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Os árabes também querem mudanças

por Edilson Adão Cândido da Silva — publicado 21/03/2011 16h46, última modificação 21/03/2011 16h46
Mobilizações populares no Magreb e Oriente Médio tocam na ferida das ditaduras opressivas. Plano de aula publicado na Carta na Escola 54

Mobilizações populares no Magreb e Oriente Médio tocam na ferida das ditaduras opressivas

Os recentes distúrbios nas regiões magrebina e do Vale do Nilo recolocaram o Oriente Médio e um neopan-arabismo (movimento em busca da unidade árabe, que teve início nos anos 1970) no centro da agenda internacional. Trata-se de um prato cheio aos professores de Geografia ou Geopolítica. À primeira vista, a compreensão do cenário é relativamente simples: cansados da opressão das ditaduras, em grande parte pró-Ocidente, os árabes ousaram desafiá-las. Na Tunísia, um movimento anárquico derrubou, com a ajuda da mobilização via internet, uma ditadura familiar que saqueava o país. A Argélia, que vive em permanente tensão desde 1992, quando o governo deu um autogolpe e suspendeu as eleições que dariam a vitória democrática aos islâmicos, assistiu a inúmeras manifestações populares contra o governo dos militares da Frente de Libertação Nacional (FLN), antigos heróis da independência. Mas, nesse caso, os argelinos não obtiveram o mesmo êxito que os tunisianos. Após os eventos na Tunísia, foi a vez do Egito explodir até o ditador Hosni Mubarak cair. No fim de fevereiro, forte convulsão na Líbia de Muammar Kaddafi, no poder desde 1969. A grande questão é: até onde pode ir a fúria árabe?

Análise em perspectiva exige trabalhar com cenários. Causas e consequên-cias nunca estão atreladas a um único fator. Caso se confirme uma nova Intifada (levante, em árabe) de proporções plurinacionais, além das mais inevitáveis consequências políticas de impacto mundial, no âmbito econômico o maior temor do Ocidente é que a revolta se alastre às monarquias do Golfo Pérsico, particularmente à Arabia Saudita, onde está boa parte das reservas de petróleo do planeta.

Tal qual Zine El-Abidine ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egito, o Estado saudita é governado de forma personalista e pelo mesmo clã há quase um século. O que esperar de um regime que leva o sobrenome familiar em seu nome oficial, a Arábia dos Saúd?

Nos anos 1920, Abdul Aziz ibn Saúd, o patriarca que teve mais de 50 filhos, deu forma de Estado aos arredores do oásis de Riad. A Primeira Guerra Mundial havia terminado e estava em curso a remontagem territorial do Oriente Médio após a dissolução otomana. Tal qual um lance de sorte, Abdul Aziz tomou a Península Arábica, que vinha sendo preparada para ser o reino de outro patriarca, o xerife de Meca, Hussein ibn Ali, da casa hashimita. Daquilo que seria o Reino de Hussein, resta hoje apenas a desolada Jordânia, cujo atual monarca, bisneto de Hussein, Abdullah, igualmente encontra-se com o trono questionado. A Arábia Saudita foi imediatamente reconhecida pela potência emergente, os Estados Unidos, e tornou-se o maior reduto petrolífero do mundo. Firmar-se-ia após a Segunda Guerra Mundial uma aliança incondicional entre Arábia Saudita e EUA.

Essa parceria desagrada à grande parcela da população wahabita – vertente islâmica hegemônica no país –, que não se beneficiou das riquezas do petróleo. Os inúmeros príncipes sauditas, suas fortunas pessoais ostentadas sem o mínimo pudor em contraste com a realidade social dessa nação, fomenta a indignação popular. Se a revolta árabe atingir Riad, pode ser o fim dos interesses capitalistas no Oriente Médio. Obviamente, a geopolítica estadunidense para a região é deveras competente e está atenta aos movimentos.

Os distúrbios do Egito
O clamor popular que pôs a sociedade egípcia contra o regime de Mubarak é mais embaraçoso do que parece. Não é um movimento organizado e a oposição não tem o controle sobre as massas, o que contribui para o prolongamento do caos. A crescente revolta árabe no Egito alcançou o sucesso em fevereiro. Mubarak tentou negociar uma saída honrosa e ficar no poder até setembro, quando deve haver eleições diretas, mas não deu. Mubarak acabou deposto pelas Forças Armadas que, com o apoio popular, prometem manter as eleições diretas.

