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Para qual lado corre Piñera?

por Redação Carta Capital — publicado 19/07/2011 13h40, última modificação 19/07/2011 17h25
Cercado por protestos de estudantes, ambientalistas e mineiros, presidente chileno promove reforma no gabinete

Até o dia 27 de agosto, uma maratona ocorre no quarteirão do Palácio La Moneda, sede do governo chileno, em Santiago. Batizada de “1.800 horas pela educação”, a corrida é uma das formas que os estudantes encontraram para protestar por uma maior presença do Estado na educação superior no Chile, uma das demandas que deixa o país andino em convulsão social há pelo menos um mês.

O nome da maratona, que até agora não foi interrompida, é uma alusão de quanto custaria anualmente a completa estatização das universidades públicas chilenas: 1,8 bilhão de dólares (1.800 millones em espanhol) e o revezamento está aberto a qualquer pessoa, inclusive turistas.

A obstinação dos manifestantes nessa maratona evidencia o descontentamento dos chilenos com os rumos da educação pública no país. Há pelo menos um mês, eles enchem as ruas de Santiago e das principais cidades do Chile. Na quinta-feira 14, data da última marcha, 30 mil estudantes tomaram as ruas da capital e houve confronto com a polícia, ocasionando 170 detenções.

A pressão popular – que inclui também grupos descontentes com a construção de hidrelétricas na região da Patagônia e trabalhadores das minas de cobre – fez com que o presidente Sebastián Piñera adotasse a maior reforma de gabinete desde que assumiu, há pouco mais de um ano.

Os índices de aprovação do presidente (30%) atingiram os níveis mais baixos de um mandatário desde o plebiscito pela redemocratização do país em 1990 e definitivamente sepultaram o a popularidade arrecadada com o resgate dos 33 mineiros da mina de San José, em 2010.

O descontentamento dos chilenos tampouco poupa a oposição, a coalizão Concertación que governou o país desde o fim da era Pinochet, com desaprovação de 68%, segundo dados de maio.

Houve mudanças em oito das 22 pastas, entre elas a conturbada Educação. Saiu Joaquín Lavín, realocado para o Planejamento, e entrou Felipe Bulnes, até então ministro da Justiça. A reforma, marcada pela transferência de quatro titulares para outros ministérios, foi acusada de mera “maquiagem” pela oposição, que detém a maioria do Senado.

“A sociedade chilena nos lembra todos os dias que ainda temos muitos desafios pela frente. Apesar de muitos não perceberem os impactos do que estamos fazendo, sabemos que estamos num bom caminho”, disse Piñera ao anunciar a troca de ministros na segunda-feira 18.

Mesmo com as alterações de gabinete, um ato cultural promovido por estudante ocorreu na segunda-feira 18 em Santiago. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a presidenta da Federação Estudantil da Universidade do Chile, Camila Vallejo, disse que “não adianta mudar o gabinete e não alterar a política do governo”.

Educação pública

Apesar de gastar 2% de seu Produto Interno Bruto (PIB) na educação superior, índice compatível com o de países da União Europeia, apenas 14,4% desse montante é investimento do estado. Essa é a realidade contra a qual protestam os estudantes do Chile, que desde junho ocupam universidades e colégios secundários por todo o país. As universidades públicas chilenas são dependentes do pagamento de matrículas, que chegam a custar até 12 mil reais anuais. Segundo os manifestantes, que receberam o apoio de quatro reitores das principais universidades públicas do Chile, esse sistema perpetua desigualdades e impede famílias a manter mais do que um filho na academia. Além do mais, muitos estudantes deixam os bancos das faculdades extremamente endividados.

O governo chegou a propor, na semana passada, o aumento de recursos em quatro bilhões de dólares para a educação superior, mas, mesmo assim, os manifestantes decidiram manter a marcha programada para a quinta-feira 14. Segundo eles, mais do que os aportes, é preciso reestruturar completamente o modelo educacional instaurado na ditadura Pinochet.

O governo Piñera se vê acuado também pelo vital setor das minerações. A Federação de Trabalhadores do Cobre convocou uma greve de 24 horas entre os trabalhadores da Codelco, maior produtora mundial de cobre, em “advertência” a uma suposta intenção do governo de privatizar a empresa. Um plano de investimentos para a estatal previa a demissão de um grande número de funcionários. A paralisação ocorreu no último dia 11 e causou prejuízos de 41 milhões de dólares.

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