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"Otan fracassa de modo flagrante na Ucrânia", diz ex-general da aliança

por Deutsche Welle publicado 03/09/2014 09h33
Militar da reserva alemão Harald Kujat diz que organização deve conversar com Rússia para resolver crise ucraniana. Ele acusa a aliança de não buscar diálogo com Moscou
Petras Malukas / AFP
Ucrânia

Número de recrutas paramilitares que aderiram à União dos Fuzileiros da Lituânia, patrocinado pelo governo, é cada vez maior. Foto de 19 de julho, perto Pabrade, Lituânia

O general da reserva Harald Kujat, de 72 anos, foi entre 2000 e 2002 o militar de mais alta patente das Forças Armadas alemãs e conselheiro do governo da Alemanha. De 2002 a 2005, ele presidiu o Comitê Militar da Otan, o mais alto grêmio consultivo da aliança. Em entrevista à DW, Kujat diz que a Otan deve procurar conversar com a Rússia para resolver a crise na Ucrânia. Ele acusa a aliança de não buscar diálogo com Moscou, apesar de dispor de instrumentos para tal, como o Conselho Otan-Rússia.

DW: A Otan quer discutir na cúpula desta semana uma nova estratégia em relação à Rússia. Como ela deve ser, na sua opinião?
Harald Kujat: A Otan quer se preparar melhor para a defesa convencional. As capacidades convencionais devem ser reforçadas. Este é um resultado da crise da Ucrânia. Sobretudo os países bálticos, mas também poloneses, temem que a centelha pule, por assim dizer, e que eles próprios sejam ameaçados. A maioria dos Estados, em especial Alemanha, França e Reino Unido, não só reduziu seu poder bélico de forma dramática, como também mudou estruturalmente e no que diz respeito aos armamentos, diminuindo as habilidades de gestão de crise e de conflitos e a capacidade de defesa convencional e coletiva. Isso foi reconhecido como um problema e que deve ser mudado.

DW: A Otan diz que não desempenha papel militar algum no conflito da Ucrânia. Ela seria capaz de defender os países membros do Leste se a Rússia vier a ameaçá-los?

HK: O problema é o tempo de resposta. Devido às mudanças, a Otan precisaria de um tempo considerável para construir uma sólida linha de defesa na Polônia e nos países bálticos, devido também às características geográficas. A Rússia simplesmente estaria em uma posição melhor. Por isso, esses Estados também exigem um estacionamento permanente de tropas da Otan em seu território, para encurtar este tempo de resposta. Mas há resistência em alguns países da Otan. Parece que uma força de reação rápida deve agora ser empregada para poder reagir em um tempo mais curto e, pelo menos, mostrar presença mais rapidamente. Isso seria um fator de dissuasão importante e contribuiria para a segurança desses países.

DW: Seria suficiente, para se ampliar a proteção desejada por esses países, se apenas fossem armazenados lá material e armas, sem que haja uma tropa permanentemente?

HK: O material precisa de muito tempo, caso haja necessidade imediata. Tropas podem ser deslocadas de forma relativamente rápida, mas material, não. A meta é fazer com que a tropa de reação rápida NRF seja capaz de responder em um tempo mais curto. Isto teria a vantagem de que, no caso, uma força multinacional estaria em cena, ou seja, a Otan estaria envolvida como um todo. Naturalmente que devemos sempre lembrar que depois mais tropas também teriam que ser deslocadas para estes países. Mas a Rússia também precisa de certo tempo para ser capaz de atacar. Se você tiver um sistema de alerta eficaz, então você pode compensar isso.

DW: A relação entre a Otan e a Rússia são mantidas baseadas no "Ato Fundador das relações mútuas de cooperação e de segurança". Ele proíbe, segundo a interpretação comum, o estacionamento permanente de unidades maiores da Otan nos Estados-membros do Leste Europeu. Seria a hora de rever ou cancelar este acordo?

