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Venezuela

Polarização política e crise econômica marcam primeiro ano pós-Chávez

por Deutsche Welle publicado 05/03/2014 12h39, última modificação 05/03/2014 12h39
O país passa por um momento delicado, com protestos motivados por inflação alta e insegurança. Analistas temem radicalização
Juan Barreto / AFP

Em 5 de março de 2013, depois de reinar absoluto em Miraflores durante 14 anos, o presidente venezuelano Hugo Chávez deixava o poder, depois de perder uma dura batalha contra um câncer na região pélvica. Em seu lugar, seu herdeiro político, Nicolás Maduro, assumia a tarefa de vencer as eleições presidenciais e dar continuidade ao projeto de "socialismo do século 21" do líder bolivariano.

Um ano depois, porém, a Venezuela encontra-se num momento crítico, registrando uma série de manifestações violentas motivadas por uma economia em crise, com uma inflação que chegou a 56,2% em 2013, e uma grave situação de insegurança no país. Do alto do Palácio de Miraflores, Maduro é pressionado pela oposição, que exige sua renúncia, e pela comunidade internacional, que pede moderação na resposta do governo aos protestos.

"O poder do regime chavista foi baseado principalmente no carisma do 'líder supremo', nos abundantes recursos vindos do petróleo e na falta de uma alternativa democrática confiável", explica, em entrevista à DW, o cientista político Sadio Garavini di Turno, da Universidade Central da Venezuela. "Agora o carisma se foi, o talão de cheques perdeu a sua força e a Mesa da Unidade Democrática (MUD) [coalizão de forças opositoras] é uma opção."

Apesar de Maduro ter acenado com um possível diálogo na semana passada, a oposição denuncia as intenções do presidente como "falsas", e analistas temem um aumento da violência e da polarização política na Venezuela.

"Maduro não é Chávez e não conta com seu apoio interno e externo, então depois de tentativas tímidas de negociação, sua estratégia foi assumir posições radicais para ocultar os efeitos de uma crise severa que a incompetência de seu governo criou", disse o presidente do instituto de pesquisas Datanalisis, Luis Vicente León. "Tudo indica que, daqui para frente, vamos observar uma radicalização política, com menos direitos de expressão e menos espaços para a oposição."

Desde que as manifestações começaram, em fevereiro, ao menos 18 pessoas foram mortas e outras 260 ficaram feridas. A prisão do líder opositor Leopoldo López, em meados do mês passado, apenas intensificou a crise.

Repressão aos protestos
A resposta de Maduro aos protestos, segundo especialistas, foi errada e colocou seu governo numa situação ainda mais delicada. "O presidente mostrou ter muita inabilidade e pouca autonomia", avalia o consultor político venezuelano Ewald Scharfenberg. "Era preciso um fino olfato político para farejar as minas deixadas por Chávez no caminho, e Maduro simplesmente não teve essa sensibilidade."

Maduro, diferentemente de Chávez, também tem o problema de lidar com uma oposição que se mostra cada vez mais articulada, depois de anos de desorganização. "A MUD está muito mais fortalecida do que há um ou dois anos", afirma Garavini di Turno.

Já León, do Datanalisis, acredita que os opositores ainda têm de percorrer um longo caminho. "O que observamos hoje é uma oposição muito mais articulada para as lutas eleitorais, com melhores condições para fechar acordos", explica. "No entanto, essa articulação ainda não é boa nem firme, e as divisões são naturais dentro do grupo."

  • Autoria Renata Miranda
  • Edição Alexandre Schossler