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Corrida presidencial

Peru: Entre o futuro e o passado

por Revista Forum — publicado 05/05/2011 14h01, última modificação 05/05/2011 14h17
Tudo parece indicar que a eleição está empatada e a guerra suja contra Humala agora está reforçada. Esta é a terceira eleição polarizada no país em 11 anos. Por Oscar Ugarteche

Por Oscar Ugarteche*

Em 5 de junho haverá o segundo turno para eleger entre Keiko Fujimori, Alberto Fujimori e Ollanta Humala, um coronel do exército peruano com um discurso nacionalista. Esta é a terceira eleição polarizada no país nos últimos 11 anos.

As eleições de 1990, 1995 e 2000

Recapitulemos: a encruzilhada política peruana entre a direita ultra liberal e uma esquerda moderada teve início em 1990, quando o candidato pela direita ultra liberal era Mario Vargas Llosa e o da esquerda moderada era Alberto Fujimori. Neste cenário, o então presidente Alan Garcia apoiou Fujimori, assumindo ônus de não apoiar o candidato de seu próprio partido político e desse modo impediu a eleição de Vargas Llosa.

Já eleito, Alberto Fujimori virou, destituiu sua equipe de assessores e recrutou os da banda contrária, para fazer o governo que introduziu as reformas econômicas no Peru. Isso que agora se chama “a democracia econômica”. Como havia resistência popular e política a estas reformas, ele deu um golpe de Estado em 5 de abril de 1992 e por decreto supremo autorizou as 772 leis das reformas econômicas no dia seguinte, segunda-feira 6 de abril. Inesquecível.

Seis anos mais tarde, a forma despótica do governo de Alberto Fujimori levou a uma reação estudantil nas ruas que começou com marchas pela defesa dos membros do Tribunal Constitucional. O tribunal havia dito que o presidente não podia concorrer pela terceira vez consecutiva à presidência e ele e seus aliados tinham decidido que o fariam de todo modo. O serviço de inteligência co-governava das sombras, a telefonia nacional tinha grampeadas 10 mil pessoas e o dinheiro gerado pelas privatizações se utilizava, entre outras coisas, para comprar consciências. Os mais relevantes casos foram os dos diretores dos meios de comunicação de massa que receberam recursos pessoalmente para mudar suas linhas editoriais. Montesinos não só co-governava como também era o fiel da balança. A direita financeira estava feliz, a direita transnacional também, isso sem mencionar as instituições financeiras baseadas em Washington. O Banco Mundial serviu de partido político para Fujimori, fornecendo-lhe mais de um bilhão de dólares para obras de infra-estrutura física entre 1994 e inícios de 1995. Esse estranho regime político autoritário, despótico, liberal no aspecto econômico e ultraconservador no político, aliado da Opus Dei, culminou seus dias em novembro de 2000, depois de três anos de marchas nas ruas iniciadas em 1997, cuja cúspide foi a célebre Marcha de los Cuatro Suyos em julho de 2000.

Vale a pena recordar que Montesinos mandou colocar uma bomba no antigo edifício do Banco de la Nación para dar a imagem de uma esquerda terrorista protestando em meio a uma Lima devastada pelos incêndios. Houve vários mortos como resultado desta estratégia de Montesinos.

A queda

O governo de Alberto Fujimori, no entanto, caiu depois da terceira eleição que havia sido forçada deportando os membros do tribunal eleitoral, e expropriando o Canal 2 de Televisão que não tinha se vendido como os outros. A forma como caiu foi depois da denúncia do ministro da Defesa da Colômbia em fins de agosto de 2000, de que Montesinos e Fujimori vendiam armas às Farc, que eram pagas com cocaína. As armas eram recolhidas na Jordânia e lançadas em pára-quedas sobre a Amazônia colombiana em aviões da Força Aérea Peruana.

Cabe recordar que nos anos do co-governo Fujimori-Montesinos, apareceram vários navios da Marinha de Guerra com toneladas de cocaína, que o avião presidencial foi encontrado na Base Aérea de Las Palmas com três toneladas de cocaína em um vôo que ia a Moscou, e que o homem por trás da luta contra as drogas no Peru era Montesinos, ainda que os eventuais chefes sejam outros.

O que propiciou o final foi a aparição de alguns vídeos gravados no serviço de inteligência onde se mostrava Montesinos entregando pacotes de efetivo a diversas personalidades do país. O Governo estava corrompendo os privados e não inversamente, como é normal ocorrer. Esses vídeos fizeram Montesinos fugir.

Juntando os vídeos com a denúncia Colômbia, a fuga do Peru de Vladimiro Montesinos de seu em um avião do Grupo Banco de Crédito imediatamente após a intervenção direta de um funcionário do Banco que então era assessor do Ministro de Economia. Este falou com o presidente do diretório do Banco que autorizou que o Lear Jet voasse para o Panamá.

