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The Observer

Polícia egípcia "usa estupro" contra dissidentes

por Patrick Kingsley, em Suez — publicado 16/04/2014 05h02, última modificação 16/04/2014 05h53
Revolta é generalizada à repressão que fez 16 mil presos. Por Patrick Kingsley, do The Observer
Mahmoud Khaled / AFP
Polícia do Egito

Policiais egípcios descansam após dispersar manifestação de simpatizantes da Irmandade Muçulmana na Universidade do Cairo, na terça-feira 15

Dois dissidentes políticos afirmaram que foram violentados sob a custódia da polícia egípcia em ataques separados que, para os ativistas, indicam uma estratégia mais ampla na continuação da brutal repressão à oposição. Policiais à paisana supostamente atacaram Omar el-Shouekh, 19 anos, no interior de uma delegacia no leste do Cairo em 24 de março, minutos depois de ele ter sido preso após um protesto estudantil. Em um depoimento por escrito enviado ao Observer por seu advogado, Shouekh também afirma que foi espancado e submetido a choques elétricos.

Outro homem, Fadi Samir, disse que foi agredido sexualmente de maneira semelhante em outra delegacia em 8 de janeiro. Samir também afirmou que durante os 42 dias de sua detenção foi frequentemente espancado e a certa altura bolinado por um policial quando estava em um mictório. Como muitos detidos, Samir declarou que os promotores o interrogaram em propriedade da polícia, e não em território neutro – deixando de manter a separação de poderes entre o sistema judicial do Egito e sua força policial.

Embora seu tratamento seja comparável, os dois homens vêm de origens totalmente diferentes, o que ilustra a amplidão da dissidência do governo egípcio. Segundo números oficiais, pelo menos 16 mil dissidentes – sobretudo ativistas islâmicos, mas também cada vez mais seculares – foram presos desde o início da repressão à oposição política em julho passado. Alguns foram libertados, mas milhares continuam encarcerados e muitos afirmam que foram detidos de maneira arbitrária – os juízes habitualmente renovam as detenções em massa a cada 45 dias, sem analisar evidências específicas contra os indivíduos. Também houve inúmeras denúncias de torturas praticadas pela polícia.

Shouekh é um líder dos protestos universitários que assolaram a vida no campus egípcio durante a maior parte do ano acadêmico. Ele vem de uma família de seguidores da Irmandade Muçulmana, que se opõe à atual administração desde a remoção da presidência de Mohamed Morsi, membro da Irmandade, em julho passado.

Em contraste, Samir é um cristão que comemorou a deposição de Morsi mas, como muitos ativistas seculares, depois também passou a se opor ao autoritarismo de seus sucessores. Em depoimentos subtraídos da custódia policial por sua família, Shouekh declarou que o ataque sexual contra ele "aconteceu de maneira repetida". Disse ainda que foi torturado com choques nos órgãos genitais, nas axilas, nos dedos e no estômago, e espancado durante toda a sua detenção. Um amigo que o visitou na cadeia na semana passada disse que seu estado parece ter piorado substancialmente.

Samir disse que sua violação ocorreu durante um interrogatório brutal realizado pouco depois de sua detenção em um protesto no centro do Cairo. Depois de ser vendado e espancado várias vezes nas costas e no pescoço, ele foi interrogado sobre suas crenças políticas por um oficial. "Ele fez muitas perguntas, mas não gostou de minhas respostas", disse Samir. "Então ele pediu a um [policial mais moço] para colocar seu dedo médio em meu ânus, e ele o fez, duas vezes."

Entrevistada na cidade oriental de Suez, a mãe de Shouekh decidiu não manter o anonimato com a intenção de dar mais visibilidade ao caso do filho, enquanto Samir optou por se pronunciar para revelar a brutalidade policial. Segundo ativistas, é muito raro que os presos revelem publicamente essas experiências, embora alegações semelhantes sejam feitas com frequência em particular.

Mohamed Lotfy, cofundador da Comissão Egípcia pelos Direitos e Liberdades, um grupo independente, disse: "Tornou-se cada vez mais comum ouvir detidos contarem que foram agredidos sexualmente ou assediados. Parece que a tática está sendo usada para humilhar os presos e fazê-los sentir-se impotentes, sob o controle da polícia”. "Esses casos demonstram como a polícia se sente poderosa e acima da lei, e como tem pouco respeito pela proteção legal ou consideração moral", disse ele. "A polícia se sente tão autoconfiante que pode romper todas as regras, e até tabus da sociedade egípcia, para degradar os detidos."

Mas uma parte significativa da sociedade egípcia apoia uma polícia forte. Cansados dos três anos de instabilidade política provocada pela revolução de 2011, e temerosos de uma onda de atividade jihadista, muitos veem o policiamento pesado como o único meio de restaurar a ordem, e muitas vezes confundem as ações de militantes jihadistas com as de ativistas políticos. Depois que 529 supostos seguidores de Morsi foram condenados à morte em um julgamento coletivo abreviado, muitos egípcios aplaudiram o veredicto.

"Hoje tivemos justiça, a justiça que queremos", disse Rania Badawy, enquanto apresentava um programa no canal de tevê privado Tahrir. "Estamos cansados de sua violência. Vamos construir o país apesar de sua guerra."

Quando solicitado a comentar as alegações de estupro, um porta-voz do Ministério do Interior – que supervisiona a polícia – foi explícito: qualquer denúncia de tortura deve ser feita aos promotores do Estado ou ao Ministério de Direitos Humanos. Segundo seu testemunho, Shouekh declarou os abusos aos promotores em sua primeira audiência judicial, mas a queixa foi ignorada.

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