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Os governos que a austeridade derrubou

por José Antonio Lima publicado 08/05/2012 09h37, última modificação 06/06/2015 18h59
Os povos europeus continuam a votar contra os planos de severidade econômica, mensagem que os políticos tradicionais insistem em desconsiderar
Grecia_Samaras

Alexis Tsipras, da coalizão de extrema-esquerda Syriza, se encontra com Antonis Samaras, líder do partido Nova Democracia, de centro-direita. Eles não chegaram a um acordo

No domingo, a França impediu a reeleição de Nicolas Sarkozy e confirmou o socialista François Hollande como novo presidente. No mesmo dia, a Grécia formou um novo parlamento no qual partidos de extrema-esquerda e extrema-direita têm representação importante. Em comum, os resultados obtidos por franceses e gregos carregam uma mensagem clara: as medidas de austeridade impostas pela União Europeia (UE), pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como forma de contornar a crise não são populares. A mensagem não é nova, mas os dirigentes europeus insistem em desconsiderá-la. Nos últimos três anos, a estratégia da Europa de passar a conta dos erros do passado recente para as populações não conseguiu debelar a crise e 12 governos em 11 países já caíram. É possível, provável até, que a austeridade continue em voga, mas ao observar a trajetória dos governos derrubados, fica claro que a instabilidade deve continuar, já que não há mudança na orientação das políticas econômicas.

A instabilidade provocada pela austeridade teve várias formas. Governos caíram pelo voto popular (França, Espanha, Reino Unido), por conta de protestos (Romênia) ou pelo simples rompimento de uma coalizão governista (Holanda). A instabilidade também atingiu as duas pontas da austeridade, afetando tanto os países obrigados a cortar gastos quanto os que tiveram de emprestar dinheiro para os resgates. A Romênia, segundo país mais pobre da União Europeia, viu dois primeiros-ministros caírem entre fevereiro e abril deste ano, ambos sob grandes protestos contra o FMI. Na outra ponta, Iveta Radicova aceitou, no fim do ano passado, deixar o posto de premiê da Eslováquia em troca da aprovação de um novo aporte do país ao fundo de resgate europeu.

A austeridade também conseguiu nublar o espectro político na Europa. Imposto como única forma de resgate, com apoio principalmente do governo de Angela Merkel, na Alemanha, o receituário de privatizações, redução de investimento, diminuição de salários e empregos no setor público foi adotado por governos de centro-esquerda e centro-direita. Irlanda e Portugal, por exemplo, viveram o momento mais agudo da crise juntos. Ambos com economias fracas, se viram diante de dívidas e déficits monstruosos e do risco de falência. A salvação para ambos foi o pacotão bilionário de empréstimos da chamada troika (BCE, UE e FMI). Em contrapartida, a exigência era de muitos cortes de gastos. Em janeiro de 2011, Brian Cowen, primeiro-ministro de centro-direita da Irlanda, caiu. Dois meses depois, o socialista José Sócrates, em Portugal, deixou o poder.

Na Espanha, os eleitores tentaram fazer o óbvio diante da crise, substituir o governo. Trocaram a centro-esquerda do Partido Socialista pela centro-direita do Partido Popular. Mariano Rajoy, do PP, chegou ao poder e está simplesmente aplicando o receituário da troika na Espanha.

A adoção de políticas iguais pelos "dois centros" (o de esquerda e o de direita) favoreceu a ascensão dos extremistas. A queda de Mark Rutte, até o mês passado primeiro-ministro da Holanda, é emblemática. Rutte desejava cortar 16 bilhões de euros do orçamento holandês, mas não obteve apoio em sua coalizão. O projeto foi rejeitado tanto pela extrema-direita quanto pelos socialistas. Situação parecida surgiu nas eleições da França e da Grécia. As extremas-esquerdas ("Partido da Esquerda" na França e "Syriza" na Grécia) e as extremas-direitas ("Frente Nacional" na França e "Amanhecer Dourado" na Grécia) conseguiram votações inéditas, ambas com a mesma plataforma: contra as medidas de austeridade e, no limite, contra a União Europeia.