Estando Montesinos no Panamá, Fujimori fez uma operação para solicitar vídeos onde ele aparecia nos diversos imóveis de Montesinos. Para isso disfarçou seu assessor de fiscal e acompanhado pela televisão (comprada por ele) foi de casa em casa até que recolheu todos os vídeos. Enquanto isto acontecia, Montesinos regressou ao país para recolher suas coisas e tornou a sair, esta segunda vez de maneira clandestina em um veleiro. Fujimori saiu oito semanas depois de Montesinos, em 15 de novembro de 2000 em meio a um clamor popular onde a corrupção era visível. Nós, peruanos, sentimos que havíamos chegado a uma primavera democrática.

As investigações e os julgamentos

O então presidente fugiu do país no avião presidencial, segundo alguns com as maletas cheias de vídeos; segundo outros, com dinheiro; segundo terceiros com papelada. Foi visto na base aérea quando saía rumo a uma conferência em Brunei, com trinta e três maletas e sacolas. Se sabe que logo o avião presidencial parou em Acapulco onde Alberto Fujimori se encontrou com o general Malca, então embaixador do México, e logo seguiu caminho a Los Angeles onde adentrou um vôo às Filipinas acompanhado por seu cunhado Victor Aritomi, embaixador do Japão. Chegou a Tóquio e renunciou a presidência por fax. Deve-se recordar que o general Malca era um homem de Montesinos e, segundo alguns, ponte na rede do narcotráfico Peru-México. O general Malca segue foragido da justiça mesmo uma década depois.

Em 15 de novembro de 2000, o Peru mudou. O novo governo, presidido pelo congressista Paniagua, abriu investigações e foram encontrados delitos que iam desde a organização de grupos paramilitares que faziam matanças no centro de Lima, a uma quadra do Congresso, até a compra de armas com desvios de fundos para contas nas Ilhas Cayman. Isto foi seguido por comissões investigadoras de delitos econômicos e financeiros no Congresso da República que descobriram as relações entre o poder econômico e o círculo de Fujimori. O poder econômico peruano é fujimorista. Fruto destas investigações, foram realizados julgamentos e presos numerosos ministros, vice-ministros, militares de diversas graduações e finalmente o próprio Fujimori, quando, em um momento de debilidade, acreditou que podia voltar a ser presidente, com a ajuda de seus aliados e dos poderosos do país. Foi capturado em Santiago do Chile e o resto é história. Está na prisão também. Os únicos que não entraram no cárcere, apesar de tudo o que se soube, foram os grandes empresários peruanos do setor financeiro e de construção que agora estão aliados com capitais financeiros transnacionais.

A eleição de agora

A eleição de agora pode ser vista entre a integração sul-americana e a integração com os Estados Unidos. A integração com os Estados Unidos é subordinada e a integração sul-americana esperamos que seja mais horizontal. Os graus de liberdade econômica na segunda são maiores que na primeira. A primeira sujeita tudo aos interesses do capital financeiro e a segunda está mais vinculada ao capital industrial. A primeira reflete interesses exportadores, a segunda expressa o interesse pelo mercado interno.

Os candidatos da direita foram quatro, fragmentados como na Venezuela, contra um candidato da esquerda. Estes foram Pedro Pablo Kuczynski (PPK), Alejandro Toledo, Keiko Fujimori, e Luis Castañeda; e o da esquerda é Ollanta Humala. Os assessores de campanha da direita são venezuelanos, o que explica toda a campanha dedicada da Chávez e que ele seja utilizado de caixa de ressonância. No Peru, utilizou-se a imagem de Chávez de maneira regular como o “cuco” que se parece com Velasco Alvarado e que vai “expropriar”. “A perda” é um imaginário fresco para os que perderam com as reformas do governo militar e para os que se identificaram com o antigo regime. Nas pesquisas eleitorais de 2011 que aparecem na grande imprensa peruana, se formula a pergunta se o povo espera que Ollanta nacionalize o setor mineiro e do petróleo, e a metade responde positivamente.

O mais puro candidato da direita financeira transnacional era Pedro Pablo Kuczynski. Sua biografia da Wikipédia diz: “Trabalhou para o setor privado em diversas partes do mundo. Exilado (sic!!!) em 1968, viajou aos Estados Unidos, onde se radicou e se desempenhou como chefe de Planificação e Política no Banco Mundial. Ainda, serviu como presidente do First Boston International e como diretor do First Boston Corporation. Anteriormente, foi sócio de Kuhn, Loeb & Co. International e presidente da Halco Mining Inc., em Pittsburgh. Durante sua estadia (de quase trinta anos!!!) nos Estados Unidos, adotou a nacionalidade do dito país.” Três dos quatro candidatos da direita peruana têm em comum a nacionalidade estadunidense, com ou sem passaporte emitido. Isso é distinto da direita colombiana, chilena, mexicana e se aproxima mais das direitas centro-americana e venezuelana, residentes em Miami. Em comum, a direita peruana e as direitas centro-americana e venezuelana têm as experiências de perdas para governos de esquerda.

