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Obama x Romney: Cabeça a cabeça até o fim

por Redação Carta Capital — publicado 19/10/2012 12h44, última modificação 19/10/2012 12h46
O republicado lidera as pesquisas do voto popular. O atual presidente está à frente nos maiores colégios eleitorais. Confira o quadro
US-VOTE-2012-DEBATE

Após uma participação apagada no último debate, Barack Obama foi superior a Mitt Romney na terça. Há quem diga que foi o melhor debate da história do atual presidente. Foto: AFP

Eduardo Graça, de Nova York

 

A imagem foi cunhada, ao fim do segundo debate entre Barack Obama e  Mitt Romney, na terça-feira, em Long Island, pelo senador Richard Durbin, um dos líderes da ala liberal do Partido Democrata e dos primeiros a convencer seu colega de Illinois a sair candidato à presidência em 2008: “Esta eleição está se parecendo cada vez mais com a de 2000. Vai ser disputada voto a voto, até o último minuto”. Há doze anos George W.Bush se instalou na Casa Branca depois de uma confusa recontagem de votos na Flórida e o aval da Suprema Corte. Seu adversário, Al Gore, vitorioso no voto popular, até hoje acredita ter sido garfado pela máquina estadual republicana no estado sulista, cujo governador era Jeb Bush, irmão do futuro presidente. A ironia no paralelo traçado por Durbin é que agora os democratas podem se ver na situação oposta: à frente no colégio eleitoral e atrás no voto popular no que já se desenha como uma das mais apertadas eleições da história dos EUA.

De acordo com o respeitado amealhador de pesquisas Real Clear Politics (ver quadro ao abaixo), se as eleições fossem realizadas no momento em que este texto era finalizado, Mitt Romney teria mais votos nas urnas do que Barack Obama. O presidente, no entanto, venceria a disputa no Colégio Eleitoral, por concentrar seus apoiadores nos estados mais populosos, com mais delegados. Os números andam tão próximos que começaram a pipocar na imprensa textos explicativos sobre a saída constitucional no caso de um empate no colégio eleitoral. Se cada candidato angariar 269 delegados, cenário improvável mas não impossível, a regra é clara: vence quem tiver maioria na Câmara dos Representantes, já que, simbolicamente, são os deputados que confirmam os votos de cada distrito eleitoral. Neste caso, os republicanos levariam a melhor, pois não devem perder a maioria na casa.

 

“Se você tirasse o som em sua televisão e olhasse apenas os movimentos de corpo de Romney e Obama no debate poderia pensar que estava vendo uma estranha apresentação de capoeira”, disse Rachel Maddow, a apresentadora mais popular do canal de notícias MSNBC. Em um debate marcado pelo desrespeito às regras estabelecidas, que não previam enfrentamento direto entre os dois candidatos, nem perguntas da moderadora, Obama voltou à forma e desconstruiu seu oponente, apresentado-o como um político mais perigoso do que George W. Bush. O encontro realizado na Universidade de Hofstra, localizada em um dos mais ricos subúrbios dos EUA, teve o formato ‘town hall’, em que os candidatos podem se movimentar livremente pelo palco e respondem a questionamentos de eleitores locais, ainda indecisos.

Uma das melhores perguntas da noite foi feita por Susan Katz. Ela se disse desapontada com a economia nos últimos quatro anos, mas ao mesmo tempo cautelosa em apoiar a oposição por conta da última administração republicana, “responsável direta pela maior parte de nossos problemas econômicos e diplomáticos”. Katz queria saber quais as principais diferenças entre um governo Romney e a Era Bush. O ex-governador de Massachusetts, apoiado ainda durante as primárias republicanas por toda a família Bush, não se esquivou da resposta, dizendo “ser uma pessoa diferente em tempos diferentes”. Ele afirmou que os EUA não precisam mais buscar um reservatório de energia na Oriente Médio (em uma critica velada à ocupação do Iraque), apontou para um aumento ‘dramático’ na parceria com a América Latina, centrando esforços no estabelecimento de tratados de livre-comércio com as principais economias da região e também afirmou que, ao contrário de Bush, combaterá duramente a política monetária de Pequim e reduzirá o déficit fiscal do país, ampliado nos anos de ouro do neo-conservadorismo a fim de financiar as invasões militares do Afeganistão e do Iraque.

A reação de Barack Obama? “O plano econômico de Romney é centrado no corte de impostos para os mais ricos, o mesmo modelo de Bush, que nos levou para a crise. Quando ele fala da China, você precisa se lembrar que ele é um investidor destacado em empresas pioneiras em levar postos de trabalho dos EUA para as fábricas chinesas. Neste exato momento ele investe em empresas especializadas na vigilância de cidadãos chineses, contra a vontade destes, por Pequim. Governador, o senhor é a última pessoa do mundo indicada para falar duro com a China!”, disse, virando-se para o republicano, antes de continuar: “Mas há sim, aspectos em que Romney é diferente de Bush. Bush nunca tentou reduzir os benefícios à saúde pública para os idosos, subvencionadas pelo governo. Ele jamais propôs aos imigrantes não-documentados que se alistem em um programa de auto-deportação. Ele jamais sugeriu corte de fundos para o Planned Parenthood, um programa importante para as mulheres não apenas no que diz respeito à contracepção, mas por oferecer exames preventivos como os de mama. Quando se trata de programas sociais, Romney é muito mais extremista do que George W.Bush”, disse o presidente.