Uma solução para este impasse pode estar nas mãos de François Hollande. O novo presidente da França promete defender nas conversas com a Alemanha de Merkel um plano capaz de unificar tanto os cortes em alguns setores como medidas para estimular a economia. Ele é a voz dissoante que diz tentar mudar a política econômica. Se isso não for feito, a instabilidade continuará acompanhando os europeus.

Confira abaixo a lista de governos que caíram durante a crise:

Islândia

Geir Haarde – janeiro de 2009 (governo de centro-direita em coalizão com social-democratas)
Haarde foi premiê da Islândia entre 2006 e 2009 e viu seu governo ruir a partir de outubro de 2008. Em apenas uma semana daquele mês, os três principais bancos do país (Kaupthing, Glitnir e Landsbanki) foram nacionalizados por conta de sua total incapacidade de rolar as enormes dívidas. A crise jogou a Islândia numa espiral de recessão que ainda não acabou. Haarde foi julgado por negligência na forma como tratou a crise e, em abril de 2012, num veredicto cheio de conotação política, foi considerado culpado por abordar pouco o tema da crise financeira nas reuniões de seu gabinete.

Reino Unido

Gordon Brown – maio de 2010 (governo de centro-esquerda)
O Partido Trabalhista estava no poder desde 1997 quando foi derrotado nas eleições gerais de maio de 2010 pelo Partido Conservador. Mesmo com o segundo lugar no pleito, Gordon Brown, que substituíra Tony Blair em 2007, teve a oportunidade de montar uma coalizão com o Partido Liberal-Democrata (terceiro colocado). A missão se provou impossível. Com sua popularidade em queda por conta de um escândalo de gastos parlamentares e sem conseguir conter os efeitos da crise econômica, Brown desistiu. O conservador David Cameron tomou seu lugar e conseguiu conciliar os interesses de seu partido com os liberais-democratas.

Irlanda

Brian Cowen – janeiro de 2011 (centro-direita)
Depois de um início de década com muita prosperidade, a Irlanda começou a afundar a partir de 2008. Naquele ano, a crise financeira e econômica deixou claro que a bonança do país era fruto de uma economia com fundamentos precários. Durante a tempestade, Brian Cowen assumiu o governo. Ele não conseguiu evitar os efeitos da crise e ainda assinou o pedido de resgate à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional. O resgate, que impunha uma série de medidas de austeridade ao país, passou a ser encarado como uma humilhação nacional pelos irlandeses. Em março de 2011, menos de três anos depois de assumir o cargo, Cowen saiu do poder como o primeiro-ministro menos popular da história da Irlanda.

Portugal

José Sócrates – março de 2011 (centro-esquerda)
Sócrates estava no poder desde 2005 e liderou Portugal no momento mais agudo da crise. A partir de 2010, o desemprego cresceu rapidamente, assim como o déficit público, e seu governo passou a adotar medidas de austeridade. Inicialmente, as medidas eram moderadas, mas depois que falência do país se aproximou, elas precisariam ser aprofundadas. Em março, diante desta perspectiva, o governo de Sócrates foi derrubado e ele passou a comandar um gabinete de transição. Neste cargo, Sócrates protagonizou um grande vexame. Em 4 de abril de 2011, negou categoricamente que Portugal pegaria um empréstimo bilionário com o FMI e a UE. Em 6 de abril, anunciou a tomada do empréstimo.

Eslováquia

Iveta Radicova – outubro de 2011 (centro-direita)
O partido de centro-direita de Radicova conseguiu liderar um governo de coalizão mesmo após receber apenas 15% dos votos nas eleições de junho de 2010 ao juntar sob seu comando quatro outras pequenas legendas. Radicova subiu ao poder pregando a redução de gastos por parte do governo e prometendo não aumentar os impostos. Seu governo caiu pouco mais de um ano depois, quando a Eslováquia precisou aprovar a ampliação de um fundo continental para resgatar economias que viessem a ter problemas. Sem conseguir fazer o plano avançar, Radicova aceitou deixar o poder em troca da posterior aprovação do texto.

