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Oceano Pacífico: mais complexo do que se esperava

por Paulo Yokota — publicado 08/05/2014 11h33
Muitos obstáculos nas negociações mostram a complexidade de entendimentos entre Estados Unidos, Japão, China e outros países asiáticos
AFP PHOTO / NOEL CELIS
Obama é recebido com protestos nas Filipinas

Nas Filipinas, manifestantes queimaram uma imagem do presidente dos EUA, depois que ele desembarcou para consolidar novos laços de defesa em um cenário de tensões territoriais entre aliados dos Estados Unidos e China

As análises geopolíticas no mundo estão mais complexas do que as considerações preliminares sugeriam. O enfraquecimento relativo da economia e da política liderada no mundo pelos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial já mostrava a saturação da situação vigente. E o fracasso das intervenções militares norte-americanas no Oriente Médio indicou claramente a necessidade de fortalecer suas alianças no Pacífico para fazer frente ao crescimento econômico, político e militar da China.

Agora a situação fica mais complicada nesta região do mundo com a intervenção aguda da Rússia na Ucrânia, com consequências sobre os antigos membros da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Tudo isto ocorre num cenário econômico internacional que, apesar dos primeiros indícios de recuperação, mostra um ritmo de melhoria ainda modesto exigindo um longo período para a sua consolidação.

Uma das políticas norte-americanas para os doze países do Pacífico, inclusive latino americanos, seria o chamado TransPacific Partnership, cujos entendimentos preliminares se mostravam promissores, pois fortaleciam o intercâmbio comercial naquela bacia, ajudando a respaldar também a aliança militar. Necessitaria do aporte de recursos dos países mais ricos da região, notadamente do Japão e da Austrália para ajudar os Estados Unidos.

No entanto, os muitos obstáculos que vêm sendo apontados nestas negociações mostram a extrema complexidade de entendimentos desta natureza sem que muitos outros assuntos também sejam resolvidos. Vários artigos de elevada qualidade estão sendo publicados sobre o assunto nos mais variados e respeitados meios de comunicação social de influência internacional.

Recentemente o jornal The Japan Times reproduziu um artigo elaborado por Kevin P. Gallagher, professor de relações internacionais da Universidade de Boston, originalmente divulgado pelo The Globalist, mostrando que o insuspeito Peterson Institute for International Economics chegou à conclusão que as vantagens adicionais para os participantes do TPP seriam somente de 0,3% no produto em 2025. Insignificante sem que o setor financeiro, que provocou a crise mundial depois de 2007/2008 fosse regulamentado em termos mundiais no que tange a algumas de suas ações, notadamente nos exagerados fluxos financeiros. As resistências das instituições financeiras criam dificuldades para muitos países.

Num outro artigo, Koichi Hamada, professor de Economia na Universidade de Yale, emérito da Universidade de Tóquio e conselheiro econômico especial do Primeiro Ministro Shinzo Abe, publicado no respeitado Project Syndicate, informa a esperada reação chinesa e coreana sobre algumas atitudes nacionalistas dos dirigentes japoneses. Questões relacionadas com os lamentáveis acontecimentos que ocorreram durante a Guerra acirraram as  reações coreanas e chinesas, dificultando as disputas territoriais atuais.

Contrapondo-se aparentemente aos interesses japoneses não esperavam que tais assuntos asiáticos encontrassem também o respaldo tão forte de Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos. Isto leva a uma posição de cautela de todos sem saber claramente qual a atual política externa norte-americana, num país onde as opiniões estão bastante divididas e com algumas manifestações públicas contraditórias de diferentes autoridades.

De outro lado, constatando estas dificuldades, autoridades chinesas aproveitam a oportunidade e começam a contrapor o TPP com o estudo de viabilidade econômica do Asian-Pacific Free Trade Agreement, notadamente para o Asia Pacific Economic Cooperation, fórum que a China hospedará neste mês de maio. Todos sabem que os chineses estão fortemente presentes no Sudeste Asiático com a diáspora de sua população, com fortes vinculações comerciais e financeiras que lhes interessam, quando também enfrentam grandes reformas para ajustar sua economia ao novo cenário internacional.

Ninguém pode ser ingênuo para pensar que políticas amplas desta natureza possam ser acordadas coletivamente por diversos países de forma simples e muito rapidamente. Mas, diante das claras demonstrações que pouco consenso pode ser atingido nos fóruns internacionais, considerando os diversos e graves problemas que atingem a todos, seria de se esperar que a diplomacia dos países com mais tradição se concentrassem em medidas pragmáticas de focos definidos, onde as oportunidades de entendimento fossem mais plausíveis. Mas, ainda não há indícios de atuações nesta direção.

Apesar da existência de muitos estudos de envergadura dos mais variados problemas que estão sendo enfrentados vemos dificuldades que propostas operacionais sejam postas nas mesas de negociações. Acaba restando a impressão da predominância de um lamentável marasmo para todos que se preocupam com estes assuntos.

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