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Pela primeira vez, Rússia admite possibilidade de derrota de Assad

por Redação Carta Capital — publicado 13/12/2012 16h22, última modificação 13/12/2012 16h35
Rebeldes dominam 60% do território e, até a metade de 2014, devem controlar o país inteiro, avalia ministro russo
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Família síria refugiada se abriga em tenda num campo na fronteira com a Turquia, nesta quinta-feira 13. Oficialmente, há mais de 440 mil refugiados sírios desde o início do conflito. Foto: Odd Andersen / AFP

Uma autoridade russa reconheceu nesta quinta-feira 13, pela primeira desde o início do levante contra Bashar al-Assad, que o ditador sírio pode perder o controle do país. Em audiência com um grupo de conselheiros do Kremlin, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Mikhail Bogdanov, admitiu que os rebeldes estão avançando com rapidez e podem promover a mudança de regime até a metade de 2014 ou mesmo antes disso.

"Infelizmente, é impossível excluir uma vitória da oposição síria", disse Bogdanov segundo a agência russa Interfax e o jornal The New York Times. "Precisamos olhar objetivamente para os fatos, e a tendência sugere que o regime e o governo da Síria estão perdendo mais e mais controle e mais e mais território". De acordo com a estimativa de Bogdanov, os opositores de Assad controlam hoje 60% do território sírio e devem controlar todo o país em um ano e meio.

Bogdanov afirmou que a Rússia mantinha sua postura contrária ao fornecimento de ajuda, inclusive logística e militar, para a oposição a Assad, como fizeram diversas potências ocidentais e também regionais. O ministro russo lembrou que 40 mil pessoas já morreram e afirmou que daqui para frente o confronto deve ser ainda mais cruel, com dezenas de milhares de mortes. "Se você aceita este preço para tirar um presidente do poder, o que podemos fazer? É claro que n[os consideramos isso totalmente inaceitável", afirmou.

Desde março de 2011, o governo da Rússia se colocou ao lado de Assad, inclusive abastecendo o regime com armas, como fazia antes do levante. Nas Nações Unidas, a Rússia, ao lado da China, vetou qualquer tipo de resolução que pressionasse Assad ou abrisse as portas para uma intervenção estrangeira, nos moldes da que ocorreu na Líbia. Um dos fatores por trás da Rússia era a intenção de preservar um aliado estratégico no Oriente Médio e manter sob controle a base naval de Tartus, no mar Mediterrâneo. Segundo o NYT, o entendimento de que Assad deve perder o conflito a longo prazo é tão claro que enviados especiais russos estariam em contato frequente com organizações opositoras sírias para tentar garantir os privilégios na base naval após a queda do regime.

Apesar da análise a respeito de seu aliado, o governo russo não enxerga nenhum tipo de deterioração nas condições da Síria recentemente. Tanto é que o governo não tem, por enquanto, nenhum plano para evacuar os milhares de russos que moram e trabalham na Síria. Quando a Rússia tomar esta decisão, provavelmente o fim do regime sírio estará bem próximo.

Ofensiva da oposição e desespero de Assad

Um atentado com carro-bomba matou 16 pessoas nesta quinta-feira em um bairro da periferia de Damasco. As vítimas, em sua maioria mulheres e crianças, morreram no ataque em Qataba, na periferia sudoeste da capital, informou a agência oficial síria Sana. Vinte e três pessoas ficaram feridas, várias delas com gravidade. De acordo com a Sana, "terroristas utilizaram um automóvel com uma importante quantidade de explosivos".

De acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), o ataque aconteceu em uma área na qual muitos militares moram com suas famílias. Na quarta-feira, uma série de atentados abalou a periferia de Damasco e matou 13 pessoas. Em um dos ataques, executado contra o Ministério do Interior, o ministro Mohammad Ibrahim al-Shaar foi ferido no ombro.

A crescente ofensiva contra alvos governamentais acontece depois de dezenas de governos árabes e ocidentais terem reconhecido a oposição armada como único representante legítimo do povo sírio.

Em um aparente sinal de desespero, o governo Assad estaria usando armamentos ainda mais pesados contra sua própria população. O governo dos Estados Unidos acusou o regime de Assad de ter utilizado mísseis Scud, o que o regime negou oficialmente, e a Human Rights Watch denunciou o uso de bombas incendiárias que provocaram queimaduras graves em civis.

As forças do regime parecem ter passado a uma nova etapa ao utilizar mísseis Scud, que "não têm nenhuma justificativa militar, são pesados, caros e imprecisos", destacou Karim Bitar, diretor de pesquisas no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris).

Um jornalista da AFP foi testemunha na segunda-feira, no noroeste da Síria, de uma destas explosões. Segundo um comandante do Exército Sírio Livre (ESL), Abu Jalal, o projétil era um míssil terra-terra, de porte um pouco inferior a um Scud, com alcance de dezenas de quilômetros e carga de 300 a 500 quilos de TNT.