Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Os boinas vermelhas e a extrema-direita ameaçam a França

Internacional

Análise: Gianni Carta

Os boinas vermelhas e a extrema-direita ameaçam a França

por Gianni Carta publicado 19/11/2013 09h40, última modificação 20/11/2013 03h14
Impopular, o socialista François Hollande não consegue se opor aos movimentos multiformes por falta de um programa anti-crise. Por Gianni Carta, de Paris
Os boinas vermelhas e a extrema-direita ameaçam a república francesa

Jean-Marie Le Pen, o fundador da legenda de extrema-direita Frente Nacional a envergar uma boina vermelha em um recente programa televisivo

De Paris

Causou perplexidade a imagem de Jean-Marie Le Pen, o fundador da legenda de extrema-direita Frente Nacional a envergar uma boina vermelha em um recente programa televisivo. Sua filha, Marine, atual líder da FN, alerta sobre a iminência de uma revolução.

Revolução contra o presidente socialista François Hollande, atualmente a atravessar seu mais baixo nível de popularidade – de 24%.

Embora a história esteja pontuada por revoluções de direita e extrema-direita, na França os bonnets rouges, como é chamado o movimento de manifestantes com suas boinas vermelhas, são associados à esquerda. De fato, o principal porta-voz do movimento social aparentemente espontâneo, Christian Troadec, é o prefeito esquerdista de Carhaix, capital da Bretanha-Central.

Com origens greco-romanas, os bonnets rouges entraram em ação pela primeira vez na Bretanha em um protesto contra uma taxa colbertista em 1675 sob o rei Luís XIV. No período do Terror da Revolução Francesa de 1789, isto é entre 1793 e 1794, os bonnets-rouges voltaram a agir em nível nacional.

A recente violenta onda de protestos foi iniciada no final de outubro por agricultores e sindicalistas contra a ecotaxa, uma taxa ecológica sobre veículos pesados. Até agora fizeram seis manifestações, que, dado o estrago, custaram milhões de euros para o Estado.

Para a ira de Jean-Luc Mélenchon, líder do Parti de gauche, pequenos patrões de empresas agroalimentares e de transporte se agregaram aos bonnets rouges. E quando esses patrões motivaram seus empregados a protestar, um Mélenchon coberto de razão disparou: “São uns tolos a manifestar por seus patrões”.

Os sindicatos passaram para o lado de Mélenchon.

Multiforme o movimento sempre foi. Enquanto luta contra taxas, ecologistas, demissões, os bretões pedem, ao mesmo tempo, maior autonomia para a região. E há contradições: os bonnets rouges se dizem antijacobinos e ao mesmo tempo reclamam subvenções do Estado. Por tabela, os boinas vermelhas, nas palavras de Troadec, pedem “um fim ao dumping social da União Europeia”. Em miúdos, Troadec, um senhor parrudo de 47 anos, e seus seguidores também são antieuropeus.

Para o orgulho bretão de Troadec, aumenta a demanda de boinas vermelhas país afora. Bascos e alsacianos são os primeiros da fila. E Jean-Marie Le Pen. Também ganha amplidão a cacofonia de reivindicações.

Radares para monitorar a velocidade de veículos foram destruídos. Em Paris e outras grandes cidades ganharam peso manifestações contra os “ritmos escolares”, ou a reintrodução de aulas na quarta-feira no nível primário. Numerosos professores e opõe à reforma alegando que os alunos estão demasiado estressados. Ou será que esses professores não querem trabalhar?

Para piorar o quadro, o movimento dos bonnets rouges virou um saco de gatos. Além da Frente Nacional, outros grupos extremistas se agregaram. Isso ficou claro no dia 11 de novembro, quando François Hollande foi vaiado durante as comemorações do Armistício que marcou o fim da Primeira Guerra Mundial, nos Campos Elíseos.

Os 73 detidos pertenciam a grupos extremistas. A começar por David Van Hemerlyck, um dos líderes da chamada Primavera Francesa, uma emanação radical formada por opositores da lei favorável ao casamento homossexual.

Nem todos os católicos fundamentalistas e políticos de alto escalão do partido direitista considerado republicano, a União por um Movimento Popular (UMP), desaprovam os gritos dos jovens militantes: “Fora Hollande”.

Marine Le Pen tenta tomar distância dos grupos extremistas, embora esteja forjando elos com facções da UMP. Segundo a líder da FN, sua agremiação, a favorita às vésperas das eleições europeias, não é extremista visto que o debate entre direita e esquerda é coisa do passado.

Le Pen está enganada. Mais do que nunca a esquerda precisa estabelecer valores humanitários. Em meados de outubro, um representante da FN comparou Christiane Taubira, a ministra da Justiça responsável pela “lei Taubira” que aprovou o casamento gay, a um macaco.

O problema, me disse Mokhtar Ben Barka, professor de ciências políticas da Universidade de Valenciennes, “é que a esquerda perdeu sua voz”. Acrescenta Ben Barka: “E não consegue se impor contra movimentos heteróclitos como os bonnets rouges porque não apresenta um programa econômico para atenuar a crise econômica a assolar o país”.