HK: O Ato Fundador é, de fato, a base para a chamada parceria estratégica entre a Otan e a Rússia. Esta parceria estratégica é exprimida no Conselho Otan-Rússia, que se reúne em níveis muito diferentes. Em nível militar, entre os comandantes supremos da Otan e da Rússia; em nível diplomático e em nível político dos ministros da Defesa, dos ministros do Exterior e até mesmo dos chefes de Estado e governo. Portanto, é um meio muito eficaz na prevenção de conflitos e gestão de crises. Infelizmente, este excelente instrumento não foi utilizado pela Otan.

Acredito que teria contribuído muito para acalmar e estabilizar a situação na Ucrânia. Essa passagem a que você se refere no Ato Fundador é uma declaração unilateral da Otan. Ela diz que a Otan não tem intenção de realizar estacionamentos maiores de tropas. É uma declaração unilateral! E é claro que é possível retirá-la a qualquer momento. Mas eu acho que seria um grande erro fazer isso. Porque o valor da parceria estratégica entre a Otan e a Rússia é muito maior do que o valor que poderia ser alcançado se nós estacionássemos tropas do Báltico. Isso levaria a mais uma escalada ou agravamento das relações.

O importante é melhorar a cooperação entre a Otan e a Rússia, estar disposto a resolver conflitos e crises. Há toda uma gama de instrumentos disponíveis que são, na verdade, únicos após a Guerra Fria. Seria uma pena se tudo isso fosse perdido.

DW: Essa parceria estratégica foi naturalmente abalada nos últimos anos pelo comportamento da Rússia na Crimeia ou agora no leste da Ucrânia. O secretário-geral da Otan e o comandante supremo da Otan na Europa dizem, ambos, que a Rússia não é mais um parceiro e sim uma ameaça, um inimigo. O senhor compartilha deste ponto de vista?

HK: Não, de forma alguma. Estas são afirmações que não ajudam a acalmar a situação, mas a piorá-la. Estamos lidando com uma crise regional inicialmente limitada. Há interesses por parte da Rússia e há interesses por parte dos Estados-membros da Otan.

A Otan, como organização, não tem interesses. Especialmente neste ponto, o Ato Fundador diz que sempre que a segurança de ambos ou os interesses de segurança de um lado são afetados, que os parceiros devem se reunir e procurar, na melhor das intenções, resolver o conflito. Isso não foi feito pela Otan até agora. Ela também não fez isso em 2008, quando houve o conflito entre a Rússia e a Geórgia. Ela não chegou a cancelar formalmente a cooperação, mas extinguiu os programas práticos ou suspendeu-os. Isso é um erro.

Quando se cria um instrumento para gestão de crises, então faria sentido usar este instrumento quando surge uma situação como esta. Eu tenho grandes preocupações de que aqui cada vez mais estejamos sendo arrastados para uma situação devido a comentários feitos por ambos os lados, que agravam a situação e, assim, a crise continua se agravando. Isso não pode ser do nosso interesse.

Vejo no momento muito poucos políticos que dizem: "Vamos fazer uma pausa por um momento. Não vamos agravar ainda mais a questão". No caso da Ucrânia, a Rússia entrou numa situação que é um beco sem saídabasicamente. Mas o Ocidente também, porque as sanções não vão levar a nada. Esta é realmente a última chance de chegar a uma solução comum, mas para isso temos que sentar em uma mesa.

DW: Teria sido melhor, no seu ponto de vista, realizar uma sessão do Conselho Otan-Rússia paralelamente à cúpula ou durante a cúpula, para falar sobre isso? Haverá uma Comissão Otan-Ucrânia, mas nenhum Conselho Otan-Rússia.

HK: Sim, isso é, de fato, um erro. Mas com um prazo tão curto, isso não teria perspectiva de sucesso. Isso teria que ser preparado a longo prazo. Os ministros do Exterior teriam que ter conversado uns com os outros e então poderíamos ter subido até os chefes de Estado e de governo. É realmente lamentável que a Otan aqui fracasse de modo tão flagrante.

  • Autoria Bernd Riegert (md)