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Internacional

11 de setembro

Os patriotas e os lúcidos

por Gianni Carta publicado 11/09/2011 08h00, última modificação 13/09/2011 13h17
Naquele dia, uns clamavam por vingança, outros, raros, apelavam à razão e reconheciam as responsabilidades dos EUA

Union square, Nova York, 18 de setembro de 2001. Trêmulas as mãos de Carl, um homem branco, alto, cabelos esbranquiçados, 40 e poucos anos. Ele discursa e, à sua volta, o número de ouvintes começa a aumentar. “Infelizmente, não vamos acabar com o terrorismo. O que podemos fazer é combater as suas causas. Se bombardearmos o Afeganistão, será que não estaremos simplesmente formando mais jovens terroristas?” Carl ganhou o apelido The Prophet. Sua fala objetiva, a resumir minhas reflexões naqueles momentos trágicos pós-ataques da Al-Qaeda contra os Estados Unidos, me deixa pasmo pela lucidez. Doutorando em Oriente Médio pela Universidade de Stanford, o carismático Carl falava coisa com coisa.

No dia anterior, eu havia tomado o primeiro voo de Londres, onde era correspondente de CartaCapital, para Nova York, cidade onde havia trabalhado e vivido a poucos quarteirões da Union Square. Aquele tinha sido o primeiro voo da Europa para os Estados Unidos pós-11 de setembro. Os passageiros, entre eles americanos a regressar ao seu país, europeus com família nos EUA, e mais um punhado de correspondentes, permaneceram mudos.  Inclusive eu.

Na fila para o embarque havia passageiros árabes, entre estes mulheres de burka. Olhares direcionados para elas eram de suspeita. Mais um atentado? Que mundo será este, pensei, que vivenciaremos? Vencerá o preconceito religioso?

Carl, o orador da Union Square, parecia, portanto, uma iluminação ou, realmente, o profeta.  Mas, é óbvio, nem todos a escutá-lo pensavam da mesma forma. Um senhor negro interveio: “Você gosta deste país?” Carl: “Justamente por gostar deste país gostaria que os americanos entendessem melhor os árabes”. Milhares de pessoas inocentes, emendou o doutorando de Stanford, “perderam suas vidas aqui nos Estados Unidos em decorrência dessa total falta de conhecimento do mundo”.  Fundamental, continuou, “é entender que essa é uma luta contra extremistas, não contra muçulmanos”. Segundo Carl, a política externa americana vinha, ao longo dos anos, “semeando esse ódio em relação a nós”, os americanos. Foram os EUA que apoiaram e treinaram Osama bin Laden.

As fotos dos desaparecidos no fatídico dia 11 de setembro estavam coladas nas “paredes de orações”. Velas por toda parte. Diariamente, a mulher, toda pintada de verde e vestida como a Estátua da Liberdade, continuava coletando doações para a Cruz Vermelha. Num momento de descontração, ela me disse: “É através da paz que chegaremos a um acordo”.  Será?

Almas em estado de choque rondavam o pequeno espaço da Union Square. O silêncio era ensurdecedor. Muitas dessas pessoas filmavam ou fotografavam as fotos perfiladas.

Debaixo da foto de um jovem sorridente, lia-se: “Você viu Paul Battaglia?” Paul, de 22 anos, “trabalha” para a firma Mash & McLennan, na segunda torre do World Trade Center, centésimo andar. Pouco adiante, a foto de uma bonita moça, Mary Lou Hague. Ela “trabalha” no WTC 2, 89º andar. “Se você a vir, telefone para Sarah.”

O herói da hora não foi, pelo menos num primeiro momento, George W. Bush, e sim Rudolph Giuliani, o então prefeito republicano da Big Apple. Giuliani apareceu praticamente em todas as redes de tevê. Mostrou compaixão, firmeza. A eleitora do Partido Democrata Julie du Brow, relações-públicas e então com 34 anos, ofereceu: “Hoje, eu votaria em Giuliani até para presidente”.

