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Planeta Terra em transe

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 29/07/2010 15h43, última modificação 29/07/2010 15h43
Multiplicam-se os sinais de recaída dos países ricos na crise e da incapacidade de seus governos de encontrar soluções

Multiplicam-se os sinais de recaída dos países ricos na crise e da incapacidade de seus governos de encontrar soluções

 O debate sobre um segundo tempo da crise econômica dos paí-ses ricos ou, para os mais otimistas, uma “recuperação em W”, esquentou nas últimas semanas, com trocas de farpas entre economistas keynesianos e neoliberais e entre ambos e seus governos. A maioria dos banqueiros está decididamente com a ortodoxia neoliberal, mas seu pensamento já não é tão único.

A Casa Branca e vários governos europeus equilibram-se sobre o muro e a opinião dos investidores, a julgar pelas cotações de ações e títulos, é flutuante. Um dia ouve-se dizer que as bolsas caíram por “falta de confiança do mercado” na determinação dos governos de pagarem suas- dívidas, conforme alega a ortodoxia, no outro a explicação é que caíram por causa da expectativa de que as medidas de austeridade retardem a recuperação do crescimento econômico, conforme advertem os keynesianos. O Fed ora aflige-se com o crescimento da dívida dos EUA, ora com o risco de deflação. O presidente de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, bate boca com Paul Krugman sobre a possibilidade de saí-da do euro, desmentido que sinaliza que o risco é levado muito a sério.

Os juros exigidos dos títulos de dívida da Irlanda pelos investidores não mostram maior disposição do “mercado” de recompensá-la por seu pioneirismo nas “medidas de austeridade” europeias. Enquanto isso, caem os juros dos títulos de longo prazo do Tesouro dos EUA, apesar de a Casa Branca não cogitar de grandes cortes de gastos a curto prazo.

Da verve de Krugman, Prêmio Nobel de Economia e o mais popular dos paladinos do keynesianismo, surgiram as “fadinhas da confiança”. Entidades análogas a Papai Noel que seria preciso supor para justificar a lenda urbana corrente entre os “economistas de água doce” (os de Chicago, junto aos Grandes Lagos – os da Costa Leste são menos ortodoxos), segundo a qual acabariam por ser premiados os governos dispostos a fazer sofrer trabalhadores e pensionistas para agradar seus credores, na maior parte grandes bancos e fundos por eles administrados. Que, diga-se de passagem, só foram salvos, por ora, de uma quebradeira sem precedentes desde 1929 porque os mesmos governos se endividaram para resgatá-los.

Em sua coluna no New York Times, Krugman coleciona evidências de que a economia da autoflagelação (ou melhor, da flagelação das massas pela elite financeira) não compensa. A Islândia pôs banqueiros na cadeia, recusou-se a pagar a dívida de seus bancos em plebiscito e elegeu um governo de centro-esquerda no lugar dos fãs de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Pois teve uma retração menor e mostra sinais de recuperação antes da Irlanda, para não falar da Estônia e Letônia – que cortaram decididamente gastos públicos e salários e sustentaram a cotação de suas moedas ante o euro para garantir que seus credores não perderiam um centavo. Os bálticos só têm como prêmio de consolação os elogios da revista The Economist, que publicou um mapa imaginário no qual os põe no lugar das Ilhas Britânicas, ao lado da Irlanda, enquanto relega o Reino Unido, endividado pelo socorro ao sistema financeiro, à vizinhança de Portugal e Espanha.

No mundo real, não se vê nenhuma preocupação do mercado com a solvência do Reino Unido: seu prêmio de risco é um dos mais baixos (57º na lista dos 69 principais devedores) enquanto a Letônia (em 8º) tem o terceiro maior risco entre os europeus (depois da Grécia e Ucrânia, 4º e 5º, respectivamente). Portugal, Lituânia, Islândia, Irlanda e Espanha são vizinhos nessa escala (13º, 15º, 16º, 19º e 20º, respectivamente), mesmo se tentam políticas diferentes.