As perguntas que deveriam ser feitas são: O que ocorre no Peru que os candidatos à presidência têm ao menos dois passaportes? E, por que passaportes dos EUA? É tão forte a influência dos Estados Unidos no Peru? No México, por exemplo, é preciso ser filho de nacional nascido no país para concorrer à presidência. Quer dizer, o candidato pode ser neto de imigrantes, mas não filho. Será a dupla nacionalidade generalizada da elite uma re-expressão da desintegração do país? A elite já não vê futuro neste país e adota uma lógica de “melhor que vão embora por aqui nada lhes espera”? A identificação com os Estados Unidos de três dos quatro faz com que não seja estranho, então, que estes candidatos discutam seus dilemas políticos na embaixada de dito país, como dissera o ex-ministro Rospigliosi, do governo de Toledo, contando as peripécias das eleições de 2006. As embaixadas em geral sempre conversam com gente informada dos países para saber como se instalar, mas o insólito é quando os políticos nacionais são os que se aproximam dela e pedem que sirva de árbitro.

Os latino-americanos podem achar PPK melhor, como um dos artífices do Consenso de Washington. As ideias do consenso foram publicadas em um documento de 1986 pelo Institute of International Economics onde está John Williamson, intitulado “Toward Renewed Economic Growth in Latin America” (“Em Direção ao Crescimento Econômico Renovado na América Latina”) junto com Bela Balassa, Gerardo Bueno e Mario Henrique Simonsen. Disse Williamson contando a história do Consenso, “A história começou na primavera de 1989 quando eu estava depondo perante um comitê do Congresso a favor de Brady Plan. Argumentei que seria uma política boa ajudar a que os países devedores pagassem a dívida agora que estavam realizando mudanças profundas nas políticas econômicas, ao longo das linhas advogadas por Balassa, Bueno, Kuczynksi e Simonsen (1986).”

Para o azar dos interesses financeiros transnacionais passou par ao segundo turno Keiko Fujimori e não PPK. Ela é peruana de nascimento, estadunidense por matrimônio e japonesa pelos pais. Com três nacionalidades, sua única relação com o mercado de trabalho foi ter sido congressista pela bancada do time de seu pai. Seu mérito foi tomar o espaço de primeira dama quando seus pais se divorciaram e aos 19 anos ser a encarregada da função de acompanhar seu pai em visitas oficiais. Logo ingressou na carreira, como seus irmãos, com fundos públicos. Abandonou sua mãe no momento do divórcio, atraída pelo poder do pai.

A libertação de Fujimori

Pesa sobre a cabeça da candidata Fujimori a libertação do sentenciado Alberto Fujimori. Ela fez uma campanha, no momento do julgamento de seu pai, por sua libertação. Agora, posta na corrida eleitoral, nega o fato. Ao mesmo tempo, os rumores no Peru são fortes no sentido de que Alan García daria o perdão a Fujimori depois do segundo turno, para poupar Keiko de fazê-lo. Não o faz no intervalo entre o primeiro e o segundo turno porque poderia resultar negativamente para a candidata Fujimori.
As razões para que Alan García absolva Fujimori são várias. A primeira e mais evidente é que Fujimori permitiu o regresso de Alan ao Peru no ano de 2000, quando García estava sendo julgado por crimes contra a humanidade e por corrupção, vivia em Paris, e não podia retornar ao país.

García disse, no início da campanha, que não podia fazer com que elegessem um candidato, mas que podia prevenir que elegessem um. Certamente isto até agora teve pouco efeito. Um dos temas que o tem afetado são os julgamentos dos crimes contra a humanidade, suspensos enquanto foi presidente, mas que ganharão vida quando ele perder a imunidade presidencial. Pra tentar evitar isto, a aliança com os fujimoristas, a segunda força no congresso eleito, é essencial.

Um teste foi a libertação em dezembro de 2009 de José Enrique Crousillat, presidente do Canal 4, quem recebeu dinheiro de Montesinos e foi absolvido por García. A reação nas ruas se fez sentir de imediato, mas levou um ano para voltar a capturá-lo e foi preso novamente em janeiro de 2011.

Em um clima eleitoral conturbado, a libertação de Fujimori poderia passar despercebida? O que é certo é que, uma vez livre, se sua filha for presidenta, não será preso novamente mesmo que haja protestos públicos. Que fará com Montesinos? E com os demais?

Em suma, de um lado, a eleição é entre o consenso de Washington e outra coisa, entre a integração com Estados Unidos e outra coisa, e entre a libertação de Fujimori e outra coisa. Com o poder econômico por detrás e assessores venezuelanos, a campanha se baseia em permanentemente comparação de Humala com Chávez e na tentativa de criar um pânico financeiro. É relativamente simples se eles mesmos tiram dinheiro da bolsa de valores e logo dão com explicação do “terror Chávez”. A grande imprensa peruana outra vez está aliada a esta campanha, mostrando que a democracia não interessa. O que importa é a “liberdade de escolha no mercado” e a titulação da Amazônia para remover seus habitantes mais pobres. Tudo parece indicar que a eleição está empatada e a guerra suja contra Humala agora está reforçada.

*Publicado originalmente em Alainet.org, via Revista Fórum

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