Bush, por sua vez, comportou-se mal no mínimo. Temeu pela própria existência. E assim evaporou-se durante longas dez horas no dia do ataque, enquanto a nação precisava de seu líder. Seu primeiro discurso, como de hábito, foi patético. Chamou os terroristas de folks, companheiros. Em entrevista à rede de teve NBC, a intelectual Fran Lebowitz, indagou se seria o caso de levar a sério um presidente que chama terroristas de companheiros.

No dia 14, quando Giuliani já havia falado com bombeiros e rodado Nova York inteira, Bush deu, três dias após a catástrofe, o ar da graça nos escombros do World Trade Center.  Começou seu discurso com a costumeira dificuldade de se exprimir. “Não estou escutando”, gritou um bombeiro. Bush, num raro momento de brilho, retrucou: “Mas eu estou te escutando. E o resto do mundo está te escutando. E as pessoas que destruí-ram esses arranha-céus vão nos escutar em breve”. A cena correu o mundo. Emocionados, bombeiros e paramédicos, em coro, a gritar: “USA, USA, USA”.

No dia 21 de setembro acompanhei um discurso de Bush em sessão extraordinária no Congresso. Naquele discurso, o presidente tornou-se mais beligerante. Entre outras tiradas de semelhante quilate, anunciou que usaria “todas as armas de guerra para esmagar o terrorismo” e o Taleban de Osama bin Laden. Bush o queria dead or alive. Os EUA, anunciou Bush, estavam numa cruzada contra “povos bárbaros”. Pouco poderia evocar lembranças piores ao mundo muçulmano do que as Cruzadas.

Mas não era esse o conflito pretendido por Bin Laden? “Em momentos de crise, os americanos são patriotas”, disse a CartaCapital Robert Shapiro, então diretor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Colúmbia-, em Nova York. Desta vez, acrescentou Shapiro, “esse patriotismo ganhou dimensões ainda maiores”.  Morreram mais de 6 mil pessoas, resumiu Shapiro. Foi o maior ataque terrorista em solo americano. Segundo pesquisa do New York Times/CBS, 75% dos americanos eram favoráveis a uma intervenção militar, mesmo que isso implicasse a morte de inocentes.

Logo, muitos mudaram de ideia. Numa de minhas caminhadas pelos escombros de Nova York, o pó das torres e outros edifícios a irritar as vias respiratórias e os olhos, encontrei Robert Jattan. Era dia 20 de setembro. Jattan, de 42 anos, queria filmar os escombros com a filha, Lindsay, de 7, “para que ela sinta de perto o que aconteceu”. Na escola, Lindsay ajudou a confeccionar bandeiras dos Estados Unidos e trajou, durante uma semana, roupas com as cores da bandeira americana. “Na verdade”, argumentou Jattan, “vir aqui faz parte de um processo de cura. Temos de perceber que, de fato, essa tragédia ocorreu.” Dono de uma pequena empresa de construção, Jattan estava preocupado com o futuro. “Somos -todos vulneráveis”, avaliou. Mas se -logo após os atentados Jattan queria lutar no Afeganistão, achava, na nossa conversa, que talvez outras soluções fossem mais adequadas. “O ódio não -resolverá o problema.”

De volta a Londres, o cientista político Michael Clarke, da Universidade de Londres, argumentou: “Bush precisa definir o que entende por guerra, e quem é seu inimigo”. Clarke indagava, ainda, se os ataques de 11 de setembro justificavam outras guerras. Por quê?, perguntei a  Clarke. Numerosos americanos não confiam em Bush? “Um dos motivos é a sua personalidade.” Em miú-dos, vários críticos viam-no como um personagem estranho, um ator em busca de um papel que não conseguia encarnar, o do herói. Pagamos até hoje por essa má atuação de Bush.

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