Pelos mais variados motivos, o Egito é um país central à geopolítica do Oriente Médio. A começar pela sua localização entre o Magreb e o Mashreq (leste, no norte da África, e oeste, na Península Arábica, do mundo árabe, respectivamente), sua história de califados rebeldes ao poder central de Damasco e Bagdá. Nas relações internacionais contemporâneas, exerceu papel de mediação no principal distúrbio regional, o irreconciliável embate israelo-palestino. Essa postura “mediadora” do presidente egípcio, diga-se, foi um dos combustíveis da indignação dos árabes, ao seu ver, condescendente demais com o sionismo e a serviço do imperialismo ianque.

Causa estranheza notar que a mesma mídia que hoje condena o regime egípcio passou anos chamando Sad-dam Hussein de “ditador” do Iraque e Mubarak de “presidente” do Egito. A mudança semântica repentina é puro oportunismo. Como se sabe, o regime atual é apoiado pela Casa Branca desde sempre e qualquer observador percebe que as críticas agora desferidas por Hillary Clinton ao dirigente egípcio vão ao encontro da velha máxima “façamos a Revolução antes que o povo a faça”. Diga-se, aliança entre a grande potência e ditaduras não é fato novo naquele lugar. No próprio Oriente Médio, a CIA, a agência de inteligência norte-americana, foi a grande responsável pela derrubada do único regime democrático existente no Irã, o governo nacionalista de Mohammad Mossadegh, primeiro-ministro que nacionalizou as reservas petrolíferas e incomodou as grandes empresas internacionais. Após sua queda, o poder foi concentrado nas mãos do déspota, Reza Pahlevi, que cumpriu com maestria o papel de defensor dos interesses ocidentais no Golfo. Tal qual o Irã, a democracia norte-americana apoiou ou apoia outras monarquias totalitárias como a de Hussein, na Jordânia, os Saúd, na Arábia Saudita, ou os Al-Sabah, no Kuait.

A geopolítica interna do Egito é marcada por um interessante mosaico estratégico. Como “ponte geográfica”, o país encontra-se envolvido com o cenário regional do Oriente Médio e da África Setentrional. No conflito israelo-palestino, foi palco para encontros e assinaturas de pseudoacordos entre as partes envolvidas, como os que ocorreram nos balneários de Sharm el-Sheik e Taba. O Canal de Suez, construído no fim do século XIX e produto de discórdias entre a França e o Reino Unido à época, foi motivo de guerras e disputas, sendo o auge em 1956, com a Guerra de Suez. Apesar da atual obsolescência do canal, ainda é importante rota do petróleo mundial. Internamente, a sombra do fundamentalismo é problema antigo. Depois de assassinar o presidente Anuar Sadat, em 1981, o próprio Hosni Mubarak foi vítima de atentado do terror islâmico em 1995: escapou por pouco - seus guarda-costas morreram em seu lugar. Com o objetivo de afetar as finanças do país, os extremistas realizaram atentados contra turistas nas pirâmides nos anos 1990.

Al-Gamaa al-Islamiya, Jihad Islâmica e a tradicional Irmandade Islâmica (ou Fraternidade Muçulmana) são os mais importantes grupos. Os dois primeiros são fundamentalmente extremistas, enquanto o último tem uma longa trajetória política no Egito. Apesar da atuação parlamentar, a Irmandade, que sonha com um Estado islâmico, foi colocada na clandestinidade tanto por Nasser quanto por Mubarak. É tachada como grupo terrorista pelo governo, mas tem respaldo popular. Já recorreu a métodos terroristas, mas renunciou a esse propósito há alguns anos. Contudo, continua banida pelo governo. Nas eleições parlamentares de 2005, diante da ilegalidade, os candidatos da Irmandade infiltraram-se em partidos independentes e tiveram expressiva votação com o slogan O Islã é a Solução.

Outro aspecto importante da geopolítica egípcia diz respeito à permanente tensão na faixa de fronteira com o vizinho meridional, o Sudão, a quem o regime de Mubarak acusa de dar apoio ao terrorismo. As águas internacionais do Nilo igualmente tensionam as relações com o Sudão e a Etiópia, à montante (água acima) do rio. Em casos de disputas em águas internacionais, os países à jusante (água abaixo) são os mais prejudicados (situação do Egito), pois ficam sujeitos àquilo que os países do alto curso possam fazer. Os países próximos às nascentes – Quênia, Sudão e Etiópia – já manifestaram interesse em construir barragens, o que prejudicaria enormemente o Nilo em seu baixo curso, onde está o Egito, particularmente a agricultura e a usina hidrelétrica de Assuã. O país já anunciou que não hesitará em recorrer à força se isso se concretizar.

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