Espanha

Jose Luiz Rodrigues Zapatero – dezembro de 2011 (centro-esquerda)
Líder do Partido Socialista, Zapatero foi eleito em 2004 e 2008 para comandar o governo espanhol. No início de seu segundo mandato, se notabilizou por negar a crise, utilizando termos como “estagnação” e “desaceleração acelerada”. Depois, passou a tentar colocar em prática medidas para conter a crise, e fez até uma reforma constitucional em 48 horas. Nada adiantou e a taxa de desemprego explodiu. Sob ataques pesados do Partido Popular (centro-direita), Zapatero dissolveu o Parlamento em setembro de 2011 e não conseguiu fazer seu sucessor.

Itália

Silvio Berlusconi – novembro de 2011 (direita)
O bilionário Berlusconi se envolveu em uma série de escândalos pessoais que abalaram sua imagem e também a de seu país. Mas o que derrubou Berlusconi foi sua falta de habilidade para lidar com a crise. Berlusconi deseja aplicar na Itália as medidas de austeridade pedidas pela UE e pelo FMI, mas não encontrava apoio. No início de novembro, encontrou a solução: em troca da aprovação de novas medidas de cortes de gastos, anunciou que deixaria o poder em favor de um governo de coalizão.

Grécia

Georges Papandreou – novembro de 2011 (centro-esquerda)
Papandreou assumiu o governo grego em outubro de 2009. Em seu primeiro grande ato, anunciou que a dívida pública e o déficit no orçamento eram muito maiores do que o governo anterior divulgara anteriormente. Papandreou, então, colocou em prática duras medidas de austeridade, incluindo a redução dos empregos públicos, a venda de estatais e aumento de impostos. As medidas, sozinhas, não tiveram efeito para conter a crise, e a Grécia, então, buscou empréstimos do FMI e do Banco Central Europeu. Em novembro de 2011, após acertar os detalhes do empréstimo, Papandreou anunciou de surpresa que submeteria o pacote de resgate a um referendo popular. Na semana seguinte, ele estava fora do cargo.

Romênia

Emil Boc – fevereiro de 2012 e Mihai Razvan Ungureanu – abril de 2012 (centro-direita)
A Romênia já está na segunda rodada de governos derrubados pela austeridade. O primeiro foi o de Emil Boc, que sucumbiu em fevereiro em meio a uma onda de protestos contra medidas como cortes de salários e aumento de impostos. Mihai Razvan Ungureanu substituiu Boc, mas não conseguiu completar três meses no cargo. Um novo premiê assumirá o comando do país até as eleições de novembro, mas sobram temores de que, diante das duras restrições impostas pelo FMI ao país, o próximo primeiro-ministro também terá dificuldades para se manter no cargo.

Holanda

Mark Rutte – abril de 2012 (centro-direita)
Em abril, o governo de Rutte caiu depois de apenas 558 dias de existência, se tornando o quarto mais curto da Holanda desde a Segunda Guerra Mundial. Rutte, que presidia uma coalizão frágil, caiu ao perder o apoio do Partido da Liberdade, do extremista de direita Geert Wilders. A divisão ocorreu nos debates a respeito do orçamento da Holanda para 2013. Rutte queria aprovar um plano que previa o corte de 16 bilhões de euros, mas Wilders e seu partido não aceitaram, alegando que isto prejudicaria a economia. Os socialistas também rejeitavam os cortes.

França

Nicolas Sarkozy – maio de 2012 (centro-direita)
O primeiro turno da eleição presidencial da França deixou clara a (falta de) popularidade das medidas de austeridade na Europa. Enquanto o presidente Nicolas Sarkozy (artífice, ao lado da Alemanha, da campanha pela austeridade) recebeu 27,2% dos votos, seus três principais rivais – François Hollande, Marine Le Pen, e Jean-Luc Mélenchon, todos contrários a essas políticas – receberam mais de 57% dos votos. No segundo turno, o país se dividiu em dois, mas Hollande foi eleito.

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