A pressão generalizada pela ortodoxia não se justifica por qualquer evidência empírica, mas também não se deveria tentar explicá-la como crença em fadinhas, apego aos livros sagrados do neoliberalismo ou resultado de pulsões sadomasoquistas. A pressão visa aproveitar a crise para encolher ao máximo o Estado de Bem-Estar Social e as garantias trabalhistas e concentrar o máximo de renda no setor privado, numa reedição dos ganhos das bolsas estadunidenses e britânicas dos anos 80 e 90 após Margaret Thatcher e Ronald Reagan – sem perceber que, após décadas de concentração de renda e flexibilização do trabalho, a tentativa de reeditar o mesmo ciclo pode ser social e politicamente catastrófica.

Nos EUA, 58% de todo o crescimento real de renda gerado entre 1976 a 2007 foi embolsado pelo 1% de famílias mais ricas. Na base da pirâmide, houve estagnação e queda dos salários reais, agravada a partir de 2008 pela crise e pelo desemprego.  Na Zona do Euro, o aumento da desigualdade nos últimos anos também foi marcante: em 2000, os 20% mais ricos ganhavam 4,4 vezes mais que os 20% mais pobres; em 2004, 4,8 vezes. Na Europa como um todo,  cresce a percepção popular nos seus países mais prósperos de que a União Europeia é um pretexto para minar direitos sociais e trabalhistas – e naqueles que mais claramente haviam se beneficiado da integração, os países menos ricos da periferia europeia, o sonho subitamente acabou.

Em Washington, os vetores das pressões da ortodoxia incluem o Tea Party, o Partido Republicano e as grandes empresas industriais e financeiras. A atuação dessas na propaganda política não tem mais limite, visto que o Supremo decidiu que pessoas jurídicas também têm completa “liberdade de expressão”. A Câmara de Comércio dos EUA, o maior dos lobbies empresariais, abriu fogo contra os déficits, as novas regulamentações (da saúde e do setor financeiro) e o “crescimento do governo”.

Uma parcela crescente da opinião pública se deixa convencer de que a política “socialista” de Obama inibe o investimento e a recuperação. Obviamente, a falta de investimento deve-se à presença de capacidade ociosa na maioria dos setores, consequência da recessão, mas o discurso pragmático, centrista e racional do presidente, enfraquecido pelos resultados pouco convincentes da política externa, tem dificuldades em se fazer compreender ante o apelo emocional do populismo de direita.
Na Europa, a principal alavanca das pressões é a Alemanha: ao fazer cortes de gastos públicos sem necessidade real e controlar o Banco Central Europeu, o país impõe ao continente uma austeridade artificial.

Contraproducente em relação aos interesses da própria indústria alemã, que tem os vizinhos europeus como seus principais clientes, mas que faz sentido em relação aos interesses percebidos do setor financeiro. Só a ameaça da França de pular fora da canoa do euro pôs um limite à truculência de Angela Merkel, disposta a deixar a Grécia quebrar para evitar a derrota governista numa eleição local. Os eleitores alemães sentem menos a crise. Ali, onde o aumento do desemprego foi relativamente pequeno e parece ter sido controlado, a percepção é que os outros países devem se arranjar como puderem. Não percebem o quanto essa política é desastrosa para gregos, portugueses e espanhóis, cuja economia está em queda livre, e o quanto sua prosperidade depende do resto do continente. Os mesmos analistas que se dizem preocupados com governos que não agem para reduzir o déficit entrarão amanhã em pânico com as manifestações e os conflitos sociais que tais cortes causarão.

Dos EUA ao Japão, passando pela Europa, as forças de centro e centro-esquerda, estejam ou não no poder, falham em apresentar discursos e propostas coerentes ante a crise. Receiam ser marginalizadas como “radicais” se apostarem em planos ousados e posições firmes. Em busca de um consenso impossível, repetem o discurso da direita em tom mais sereno e executar de maneira tímida e hesitante, as mesmas medidas que a direita exige com entusiasmo, principalmente a mais populista, que não tem vergonha de explorar preconceitos nacionais e raciais. Nos EUA, as principais vítimas são os hispânicos, transformados pelos republicanos, a partir do Arizona, em bodes expiatórios dos problemas nacionais. Na Europa, os muçulmanos: na França, a polêmica artificial em torno do “véu integral” usado por apenas duas mil mulheres no país serve de cortina de fumaça para desviar atenções do adiamento da aposentadoria e do escândalo L’Oréal.