Romney reagiu questionando o presidente sobre seus investimentos pessoais e o interrompeu subitamente no meio de uma pergunta sobre outro tema: “O senhor tem investimentos em empresas que levaram empregos para a China? Em seu fundo de previdência privada? Responda!”. Obama se esquivou, dizendo não olhar com a mesma freqüência que Romney para uma aplicação certamente bem menor do que a similar no caso do milionário republicano. A briga esquentou novamente quando Romney respondeu de forma surpreendentemente tímida a uma das perguntas mais aguardadas da noite, sobre a resposta da administração Obama ao ataque do último dia 11 de setembro ao consulado americano em Benghazi, na Libia, resultando na morte do embaixador dos EUA no país. Washington não perde um funcionário do primeiro escalão da Secretaria de Estado em um ataque armado desde a crise dos reféns no Irã durante o governo Carter e pouco antes do debate a secertária Hillary Clinton deu uma entrevista à rede CNN se responsabilizando por ‘qualquer falha’ de segurança no caso.

Obama assumiu a responsabilidade pela segurança de funcionários do serviço diplomático americano no exterior mas criticou o uso político do fato pelo republicano, que convocou uma coletiva de imprensa condenando a política externa democrata para o Oriente Médio antes mesmo de saber se o embaixador corria risco de vida, na noite do ataque, um dia simbólico para os americanos por conta dos ataques terroristas de 2001. “Não foi uma atitude digna de um comandante-em-chefe”, disse.

Romney reagiu, afirmando que o presidente passara o dia seguinte ao ataque em uma reunião para angariar fundos de campanha no estado de Nevada, um dos mais decisivos para a eleição. Obama, as feições rijas, claramente contrariado, lembrou que no dia seguinte, ao lado da Secretária de Estado Hillary Clinton, comandara, na verdade, uma cerimônia oficial honrando as vítimas do ataque na Líbia: “A sugestão de que qualquer membro da minha administração, seja a Secretária de Estado, seja a Embaixadora dos EUA na ONU, estava fazendo política ou enganava o público americano, no momento em que perdíamos quatro profissionais de nosso time, é ofensivo”. Romney disse então que Obama demorara duas semanas para considerar o ataque era um ato de terror. A mediadora, a veterana Candy Crowley, da CNN, teve de corrigi-lo em um dos momentos mais desconfortáveis para o ex-governador, lembrando que o presidente, de fato, dissera, na mesma cerimônia oficial, que os EUA reagiriam de forma dura a ‘qualquer ato de terror’.

O desconforto de Romney com temas relacionados à política externa – suas gafes durante a visita à Grã-Bretanha, Polônia e Israel como candidato ungido pelos republicanos entraram para o anedotário político americano – preocupa os republicanos na reta final da campanha. Os candidatos voltam a se encontrar nesta segunda-feira na Flórida, no derradeiro debate, centrado justamente em questões de política externa. Até lá os dois seguem atentos à intenção de votos de grupos com potencial para decidir a disputa: mulheres, eleitores de origem latino-americana e trabalhadores caucasianos. Em uma eleição cujo número de indecisos não chega, a esta altura, de acordo com os institutos de pesquisa, a 6%, o caminho da consagração passa por um esforço de convencimento da militância a ir às urnas, já que o voto não é obrigatório nos EUA e a eleição cai num dia de semana sem ponto facultativo.

As pesquisas indicam Obama bem atrás entre os homens, mas o presidente ainda compensa a desvantagem com a frente significativa – embora em queda –  aberta entre as mulheres. Hispânicos e negros se manifestam em peso a favor do democrata, porém, social e historicamente, estes são justamente dois dos grupos mais propensos a ficar em casa no próximo dia 6. E os trabalhadores brancos, um quinhão estratégico, concentrado em estados decisivos, como Ohio, Pensilvânia e Wisconsin, migraram em peso para Ronald Reagan nos anos 80 e apoiaram Hillary Clinton contra Obama há quatro anos nas primárias democratas. O crescimento de Romney nas pesquisas desde o primeiro debate foi ainda mais substancial nos dois últimos estados, com a disputa virtualmente empatada em Wisconsin, terra do candidato a vice na chapa republicano, o deputado ultra-conservador Paul Ryan. Na Pensilvânia, a diminuição pela metade da vantagem de Obama nas pesquisas há duas semanas das eleições acendeu o sinal vermelho no quartel-general da campanha democrata, cada vez mais preparada para uma batalha tão dura quanto a de 2000.

 

QUADRO 

Voto Popular EUA

Romney 47.4%; Obama - 46,9%

Colegio Eleitoral EUA

Pró-Obama 201 Pró-Romney - 191, Em Disputa -  146
(270 necessários para a vitória)

Estados Decisivos (votos no colégio eleitoral)

Florida (29) - Romney - 49.3%, Obama - 46.8%
Pensilvânia (20) - Obama - 49.7%, Romney - 44,7%
Ohio (18) - Obama 48.3%, Romney - 45.9%
Michigan (16) - Obama - 48,8%, Romney - 44.4%
Carolina do Norte (15) - Romney - 50%, Obama - 45,3%
Virgínia (13) - Obama - 48,4%, Romney - 47,6%
Wisconsin (10) - Obama - 49.8%, Romney - 47.8%
Colorado (9) - Romney - 48%, Obama - 47,3%
Iowa (6) - Obama - 48,8%, Romney - 46.5%
Nevada (6) - Obama - 49%, Romney - 46%
Nova Hempshire (4) - Obama - 48.3%, Romney - 47.5%

Senado

Pró-Democratas - 45, Pró-republicanos - 43, Em Disputa - 12
(51 necessários para maioria)

Câmara dos Representantes

Pró-Republicanos - 226, Pró-Democratas - 183, Em Disputa - 26
(218 necessários para maioria)