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Gianni Carta

Os cipriotas aguardam novo plano de resgate

por Gianni Carta publicado 20/03/2013 14h43, última modificação 06/06/2015 18h42
O povo rejeitou, com razão, um controverso pacote de taxas sobre depósitos bancários. Por Gianni Carta

A oferta de um plano de resgate de 10 bilhões de euros continua sobre a mesa, anunciou, nesta quarta-feira 20, a União Europeia. Enquanto isso, o presidente cipriota Nicos Anastasiadis, convocou uma reunião para examinar um plano B.

O clima é no mínimo dramático. Na terça-feira 19, o Parlamento cipriota finalmente rejeitou, após ter adiado uma votação no domingo, um controverso plano de resgate de forma maciça.

 

A troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeia, Fundo Monetário Internacional) e o Chipre haviam assinado, no sábado, um plano de resgate que previa taxas sobre depósitos bancários.

Eis o plano rejeitado: aqueles com até 100 mil euros no banco seriam taxados 6,75%, e o porcentual seria de 9,9% para correntistas com somas superiores, vários deles oligarcas russos.

Dessa maneira antidemocrática (para os menos endinheirados) seriam arrecadados 5,8 bilhões de euros, condição para a troika liberar créditos no valor de 10 bilhões de euros ao paraíso fiscal a integrar, desde 2008, a UE.

Segundo a troika, o Chipre precisa dos 10 bilhões de euros e de mais 7 bilhões de euros, que viriam de uma mescla dos impostos sobre depósitos bancários e mais medidas de austeridade.

É interessante anotar as reações do presidente conservador Anastasiadis, eleito em fevereiro. Uma vez assinado o plano de resgate, ele disse: “Foi a menos ruim das soluções, mesmo se ela foi muito dolorosa”. Rejeitado o plano da troika, o presidente cipriota concluiu: “Eles pensam que é injusto e contra os interesses do Chipre”.

Nenhum plano de resgate financeiro jamais rompera o tabu da garantia bancária. Nunca a União Europeia havia aventado a possibilidade de usar o dinheiro de correntistas para salvar países de crises financeiras.

Mesmo quando, às vésperas da votação Parlamentar, na terça-feira, a troika resolveu aceitar a proposta de exonerar aqueles com depósitos inferiores a 100 mil euros e cobrar taxas de 15% de correntistas com somas superiores (importante era angariar 5,8 bilhões de euros), a pressão sobre os parlamentares não arrefeceu.

Já na madrugada e na manhã de sábado, quando o acordo entre o Chipre e a troika foi assinado, o povo correu para sacar dinheiro dos caixas automáticos. Em vão. O valor do imposto já estava congelado.

Portanto, a ira do povo, enquanto não for assinado um novo pacote de resgate continuava até esta quarta-feira 20. O motivo: embora a troika jure que o plano de resgate, a incluir um imposto sobre depósitos, é único, o povo, que não é imbecil, se sente vulnerável.

E não somente os cipriotas, mas todos os europeus.

O precedente foi criado, e, portanto, espanhóis, portugueses e italianos podem ter o mesmo impulso de correr para os bancos para sacar dinheiro e colocá-lo debaixo do colchão.

Os bancos cipriotas continuam fechados. A Bolsa anunciou a suspensão de suas operações sabe-se lá até quando.

Enquanto isso, Michalis Sarris, o ministro cipriota das Finanças, está em Moscou. Objetivo: conseguir um empréstimo da Rússia.

Sarris tenta conseguir também uma extensão do crédito 2,5 bilhões de euros concedidos por Moscou a Nicósia em 2011 para 2016.

O presidente Vladimir Putin está preocupado com os investimentos de russos na pequena ilha do Mediterrâneo, estimados em 25 bilhões de dólares.

Antes da rejeição do resgate da troika, um comunicado do Kremlin declarou: “Esse resgate é injusto, não profissional e perigoso”.

É claro, os oligarcas russos estão lavando dinheiro no paraíso fiscal.

Mesmo assim, a questão é esta: a UE aceitaria um plano de resgate financeiro da ilha vindo da Rússia?

Provavelmente não.

A chanceler alemã, Angela Merkel, diz alto e claro: “Os contribuintes alemães não vão ajudar os oligarcas russos”.

Por essas e outras, Merkel apoia o radicalismo do FMI contra as reticências das autoridades europeias sobre o plano rejeitado (e futuros)

Ela tem razão em não querer ajudar os oligarcas russos. No entanto, somente agora os bancos alemães se inquietam com o fato de que Chipre é um paraíso fiscal.

A chanceler esquece que os bancos alemães emprestaram aos cipriotas cerca de 6 bilhões de euros, e, portanto, a Alemanha também ajudou a criar uma bolha bancária na ilha ensolarada.

Merkel e os bancos da Alemanha querem, mais do que salvar a Zona do Euro,  reaver o dinheiro deles.

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