, mas o começo da oportunidade econômica”.

Lideranças negras mantém uma postura extremamente crítica aos avanços sociais promovidos pelo governo Obama. Mas o presidente mandou mensagem direta – no que a rede de CNN qualificou de “puxão de orelha amorosa” – aos negros que usam a pobreza como desculpa para não seguirem lutando contra as injustiças sociais na “nação mais rica da face da Terra”.

Além do presidente, entre os muitos oradores da tarde estavam estrelas de Hollywood e do mundo do entretenimento, como Jamie Foxx, Oprah Winfrey e Forest Whitaker, os outros dois ex-presidentes do Partido Democrata vivos, Jimmy Carter e Bill Clinton, e o último remanescente dos líderes do movimento pelos direitos civis a discursar há meio século, o deputado John Lewis, democrata da Geórgia, estado natal de Martin Luther King Jr. Foi dele o ataque mais direto às diferenças entre negros e brancos nos EUA da Era Obama: “Ainda há um golfo entre nós e nós nunca podemos deixar de lutar”, afirmou, apontando a prática de revistas policiais discriminatórias em Nova York, o encarceramento em massa de negros desde o início da Guerra às Drogas nos anos Reagan e o assassinato do adolescente negro Trayvon Martin na Flórida como exemplos de injustiças vividas pelos negros na maior democracia do Ocidente.

Carter e Clinton, ambos oriundos do sul segregacionista, também lembraram da recente decisão da Suprema Corte de revogar artigos da Lei de Direito ao Voto que impediriam estados como o Texas de implementar regras que, na prática, dificultam o voto dos cidadãos mais pobres. “Em uma democracia vibrante votar não deveria ser mais difícil do que comprar um rifle”, disse Clinton, em uma das frases mais emblemáticas do dia.

Curiosamente, Obama e oradores como a filha do presidente em 1963, Caroline Kennedy, também bradaram contra a violência no momento em que as televisões americanas mostram a movimentação das forças armadas dos EUA no mar Mediterrâneo e o país vive a expectativa de mais um ataque americano a um país do Oriente Médio. Obama destacou o caráter não-violento da estratégia dos manifestantes 50 anos atrás. “Eles viram suas pessoas amadas serem agredidas e suas crianças serem atacadas com jatos de água. Eles tinham toda a razão para reagir com violência ou se resignarem com um destino amargo. E no entanto, eles escolheram um caminho diverso. Ao enfrentarem a violência, eles levantaram a cabeça e se sentaram nos chãos do país abrigados com a força moral da não-violência”, disse o presidente.

A Marcha foi a primeira grande manifestação pública não-segregada de caráter político nos EUA. Brancos e negros chegaram a D.C. de ônibus, carros, trens, aviões, à pé, e apenas quatro incidentes foram registrados. A única figura pública de peso a refletir sobre o aparente paradoxo da violência americana foi o reverendo Jesse Jackson, o primeiro negro a seriamente disputar, sem sucesso, as primárias presidenciais do Partido Democrata, nos anos 80: “A ênfase dada ao sonho de igualdade racial do dr.King, ao êxtase do discurso, tira o foco dos temas mais caros ao líder negro nos últimos anos de sua vida, o combate à pobreza e ao militarismo americano”.