Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Paraíso Paradoxo: Romênia

Internacional

Sócio Capital

Paraíso Paradoxo: Romênia

por Coluna do Leitor — publicado 28/01/2011 10h01, última modificação 28/01/2011 10h33
Christiane Falcão, nossa leitora, nos conta a história da Romênia pós-comunista a partir da trajetória do artista Ion Barladeanu

Por Christiane Falcão*
Ion Barladeanu viveu nas ruas de Bucareste desde a queda do regime comunista, em 1989, se alimentando e obtendo dinheiro da caridade de passantes e conhecidos. Barladeanu virou príncipe, como ele mesmo declara, quando suas colagens foram descobertas por outro artista em 2007, que lhe conseguiu um encontro com o diretor de uma galeria de artes na capital romena. As colagens de Barladeanu, caracterizadas como vanguardistas e de fortes comentários políticos, já estiveram expostos em Bucareste, Nova York, Paris e essa atenção vem crescendo cada vez mais no universo “mainstream” das artes. As colagens de Ion Barladeanu possuem como um de seus personagens mais recorrentes o ex-presidente da Romênia comunista, Nicolae Ceasescu. No documentário Ion B., produzido pela HBO Romênia em 2010, o artista revela que sentia muito medo de Ceausescu e o ex-ditador é retratado em inúmeras de suas obras.
Nicolae Ceausescu povoa não somente o imaginário de Ion Barladeanu. A influência do ex-ditador no imaginário romeno pode ser evidenciada na grande quantidade de grandes prédios não terminados que enfeitam Bucareste desde a sua gestão, bem como nas conversas correntes entre pessoas que viveram os dias do regime comunista no país. Com a situação econômica e política da Romênia atualmente, a mídia tem classificado como onda de nostalgia as demonstrações públicas de apoio ao comunismo. Hoje, 26 de janeiro, Ceausescu completaria 93 anos se não fosse morto no dezembro de 1989 juntamente com sua esposa, Elena Ceausescu, após um julgamento bastante polêmico.
O regime comunista na Romênia foi finalizado na conhecida como Revolução de 1989, em dezembro daquele ano. Muitos documentos foram perdidos, mas é afirmado por estudiosos e testemunhado por personagens ativos do evento histórico que a queda do regime e a execução de Nicolae e Elena Ceausescu foram algumas das conseqüências das recusas expressas do ditador em se alinhar à política Perestroika, imposta por Mikhail Gorbachev na tentativa de equilibrar a economia do bloco socialista.
A Romênia hoje é governada pelo presidente Traian Basescu (PDL – Partido Democrático Liberal), gestão que declara ter a missão de modernizar o país. Em 2007, Romênia entrou para a União Européia, porém com algumas restrições e o país tem sido tratado com flagrante desdém pela comunidade européia. Grandes desafios na Romênia hoje são o alto índice de desempregados, baixos salários e cortes no setor previdenciário. A grande mídia romena correntemente tem reportado que a previsão para desemprego e baixos salários para o ano de 2011 tende a ser ainda pior.
Nessa véspera dos 21 anos da revolução, Adrian Sobaru, funcionário da emissora de TV Nacional, se jogou de um dos balcões do senado durante o discurso do primeiro-ministro Emil Boc em protesto pela redução da pensão de um de seus filhos, que é portador de uma grave doença. Relatos como esse são comuns tanto na mídia quanto no dia-a-dia.
Nesse dia 26 de janeiro, aniversário de Ceausescu, membros do Partido Comunista e “nostálgicos” vieram ao cemitério de Ghencea, em Bucareste, a fim de homenageá-lo com poemas, gritos de guerra e partilhar suas experiências. Muitos confessam terem se alegrado na eminência da revolução de 1989 com a idéia de serem livres da ditadura, mas logo depois se conhecia uma situação também complicada que afetaria a vida da maioria da população. Muitos reportam que durante o período comunista obtiveram casa própria e a oferta de empregos era muito grande. Não havia a liberdade de expressão completa, mas muitos populares hoje se perguntam que liberdade hoje se tem num país aonde o índice de jovens em postos de trabalho vem reduzindo tanto, e a corrupção e concentração de renda são tão expressos.
Mídia e Governo reportam há muito que a Romênia vive uma profunda crise econômica, e esse comentário político é repetido todos os dias pela população, seja em conversas – reclamações – informais, seja nas vitrines das lojas que não estampam mais palavras como “promoção” ou “liquidação”, mas “produtos com preços de crise”, “oportunidades de crise”. Outro aspecto curioso desse discurso da crise é a crescente pulverização de alguns serviços: a quase cada virar de esquina pode-se encontrar agências de vários bancos com diversos anúncios de linhas de crédito e financiamento, casas de penhores e farmácias.
Esse grande país, conhecido vulgarmente pela figura mítica do Conde Drácula, fundamentadas na história do real Vlad III, “O Empalador”, e pela presença de povos ciganos, é certamente muito mais que isso. A história da Romênia tem registros anteriores à passagem de Homero pela região na época povoada pelos Daci, povo ancestral, e possui inúmeras guerras contra a ocupação romana na Antiguidade, e a contenção do Império Otomano na Europa.
A Romênia possui grande extensão territorial e de terras cultiváveis, bem como uma grande bacia de rios, além da abertura para o Mar Negro. É o único país europeu a possuir poços de petróleo, porém após a Revolução de 1989 a extração do tão valioso produto foi cedida a outros países, como Rússia e Áustria. Muitas fábricas foram fechadas depois da revolução, e pelo menos duas gerações de romenos e romenas permaneceram com opções de trabalho extremamente limitadas ou inexistentes.
O que se retrata reduzidamente acerca da situação político-econômica da Romênia nesse texto vem da inquietação da evidência do fracasso do projeto ocidental dito democrático que insiste em ofuscar os direitos civis dos cidadãos em nome de uma modernização que só beneficia as classes mais abastadas. É ao menos emblemático que a geração que viveu a revolução de perto hoje chegue a afirmar que preferia a tirania daqueles anos. Esse parece ser um período ainda sensível para países como a Romênia, cujo período de transição pós-comunista deve se estender por pelo menos mais vinte anos ou duas gerações. Esse período que nunca será esquecido por alguns, seja qual for a razão, não é lembrado pelos mais jovens o que evidencia um choque grande de gerações.
Que um país de natureza, cultura e história tão emblemáticos não se divida ainda mais. E que por mais que seja “interessante” que um artista “sem-teto”, como é classificado Ion Barladeanu, tenha sido descoberto com tal valioso talento, que não se naturalize a imagem de pessoas que desistem de viver em sociedade porque essa sociedade não lhes respeita como indivíduo.

registrado em: