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Crise

Plano de recompra estimula especulação com títulos da dívida grega

por Deutsche Welle publicado 03/12/2012 16h54, última modificação 06/06/2015 18h42
Grécia quer recomprar parte de seus títulos a preços de mercado e assim diminuir sua bilionária dívida

Quando um Estado precisa de dinheiro, ele emite títulos e os oferece no mercado financeiro. Investidores compram esses papéis porque os países prometem restituir o dinheiro investido em um determinado espaço de tempo, acrescido de juros. Esse período pode variar de alguns meses até várias décadas. Até vencerem, esses títulos podem ser negociados entre os investidores, ou seja, podem comprá-los e vendê-los entre si. Os valores pagos podem oscilar muito, tanto acima como abaixo do chamado "valor de face" do título (o valor original).

Em função do corte nas dívidas gregas acertado no primeiro semestre deste ano, alguns investidores privados concordaram em renunciar a parte do dinheiro emprestado ao governo grego. Com isso, a confiança nos títulos emitidos pela Grécia caiu muito, levando para baixo também os valores pelos quais eles eram negociados entre os investidores.

Essa situação, por sua vez, atraiu os fundos de hedge, como por exemplo o Third Point Offshore Fund, que administra, segundo dados próprios, aproximadamente 9 bilhões de dólares. O fundador e presidente do Third Point, Daniel Loeb, declarou ter investido muito em títulos públicos gregos nos meses de julho e agosto deste ano. Eles estavam muito baratos, tendo sido comercializados a apenas 17 centavos para cada euro do valor de face.

Loeb também declarou aos investidores de seu fundo a razão que o levou a comprar títulos gregos: a expectativa de uma "forte reação" do Banco Central Europeu (BCE). De fato, esta não demorou a ocorrer. Para salvar o euro, o presidente do BCE, Mario Draghi, afirmou no segundo semestre deste ano que iria, em último caso, comprar títulos públicos de países em crise. E iria fazer isso ilimitadamente.

Desde então, os valores dos títulos gregos voltaram a subir, passando de 17 para 30 centavos para cada euro do valor de face. Em seu último relatório mensal, Loeb definiu esses títulos como "de alta rentabilidade".

Do ponto de vista dos gregos – que, findo o prazo de validade dos títulos, terão realmente que pagar 1 euro para cada 1 euro do valor de face – pagar apenas 30 centavos ainda é um bom negócio. E esse é, de fato, o plano dos europeus, definido na última reunião em Bruxelas: com 10 bilhões de euros poderiam ser recomprados títulos gregos com um valor nominal de 30 bilhões de euros, quase um décimo da dívida total do país.

Ainda não se sabe, contudo, de onde poderia vir o dinheiro para a recompra. O Ministério das Finanças da Alemanha declarou que esses recursos deveriam sair do atual programa de ajuda à Grécia. Importante, segundo o ministério, é que "o volume do programa não aumente".

O especialista Raoul Ruparel, diretor de pesquisa econômica no centro de estudos Open Europe, acha isso ilusório. "Os recursos do pacote já têm um destino: suprir as atuais lacunas financeiras gregas", declarou. "Tudo indica que serão necessários novos recursos para a recompra das dívidas", completou Ruparel. Ainda assim, o negócio poderia valer a pena, pois com 10 bilhões de euros de novas dívidas seria possível quitar 30 bilhões de euros de dívidas antigas.

Bancos gregos

Pelos cálculos do economista-chefe do banco Commerzbank, Jörg Krämer, credores privados ainda mantêm títulos públicos gregos a um valor nominal de 67 bilhões de euros. Cerca de metade desses títulos está nas mãos de instituições financeiras gregas, que, segundo o ministério grego das Finanças, já lançaram esses títulos em sua contabilidade pelos valores de mercado. Ou seja, uma venda por 30 centavos de euro não significaria perdas adicionais.

O problema é que os institutos gregos usam esses títulos como garantia para obter dinheiro junto ao Banco Central da Grécia e ao Banco Central Europeu. Nesses casos, os papéis são avaliados com uma redução de 50% e não de 70%, como no mercado financeiro.

"Se eles venderem os títulos a preços baixos, irão futuramente obter menos dinheiro do Banco Central", afirma Raoul Ruparel, do Open Europe. "A consequência disso é que os bancos gregos irão conceder menos empréstimos às empresas e isso poderá piorar ainda mais a situação econômica do país", completa o economista.

 

Vendas a contragosto

Os bancos gregos podem ser forçados pelo governo a participar da recompra de dívidas. Não se sabe, porém, se os investidores internacionais também vão querer participar. Nas mãos destes estão cerca de 30 bilhões de euros em títulos.

"Não se sabe se muitos desses institutos estão dispostos a vender os títulos a um preço baixo", salienta Ruparel. "Se eles já tiverem participado do corte da dívida, não vão querer amargar mais perdas e vão permanecer com os títulos até o fim da validade deles", opina o especialista.

Alguns investidores privados recusaram-se a participar do corte da dívida do início deste ano. Como o corte na época era menor do que a atual recompra da dívida, é incerto que eles queiram participar desta.

Já os fundos de hedge, que adquiriram títulos gregos a preços baixos, terão certamente interesse em vendê-los. A Grécia não queira pagar mais do que o valor estipulado na sexta-feira da última semana. Mas 34 centavos por euro nominal já significaria um lucro de 100% para Third Point. "Apesar disso, os fundos de hedge são tentados a elevar os preços ainda mais", diz Ruparel.

Achilles Risvas, diretor do fundo de hedge Dromeus Capital, que também adquiriu títulos gregos a preços baixos, concorda: "É como um jogo de pôquer. Primeiro é preciso entender o que os outros estão fazendo", declarou à agência de notícias Reuters.

Uma recompra das dívidas não é, a princípio, uma má ideia, analisa Ruparel. Só que ela vem tarde demais, pois os preços dos títulos no mercado financeiro já subiram desde o corte da dívida, no início do ano. "Agora vai ser usado o dinheiro do contribuinte para garantir lucros aos fundos de hedge", conclui.

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