Onde se mostram confusos e hesitantes, a direita populista, ao estilo de Sarah Palin e Glenn Beck ou de Silvio Berlusconi, aparenta clareza e entusiasmo e pode crescer, na medida em que consegue convencer um número suficiente de eleitores de que têm algo a ganhar ao tirar a rede de proteção aos menos favorecidos e expulsar imigrantes e minorias. Mas suas políticas não ajudarão a sair da crise e poderão agravá-la a médio prazo. O resultado mais geral é o impasse: na Alemanha, na França, no Reino Unido e nos EUA, veem-se governos enfraquecidos, dependentes de uma base parlamentar cada vez mais frágil.

Krugman gosta de fazer a comparação entre os EUA de hoje e o estagnado Japão pós-bolha dos anos 90, e também do atual cenário mundial com o dos anos 30 – e o debate atual como uma reedição, sem avanços, do que se deu entre Lord Keynes e Hayek na mesma ocasião. O cenário também recorda, sob muitos aspectos, a América Latina dos anos 80 e 90.

Em todos os casos, a perspectiva econômica é de uma década perdida. Moratórias das dívidas de alguns países, falências de alguns grandes grupos financeiros e empresariais e dez ou mais anos de estagnação, acompanhada de forte queda de ações e títulos à medida que os investidores tomem consciência disso: a previdência privada não será mais atraente que a social. O desemprego permanecerá relativamente alto e as contas públicas precárias: sem crescimento, será difícil reduzir o endividamento.

A diferença entre eles está na resposta política. Nos anos 30, predominou o fascismo, exceto nos países de tradições democráticas mais sólidas. O Japão permanece no marasmo: a troca do Partido Liberal-Democrático pelo Partido Democrático não trouxe mudanças reais. Na América Latina, foi, na maioria dos casos, uma virada à esquerda com o crescimento de novas lideranças e movimentos populares. Qual o caminho a ser seguido pelos países ricos? Possivelmente serão divergentes e será muito difícil manter a unidade da Zona do Euro, ainda que nenhum dirigente ouse discutir o assunto abertamente. Mesmo que a moeda única sobreviva, o continente não conseguirá aplicar uma política econômica coerente ou ter um papel construtivo na recuperação global. Os movimentos separatistas em alta na Catalunha, no País Basco, na Irlanda do Norte, no norte da Itália e em Flandres mostram que está em questão não só o futuro da União Europeia, como o de seus próprios integrantes como nações.

O Ocidente, como um todo, tende a encolher em termos relativos, mas as políticas ortodoxas farão o recuo ser maior e mais rápido do que seria inevitável. Não estamos mais nos anos 30, quando a hegemonia da Europa e dos EUA era tal que sua crise deixava o mundo sem opção. Hoje, as nações independentes da Ásia e do Sul têm um peso muito maior. Sua demanda tem permitido que muitos dos países exportadores de petróleo e commodities da África, Ásia Central e América Latina prosperem.

Mas esses não estão isentos de problemas. As dificuldades das empresas exportadoras e o crescimento das greves e dos movimentos trabalhistas na China e no Sudeste Asiático sinalizam que, também lá, o “milagre” está chegando ao fim. Mais cedo ou mais tarde, o ritmo de crescimento vai ter de diminuir e a prioridade passará a ser redividir o bolo.

No melhor dos mundos, isso aconteceria de maneira coordenada, com o crescimento do mercado interno da China e, depois, de outros países periféricos substituindo gradualmente o dos Estados Unidos e da Europa. Em uma era de estagnação e conflito interno dos desenvolvidos, cenários catastróficos não estarão fora de questão. Um governo radicalmente conservador nos EUA, perspectiva muito plausível para 2012, pode se sentir estimulado à guerra para reativar a economia e tentar reverter seu declínio.

Fidel Castro, que voltou à ativa depois de três anos de convalescença, reuniu-se com os economistas do cubano Centro de Investigações da Economia Mundial, em 14 de julho, para discutir o risco de ataque dos EUA ao Irã (que inicialmente previu para junho) e pedir-lhes a se dedicarem quatro horas por dia, nos dez dias seguintes, a elaborar um “ensaio de ficção científica” sobre as opções da América Latina em caso de guerra nuclear. Sua preocupação talvez seja prematura, mas está longe de ser demência senil. •

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