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Alemanha

Os caçadores dos últimos criminosos nazistas

por Deutsche Welle publicado 01/11/2013 06h58
Após quase 70 anos do fim da Segunda Guerra, os últimos criminosos nazistas estão muito velhos. Ao persegui-los, as autoridades lutam contra o tempo
Giulio Menna / Flickr / Creative Commons
Auschwitz

O campo de concentração de Auschwitz, na Polônia

Quando se pergunta a Andreas Brendel se é legítimo levar uma pessoa de 92 anos às barras do tribunal, a resposta é sucinta: "Crime de morte não prescreve", e, na qualidade de promotor, ele é obrigado a investigar acusações de assassinato. A mídia costuma lhe fazer perguntas como essa – afinal, nos últimos dez anos ele tem levado à Justiça um nazista atrás do outro.

Brendel, que é diretor da Central para a Elucidação de Crimes Nazistas, em Dortmund, sempre responde com dois argumentos. Primeiro, do ponto de vista puramente jurídico. Depois vem o adendo: "Temos ainda as vítimas e as famílias das vítimas. Para elas, é muito importante que haja um processo penal na Alemanha e que a culpa dos criminosos seja constatada. Independente de se o veredicto virá a ser executado, mais tarde. É importante que os investigadores alemães levem em consideração o destino dessas pessoas."

Confiança nos investigadores

Já Stefan Willms é chefe de comissariado em Düsseldorf. Ele dirige a equipe de investigação de crimes nazistas no Departamento Estadual de Investigações, único órgão da Alemanha voltado exclusivamente para esse tipo de delito. Assim, Willms é o colega mais próximo de Brendel na luta contra esses crimes praticados, na maioria das vezes, há 70 anos ou mais.

Willms lembra-se de um caso na Itália, o assassinato de 60 homens. Um a um, foram levados para um porão e executados. Seus últimos minutos foram passados diante de uma montanha de corpos. Somente um jovem sobreviveu.

Depois de relatar o curso dos acontecimentos ao comissário-chefe alemão, esse sobrevivente o abraçou e lhe agradeceu. "Ele disse que havia esperado por mim quase 60 anos, e que estava muito grato por eu ter vindo", lembra-se o comissário. "Aí se percebe como isso é importante para as pessoas."

Sentado em seu escritório em Düsseldorf, usando calça jeans e camisa quadriculada, o cabelo castanho encaracolado, Willms tem algo de jovem rebelde, apesar de algumas mechas grisalhas. Atrás dele, vê-se um grande cartaz de exposição: A polícia no Estado nazista.

Ele afirma que o fato de ter nascido muito depois da guerra, em 1959, talvez o ajude nas investigações. As vítimas sabem que ele é jovem demais para que pudesse estar envolvido nas ações cruéis dos nazistas. Mesmo assim, "nota-se que, na condição de alemão, tem-se certa responsabilidade pelo que aconteceu". O fato é que ele nunca se sente à vontade nas investigações nos locais dos crimes.

Justiça atrasada?

De terno escuro, camisa e gravata branca, óculos de tartaruga, Andreas Brendel entra no prédio. O caso Siert Bruins está sendo julgado na sala do júri do Tribunal Regional de Hagen. Hoje com 92 anos, ele é acusado de participar do assassinato de um membro da resistência no porto holandês de Delfzijl, quando atuava no serviço de segurança e de fronteiras, em setembro de 1944.

Não há mais testemunhas vivas do crime. Assim, os participantes de um processo anterior contra Bruins estão sendo ouvidos. Brendel olha concentrado, anota, raramente faz uma pergunta adicional às testemunhas.

Nascido na Holanda, Bruins já esteve perante um tribunal em Dortmund em 1980. Na ocasião, o fuzilamento do combatente da resistência foi considerado homicídio culposo. Segundo ele, hoje em dia a questão da malevolência é muito importante, explicou Brendel. "A vítima sabia que ia morrer?", exemplifica. Segundo o promotor, essa questão é avaliada hoje de forma diferente do que na década de 1980. Por esse motivo, Bruins está novamente diante do tribunal.

A Justiça alemã foi particularmente branda durante décadas com criminosos de guerra nazistas? Brendel prefere não comentar, afirma ser uma questão que ele não se coloca – o que soa antes como uma saída pela tangente. Brendel tem outras coisas a fazer: ele quer que seja feita justiça, em vez de questionar por que isso não aconteceu antes.

Pouco tempo, muito a fazer

Brendel e Willms estão em contato durante todas as etapas. "Não passa uma semana sem nos falarmos ao telefone", diz Willms. "Nós nos encontramos pelo menos uma vez por mês." Eles se ajudam um ao outro, também psicologicamente. Afinal de contas, muitas vezes eles não leem nada além que detalhes de assassinatos terríveis, dias a fio. "Não é algo que você simplesmente esqueça numa gaveta."

E há também cartas iradas de protesto, que Brendel recebe de vez em quando, reclamando do fato de ele perseguir idosos. "Via de regra, eu as arquivo", comenta secamente. Mas uma vez recebeu ameaças graves, sua família foi mencionada. "Aí, para mim, acabou-se a brincadeira."

"Havia colegas aqui no escritório que não conseguiam lidar com isso", conta Willms, "então trocaram de cargo". Para os dois investigadores, porém, isso está fora de cogitação. Eles vão continuar, "provavelmente, até que o último criminoso nazista esteja morto", diz Brendel. "O tempo urge. Quando encontramos um criminoso, damos a maior prioridade".

Recentemente anunciou-se que a Alemanha está investigando 30 ex-guardas do campo de concentração de Auschwitz. Alguns dos dossiês foram enviados para Andreas Brendel e Stefan Willms. Eles ainda têm muito que fazer.

  • Autoria Sarah Judith Hofmann (ca)
  • Edição Augusto Valente

 

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