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Os robôs realmente vão dominar o mundo

por The Observer — publicado 05/05/2014 05h23
Se o capitalismo pode terceirizar empregos mal remunerados, por que não pode substituir as classes médias por autômatos? The Observer
Paul J. Richards / AFP
Chuck Hagel e robô

Chuck Hagel, o atual secretário de Defesa dos Estados Unidos, recebe informações do robô Atlas, desenvolvido por pesquisadores da universidade Virginia Tech com o patrocínio do Pentágono

Por John Naughton

Não é muito comum ouvir um apresentador do Newsnight usar um termo matemático obscuro, mas a semana passada foi uma exceção. O culpado foi David Grossman, que fez um excelente filme para o telejornal sobre a ameaça da robótica avançada para o emprego. Nesse filme, ele realizou a peregrinação padrão ao MIT para entrevistar Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, que fizeram muitos avanços nesta área com vários livros, dos quais o mais recente é The Second Machine Age (A segunda era da máquina). Seu argumento, disse Grossman, foi que nossa sociedade alcançou um "ponto de inflexão", conceito amado pelos que estudaram cálculo diferencial na juventude, mas provavelmente desconhecido para o espectador médio.

Mas é para isso que serve a Wikipedia. Ela explica que ponto de inflexão é um ponto de uma curva em que a curvatura ou concavidade muda de sinal, de positivo para negativo (ou vice-versa). Como isso parece um assunto menor que o terremoto profetizado por Brynjolfsson e McAfee, Grossman poderia ter conseguido mais milhagem com "ponto de virada", que, embora diferente de inflexão, me parece mais próximo do xis da questão.

Em seu livro, Brynjolfsson e McAfee afirmam que a combinação do poder de computação maciço com redes abrangentes, aprendizado de máquinas, mapeamento digital e a "Internet das coisas" estão produzindo uma revolução industrial completa, na mesma escala que as transformações causadas pela energia a vapor e a eletricidade. Mas enquanto essas revoluções mais antigas suplantaram a força física humana (e equina), a nova vai suplantar muito da cognição humana, e o trabalho que exigia empregar pessoas para fazer tarefas de processamento de informação afinal será feito por computadores. A implicação é que até as pessoas em muitas ocupações de colarinho branco poderão se ver desempregadas.

Nessa altura, muitos leitores vão bocejar, com razão. Afinal, já ouvimos esse tipo de conversa antes – nos anos 1960, por exemplo, quando os robôs chegaram às linhas de montagem de automóveis, houve previsões terríveis sobre o desemprego em massa que seria causado pelas novas máquinas. Isso não aconteceu, ou pelo menos não como foi anunciado. Muitos empregos na linha de montagem desapareceram, mas surgiram novos tipos de empresas, e os trabalhadores deslocados encontraram novo emprego e a máquina da prosperidade seguiu em frente. Então Grossman e seus interlocutores do MIT estão apenas enrolando?

Não, eles insistem. O problema, dizem, é que a maioria das pessoas não tem ideia das capacidades dessas novas tecnologias. Elas apontam o carro que se autodirige da Google como exemplo de uma capacidade que – até recentemente – a maioria das pessoas pensava que ainda seria reserva exclusiva dos seres humanos durante muito tempo. Mas esses carros já existem e são mais seguros que os veículos controlados por humanos. E se computadores podem dirigir carros com segurança em ambientes urbanos saturados, certamente podem fazer muitas tarefas hoje realizadas por funcionários de escritório. Em outras palavras, desta vez é diferente. Estamos realmente à beira do ponto de inflexão.

Existe um ar de determinismo tecnológico em tudo isso (embora Brynjolfsson e McAfee neguem vigorosamente a acusação). Ele sugere que a tecnologia é a principal força – senão a única – que move a história. Em uma variante da discussão de "armas não matam – são as pessoas que matam", os críticos apontam que é o contexto social em que as tecnologias passam a existir, e não a tecnologia em si, que determina a mudança.

E é verdade. Mas, paradoxalmente, desta vez ela pode fornecer um argumento que suporta o ímpeto determinista do caso Brynjolfsson/McAfee. Porque essas novas tecnologias chegaram em um momento em que o contexto social – o capitalismo neoliberal – parece construído de propósito para intensificar a extrema racionalização do trabalho que as novas tecnologias permitem. Acreditamos realmente que um sistema econômico que apoia a maciça terceirização de empregos para países de baixa remuneração não aproveitaria a oportunidade de substituir funcionários de colarinho branco caros por robôs que custam cerca de 4 dóares por hora para funcionar, nunca respondem, não têm sindicatos e não ficam doentes ou deprimidos?

Depois há outra coisa que Brynjolfsson e McAfee realmente não discutem, que são as quatro propriedades intrínsecas das tecnologias de computação e de rede. Elas são: custos marginais próximos de zero (o que confere vantagens maciças aos primeiros adeptos e aos investidores); efeitos de rede (que levam a resultados de "o vencedor leva tudo", como aconteceu com as redes de buscas e sociais); o modo como os fenômenos online seguem as distribuições estatísticas da lei da energia que se aplicam quando poucos jogadores captam a maior parte da ação, deixando todos os outros a se arrastar em uma "longa cauda"; e o travamento técnico (do tipo que permitiu à Amazon exercer um punho de ferro na computação em nuvem).

Junte tudo isso e você terá tecnologias que têm uma tendência embutida para o poder monopolista. Elas estão moldando o mundo para o qual rumamos. O ponto de inflexão de que David Grossman falou poderia na verdade ser a borda de um precipício.

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