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Pela culatra

por Wálter Maierovitch publicado 06/09/2010 11h57, última modificação 14/09/2010 17h33
O grande erro do governo mexicano foi preferir a militarização na luta contra as drogas
Pela culatra

O grande erro estratégico de Felipe Calderón foi preferir a militarização em vez de atacar a economia movimentada pelos cartéis. Por Wálter Maierovitch. Foto: AFP

Certa vez, apanhei o metrô para chegar ao vienense Palácio de Vidro das Nações Unidas. Tinha sido marcada uma reunião com coordenadores de ações preventivas e de contraste ao fenômeno das drogas ilícitas. No vagão, notei um passageiro de calva brilhante, a conversar em espanhol. Era o general Gutierrez Rebolo, czar antidrogas da Presidência da República do México.

Passado pouco tempo, os jornais noticiaram a prisão do czar Rebolo. Ele tinha se associado ao cartel de Tijuana, um dos mais potentes no tráfico de cocaína para os EUA, pela fronteira com San Diego. Numa entrevista, o confesso Rebolo disse que se corrompeu por necessitar de dinheiro para manter amantes.

Um sósia de Rebolo foi contratado para fazer o papel de czar no filme Traffic, um campeão de bilheteria. Naquela reunião na subsede da ONU falou-se dos 58,3 milhões de dólares que Raúl Salinas mandou para os bancos suíços. Raúl era irmão do ex-presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari (1988-1994) e atuou, durante o mandato presidencial, como uma espécie de “embaixador” dos cartéis. Esse dinheiro, faz mais de dez anos, está bloqueado por deliberação da Justiça helvética.

Com efeito, os cartéis mexicanos respondem pelo envio aos EUA de 90% da cocaína e da marijuana lá ofertadas e consumidas. A procedência da cocaína é colombiana, cujos “cartelitos”, e não as Farc, estão conectados em rede com as organizações criminosas mexicanas. Segundo dados norte-americanos, os cartéis mexicanos movimentam, por ano e apenas com o tráfico de drogas proibidas, de 20 bilhões a 25 bilhões de dólares. Fontes europeias falam em 13 bilhões. Conforme acabam de reconhecer as autoridades norte-americanas e mexicanas, e informou o Washington Post, apenas 1% desse movimento financeiro é apreendido pelas autoridades. Em outras palavras, o desfalque aos seus cofres é mínimo.

O grande erro estratégico de Felipe Calderón foi preferir a militarização em vez de atacar a economia movimentada pelos cartéis. Com a guerra em curso, os cartéis aumentaram as despesas. Precisaram corromper mais, comprar munições e prover a reposição de armas. Para sustentar as despesas da guerra, os cartéis celebraram alianças e partiram para conquistar territórios de outros, menos fortes. Daí, outra guerra menor, dentro da maior, que é contra o Estado mexicano. Os sete mais potentes cartéis mexicanos levam os nomes de Tijuana, Juárez, Beltrán Leya, Familia Michoacán, Sinaloa, Golfo e Los Zetas.

Os cartéis mexicanos possuem representações em 200 cidades norte-americanas. E seus representantes não enfrentam barreiras para adquirir, nos EUA e para as suas organizações, armas e munições. Para se ter ideia, no México, diariamente, são apreendidas 2 mil armas. Inicialmente, essa guerra contou com apoio financeiro fornecido pelo então presidente George W. Bush. Dela já se esquivou Barack Obama. O czar da Casa Branca avisou que a política norte-americana de war on drugs fracassou. Além dos recursos financeiros, Bush elaborou para Calderón o Plan Mérida, que era uma adaptação do falido Plan Colombia.

Ao assumir, em dezembro de 2006, a Presidência com odor de fraude eleitoral, Calderón, no primeiro dia do mandato, convocou as Forças Armadas e partiu para a “guerra às drogas”. A meta era desviar a atenção e tentar legitimar o mandato por meio de forte adesão à anunciada “guerra às drogas”. Hoje, 50 mil militares enfrentam, sem sucesso, os cartéis, que contam com 500 mil afiliados.

Nessa guerra, Calderón contabilizou, até o fechamento desta coluna, 28.361 mortes e 70% das vítimas eram civis de ficha e conduta limpas. Dentre os mortos estão 900 mulheres, 90 crianças e 30 jornalistas. O incrível é que 23% dos assassinatos foram consumados em Ciudad Juárez. Para fechar agosto, verificou-se mais uma chacina, esta na cidade de San Fernando, província de Taumatipas: 72 vítimas, com um brasileiro identificado e autoria atribuída a integrantes do cartel Los Zetas.

Calderón, que perdeu o apoio da população, não reconhece que a estratégia da militarização foi uma péssima escolha. Sem talento e assessoria, deverá prosseguir, nos próximos dois anos de mandato, com a guerra contra os cartéis das drogas. Por enquanto, dedica-se a criar factoides diários. Por exemplo, e só na última semana: 1. Apresentou novo armamento “made in México”. 2. Recomendou a adoção do sistema colombiano conhecido por “juízes sem rosto”. 3. Afastou policiais dados como corruptos (no ano de 2009, mandou desarmá-los). 4. Concluiu que pelas disputas violentas os cartéis se autodestruirão. 5. Reclamou da Justiça que teria julgado apenas 15% dos 26 mil mexicanos presos por associação aos cartéis.

Sobre a legalização das drogas, Calderón só aceita o debate. Na verdade, não quer apoiar a proposta de legalização do antigo presidente Vicente Fox, outro Fernando Henrique Cardoso que também resolveu colocar as vestes de tartufo.

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