Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Pimenta nos olhos dos outros

Internacional

Europa

Pimenta nos olhos dos outros

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 10/03/2011 10h26, última modificação 10/03/2011 17h14
A Alemanha e a França propõem um pacto de competitividade na Zona do Euro, eufemismo para mais arrochos. Por Luiz Gonzaga Belluzzo
Pimenta no olhos dos outros

A Alemanha e a França propõem um pacto de competitividade na Zona do Euro, eufemismo para mais arrochos. Por Luiz Gonzaga Belluzzo. Foto: Frederick Florin/AFP

A Alemanha e a França propõem um pacto de competitividade na Zona do Euro, eufemismo para mais arrochos

A crise europeia vai bem, obrigado. Tudo rediscutido, nada resolvido. Os alemães e agora os franceses prosseguem na estratégia de apertar os vizinhos. Na reunião de cúpula do início de fevereiro, a senhora Angela Merkel juntou-se ao presidente francês, Nicolas Sarkozy, para impor aos países da área um pacto de competitividade, na verdade uma nova tentativa de empurrar goela abaixo dos ditos periféricos reduções de salários, cortes de benefícios e demissões no setor público.

Relatos de observadores da reunião realizada a portas fechadas dão conta de que, em sessão tumultuada, mais da metade dos países rejeitaram as propostas franco-germânicas. O primeiro-ministro da Bélgica, Yves Leterme, declarou que não vai “permitir a degradação do modelo de proteção social” de seu país.

O economista Wolfgang Munchau escreveu em sua coluna no Financial Times que os alemães cultivam uma narrativa conveniente sobre a crise europeia. Para eles, a explicação é simples: irresponsabilidade fiscal e falta de competitividade. “Se há uma crise, ela é fiscal e a resposta é a austeridade.” Ponto, parágrafo.

Dias atrás, a comunidade de negócios e os círculos acadêmicos alemães entraram em forte convergência a respeito das políticas a ser adotadas para enfrentar a crise dos vizinhos.  A eles juntaram-se o Bundesbank e o Parlamento – o Bundestag – para rejeitar categoricamente a emissão de títulos europeus e sua aquisição pelo European Stability Mechanism (ESM).

Munchau, assim como outros analistas, entendem que o ESM poderia converter-se em uma agência europeia de reestruturação de dívidas, “a contraparte financeira da união econômica”. Os alemães respondem de forma monocórdia. Insistem na necessidade de ajustes, que supostamente vão aproximar os países em dificuldades, do padrão de competitividade germânico.

Mas há peixe podre por debaixo do angu. No subterrâneo das hesitações germina o risco de uma crise bancária de proporções ainda desconhecidas. Entre as instituições financeiras periclitantes estão os bancos alemães e franceses, demasiadamente expostos aos devedores e deficitários.

Na aurora do euro, a criação de um mercado de capitais comum permitiu não só a convergência das taxas de juro entre os países, mas também criou novos segmentos e produtos financeiros. Antes do euro, era impossível na Espanha a obtenção de empréstimos de 20 anos com taxa fixa. Depois da introdução da moeda única, os espanhóis foram agraciados com uma oferta de crédito em rápida expansão e a taxas e prazos convidativos. Essas condições impulsionaram o mercado imobiliário e sopraram a bolha que gerou a euforia da “Década Dourada”.

O relatório do Economic European Advisory Group (EEAG) procura demonstrar que a convergência das taxas de juro e das demais condições de crédito determinou um forte afluxo de capitais para os países da dita periferia europeia, superaquecendo suas economias. Em artigo publicado no jornal Valor, afirmei que, na esteira da unificação monetária, “a competição entre os bancos alemães, franceses, suecos, austríacos e ingleses promoveu um impressionante ‘movimento de capitais’ intraeuropeu”. A maioria dos ditos PIIGS caiu na farra do endividamento privado, facilitado, entre outras coisas, pela redução dos spreads entre os títulos alemães, o benchmark, e os custos incorridos na colocação de papéis públicos e privados dos países, cujas moedas, se existissem, não proporcionariam tal moleza.

Nesse movimento de capitais tiveram papel relevante os empréstimos dos bancos alemães às instituições financeiras espanholas, gregas, portuguesas e irlandesas. Em todos esses países, o superaquecimento da economia produziu taxas de inflação muito superiores àquelas observadas na Alemanha. Daí a valorização relativa do “euro” espanhol, grego e português, o que resultou em déficits elevados de balanço de pagamentos. Na área fiscal, à exceção da Grécia, a maioria dos países de economia “menos competitiva” apresentava superávits ou déficits aceitáveis. Até 2007, os resultados fiscais eram superavitários na Espanha, Islândia e Irlanda, fruto do superaquecimento de economias embaladas pela explosão do gasto privado. Nos demais, os déficits mantiveram-se dentro dos critérios de Maastrich, que definiram como limite déficits de 3% do PIB.

O quadro na página anterior mostra a violência da reversão da situação fiscal em países como Espanha, Islândia e Irlanda, que absorveram com maior intensidade o fluxo de capitais e ingressaram numa trajetória de riscos crescentes. Isso vale tanto para suas instituições financeiras nacionais, como as Cajas espanholas, quanto para as famílias envolvidas no movimento de valorização de ativos imobiliários e na aceleração dos gastos de consumo. França e Holanda são exemplos de reação à crise produzida pela operação dos chamados “estabilizadores automáticos”: a queda das receitas, induzida pela recessão, é acompanhada de um aumento das despesas com os programas de proteção social, como, por exemplo, o seguro-desemprego.
Nos meios financeiros europeus, todos sabem que os testes de estresse realizados pelos bancos centrais foram para “inglês ver”. Nessa matéria, o celebrado Bundesbank preferiu esconder a exibir as feridas dos bancos públicos alemães e, muito provavelmente, escolheu encobrir também as escaras produzidas nos bancos privados que se enfiaram de corpo e alma na farra de empréstimos intraeuropeus.

Portugal está a um passo da bancarrota, pagando taxas de juro superiores a 7% nos papéis soberanos. A despeito de expedientes para assegurar os mercados, não consegue escapar da suspeita de que vai caminhar para um default no futuro próximo. A Espanha desenvolve um programa de emergência para capitalizar as Cajas, instituições que bancaram a expansão do crédito na euforia da bolha imobiliária. A Grécia segue o calvário do ajuste fiscal sem destino. É favorita para um default ou uma reestruturação logo na próxima esquina.

registrado em: