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Oriente Médio

Os gritos não foram silenciados

por Wálter Maierovitch publicado 01/10/2011 18h34, última modificação 02/10/2011 12h09
A Primavera Árabe continua a produzir efeitos. Enquanto isso, Obama, Netanyahu, Mahmoud Abbas e o rei Abdullah se movimentam no cenário político do Oriente Médio

A  Primavera Árabe continua a produzir efeitos. Na recém-terminada assembleia da ONU, seus ventos e polens embaçaram o Palácio de Vidro, arquitetado para passar a imagem de transparência interna e exterior. Da sua tribuna, pode-se notar o presidente Barack Obama a usar artes de Procusto, aquele personagem da mitologia grega que dilacerava as suas vítimas para que coubessem num leito de morte.

Obama decaiu da promessa de fundação do Estado palestino no prazo de um ano, mantidas as fronteiras de 1967, e pode constatar ter o premier israelense, Benjamin Netanyahu, feito ouvidos de mercador às advertências para impedir assentamentos em terras palestinas. No particular, a Obama nunca faltaram informações dos 007 da CIA de que Netanyahu virou marionete do ultradireitista Avigdor Lieberman, fomentador de assentamentos e da apropriação total de Jerusalém. Lieberman é líder dos judeus russos que desembarcaram às pencas em Israel, virou ministro de Relações Exteriores e preside o partido Israel Beitenu (Israel Nossa Casa), que funciona no Parlamento como fiel da balança na manutenção de Netanyahu como premier.

Pela tribuna da ONU e sobre a questão palestina passaram personagens que empolgaram. Em 1974, e com o inseparável turbante árabe (kafieh), o falecido Yasser Arafat fez um discurso histórico a comover a opinião pública. Num fantástico golpe de cena, Arafat levantou um ramo de oliveira, símbolo da esperança, e pediu a todos os povos que o ajudassem a não deixá-lo cair. Ao mesmo tempo, encostava a mão livre no coldre de revólver amarrado à cintura, a revelar que lutaria até a morte pela causa palestina.

À época, Arafat contava com o apagado burocrata Mahmoud Abbas, apelidado Abu Mazen, como segundo na hierarquia. Não com as luzes de Arafat e sempre engravatado nos encontros internacionais, conseguiu Abbas sair vitorioso na assembleia deste setembro ao trocar a tutoria dos EUA pela parceria das Nações Unidas. Com a formulação do pedido de reconhecimento do Estado palestino, voltou a colocar a questão no centro das atenções. Mais ainda: reconquistou uma liderança que, apesar de recente acordo com o Hamas, estava em queda livre. Como consequência da nova geopolítica do mundo árabe, Abbas conquistou, na ONU e para a Palestina, um status de observador especial, exatamente igual ao do Vaticano. O sucesso de Abbas incomodou o premier de Israel, que reagiu da pior forma na terça-feira 27. Netanyahu deu sinal verde para novos assentamentos em Jerusalém Oriental, em mais um ato de apossamento de terras palestinas

Depois de assistir à vitória de Abbas e sentir os anseios libertários portados pela Primavera Árabe, foi a vez de o soberano saudita fazer promessas de mudanças, num país onde vigora a pena de morte. No fundo, o rei Abdullah bin Abdul Aziz al-Saúd, de 87 anos, no poder desde agosto de 2005, partiu para uma abertura enganosa. Prometeu reconhecer às mulheres maiores de 21 anos o direito de votar e ser votadas. Mas isso só em 2015. Portanto, as mulheres não participaram das eleições administrativas da quinta-feira 29. Como se sabe, na Arábia só existem eleições para cargos municipais.

Como 2015 ainda está longe, o soberano avisou que, a partir de 2013, escolherá mulheres para compor seu conselho consultivo, de 120 integrantes. Sobre as promessas, num país- onde a esposa é submetida ao poder marital, protestou, via internet, a ativista Iman al-Qahtani: “Não estou contente. Foi muito pouco anunciar que em três anos as mulheres poderão ser nomeadas para o conselho, o Majlis al-Shura, e que poderão votar e ser votadas nas eleições municipais daqui a quatro anos. E a proibição de dirigir veículos, sob pena de chibatadas impostas pela Justiça, e de viajar e trabalhar no exterior sem precisar de autorização do marido?” As reformistas querem igualdade de direitos, liberdade de expressão, uma assembleia eleita, reforma judiciária e liberdade para os presos políticos. Pelo seu lado, o soberano conforta-se com as pesquisas que apontam para uma maioria conservadora.

A maior fonte de preocupação de Abdullah não são as mulheres, mas a Al-Qaeda, ainda que sem o saudita Osama bin Laden. A Al-Qaeda fortaleceu-se quando o rei aceitou a presença de tropas norte-americanas para ajudar a manter a segurança nos poços petrolíferos: a CIA informava Abdullah sobre uma iminente invasão iraquiana por Saddam Hussein. Como o rei é responsável pela custódia dos lugares santos (Meca e Medina), a presença norte-americana foi vista como violação ao solo sagrado. Assim, a Al-Qaeda cresceu em importância e recebeu aporte financeiro de sauditas fundamentalistas.

Sobre proibir mulheres de dirigir veículos, Abdullah diz que novas regras virão com o tempo. Como ele é wahabita, poderia recordar que Aisha, dada como a esposa perfeita de Maomé, dirigia o camelo que servia ao marido.

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