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Os israelenses enxergam no escuro

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 11/08/2011 09h09, última modificação 12/08/2011 11h28
País vive boa fase econômica, mas população se reúne cada vez mais para pedir justiça social. “Demita-se Netanyahu, o Egito está aqui”, dizem cartezes de protestantes

Cinco minutos de escuridão para buscar uma luz no fim do túnel. Os israelenses organizaram nesta quarta-feira 10 um blecaute voluntário às 21h (15h de Brasília) contra o aumento de 12% sobre o preço da energia elétrica. Na terça-feira, 200 pessoas marcharam com tochas acesas até a casa do premiê Benjamin Netanyahu, em Jerusalém, para protestar contra o incremento nas tarifas de eletricidade. “O povo toma as ruas à noite! Bibi (apelido do premiê), apague as luzes!”, exclamaram os manifestantes em uníssono.

O país de 63 anos e sete milhões de pessoas se levantou nas últimas três semanas contra o neoliberalismo. Seja na forma de acampamentos nas principais cidades do país, seja por meio de marchas ou boicotes, os israelenses decidiram dar um basta no modelo econômico seguido pelos governos da última década.

No último sábado, 300 mil pessoas marcharam sobre Tel Aviv para pedir melhores condições de vida para toda a população. Tratou-se de um número recorde na história dos protestos populares em Israel. “O povo quer justiça social”, foi o brado nas ruas, seguido de um show gratuito com os cantores mais famosos do país. “Demita-se Netanyahu, o Egito está aqui” era a frase de muitos cartazes. Outros, mais atrevidos, diziam “Bibi, tire sua mão da minha bunda” em referência à teoria do economista Adam Smith, que defendia que os mercados se regulam por si próprios, como se houvesse uma mão invisível.

A economia israelense nunca foi tão bem. Analistas esperam um crescimento de 4,8% em 2011. O desemprego é de apenas 5,7%, a inflação anual é de 2,6%, enquanto o salário mínimo é de US$ 1000 (cerca de R$ 1600). Mas os cidadãos não sentem a prosperidade no bolso ou na hora de fechar o mês. O aluguel sofreu um incremento de 50% nos últimos seis anos em Tel Aviv e 32% em Jerusalém. “Em Tel Aviv, alugar um quarto em um apartamento pode custar 3 mil shekels. Para quem tem família para sustentar é muito difícil. Os altos preços não condizem com os salários”, diz o comerciante autônomo, Nir Kabalali, à Carta Capital. “Para pagar um aluguel de 5 mil shekels (quase 2.500 reais) por mês, um casal precisaria ganhar líquido 15 mil shekels para gastar um terço do orçamento com aluguel e isso não é fácil em Israel”, analisa o especialista em mercado imobiliário, Ehud Hameiri, em entrevista ao jornal Haaretz.

A onda de indignação em Israel começou em junho pelo Facebook, quando os internautas organizaram um boicote contra o aumento de 70% sobre o preço do queijo cottage, preferência nacional no café-da-manhã. O assunto foi satirizado nos programas de humor, pois enquanto nos países árabes a luta era pelos valores democráticos, os israelenses reclamavam por um produto da cesta básica. No entanto, após a pressão popular as empresas reduziram em 30% os valores do cottage.

No início de julho, foi a vez da jovem Dafni Leef, 26 anos, protestar contra os preços exorbitantes dos alugueis ao montar a primeira barraca no elegante boulevard Rothschild --mesmo lugar onde o premiê trabalhista Davi Ben Gurion proclamou a existência do Estado de Israel em 1948. Depois, diferentes classes de trabalhadores -médicos, professores, taxistas e pais de alunos- aderiram à indignação coletiva para exigir melhores salários e mais apoio à educação, à saúde e ao sistema de transportes.

Em meio a tantos protestos, os deputados israelenses saíram de férias na semana passada depois de aprovar a lei do premiê, que promete acabar com a burocracia na hora de construir novas moradias, mas não determina que os empresários construam casas a preços populares. Nesta segunda-feira, depois da avalanche de israelenses nas ruas de Tel Aviv, os congressistas finalmente se deram conta que era hora de interromper o recesso de verão. Na próxima terça-feira eles retornam ao parlamento israelense (Knesset) para realizar uma sessão extraordinária. “Não é o momento de tirar férias”, declarou a oposicionista Tzipi Livni, líder do Kadima, partido de centro-direita, que até hoje não se diferenciava muito do Likud de Netanyahu em temas sócio-econômicos.

Na segunda-feira 8, Netanyahu recuou e admitiu que “sua visão sobre a política econômica em Israel precisa mudar” e formou um comitê com 15 ministros (metade do gabinete) e os economistas mais renomados do país para buscarem fórmulas para acabar com os protestos. No mesmo dia, os “acampados” distribuíram um folheto listando todas as demandas --entre elas que o governo adote um novo modelo econômico que privilegie o aspecto social-- e preparam uma marcha de um milhão de pessoas para 3 de setembro. Os israelenses veem além, ainda que se sintam no escuro.

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