Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Ocidente precisa ser menos maniqueísta com o Irã

Internacional

Oriente Médio

Ocidente precisa ser menos maniqueísta com o Irã

por The Observer — publicado 27/06/2013 08h13, última modificação 27/06/2013 17h26
Bush e Blair viam o país em termos de preto e branco. Precisamos de um envolvimento diferente
Behrouz Mehri / AFP
Hassan Rouhani

Hassan Rouhani durante entrevista coletiva em 17 de junho

A eleição de Hassan Rouhani, um religioso de 64 anos, para a presidência da República Islâmica do Irã, deixa muitas pessoas em todo o mundo com mais perguntas que respostas.

Muitas dessas perguntas derivam da reação à eleição de 2009, quando a autenticidade do resultado - a vitória de Mahmoud Ahmadinejad - foi questionada. A rapidez com que saiu o anúncio na noite da eleição confirmou para muitos a ocorrência de irregularidades em grande escala. A "revolução verde" resultante provocou enormes protestos em todo o país durante seis meses. Quando a manifestante Neda Agha-Soltan foi morta por um miliciano armado e o vídeo foi publicado no YouTube, a narrativa da última eleição foi escrita. Sangrenta, polêmica e provavelmente ilegítima.

Por isso, não admira que se levantassem perguntas sobre a eleição da semana passada. No entanto, é fato que a república islâmica, embora não seja democrática, teve desde sua criação uma forma de governo representativa. Começou com um referendo, opera sob uma Constituição com eleições regulares para uma assembleia legislativa e para o cargo de presidente. Mesmo durante a guerra de oito anos com o Iraque, as eleições foram realizadas. Portanto, o Estado iraniano pode alegar sua legitimidade mediante formas de mandato popular. Dizer que o Irã não é uma ditadura regular não é sugerir que seja democrático. Pelos padrões democráticos, essas eleições não foram justas, já que impediram a participação de muitos candidatos.

A mão pesada do líder supremo foi sentida durante os procedimentos de veto antes da eleição, que mais pareceram uma pré-seleção. A comissão diretamente abaixo do líder supremo desqualificou os dois principais candidatos reformistas: o pragmático e hábil ex-presidente Rafsanjani e o mais radical Rahim Mashai, vice de Ahmadinejad e seu suposto sucessor.

O campo ficou livre para oito candidatos que, de início, pareciam quase indistinguíveis entre si – seis conservadores e dois reformistas moderados. As forças de oposição situadas fora do país ficaram deliciadas e a maioria dos observadores esperou um boicote maciço. Mas então algo estranho aconteceu e eletrizou a campanha. Uma série de debates ao vivo na TV instilou vida real na disputa, e surgiu um verdadeiro contraste não apenas entre reformistas e fundamentalistas, mas entre os próprios candidatos fundamentalistas.

Assuntos que normalmente são tabu foram discutidos abertamente. A má condução da economia por Ahmadinejad havia gerado uma inflação oficial de 30%, uma série de objetivos diplomáticos pessoais, um impasse com a comunidade internacional e sanções muito pesadas. Os debates na tevê aplicaram um duplo golpe no bloco conservador, expondo-o como entediante e dividido, e ajudaram a consolidar o voto dos reformistas atrás de um candidato. Os conservadores foram vistos como fraturados e arrogantes, enquanto os dois candidatos reformistas brilhavam e um deles, Mohammad Reza Aref, desistiu em favor de Rouhani.

Os 50 milhões de eleitores registrados do Irã tiveram de repente uma disputa real e reagiram com um comparecimento maciço. Rouhani obteve 18 milhões de votos, o triplo de seu rival mais próximo, o que o deixou com um mandato inatacável.

O novo presidente enfrenta desafios monumentais em casa e no exterior. A economia está em queda livre e as sanções estão tendo um efeito devastador no moral nacional, assim como em sua saúde e riqueza. As complicações de ter de trabalhar com um Parlamento dominado por inimigos e um líder supremo que ainda detém as principais alavancas do poder são ameaçadoras.

Mas Rouhani também cavalga uma onda maciça de apoio nacional e uma atmosfera benigna, ajudado em boa medida pela recente classificação do Irã para a Copa do Mundo de futebol. Se sua primeira entrevista coletiva servir de guia, ele tem mais boas notícias a dar, comprometendo-se a liberalizar a imprensa, levantar as restrições aos sindicatos e tentar encontrar um compromisso sobre a questão nuclear. Há até sugestões de que ele pressionará pela libertação de Mousavi, Karoubi e outros líderes do movimento verde.

Para os governos Bush e Blair, era fácil pintar o Irã com as cores do bem e do mal. O que precisamos agora é de um engajamento mais matizado, sofisticado e informado, se quisermos ajudar o novo presidente iraniano a ajudar a si mesmo e a sua população e salvar o mundo de mais uma guerra inútil e mortífera.

registrado em: