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Obama e republicanos não chegam a acordo sobre plano de limite da dívida

por Eduardo Graça — publicado 10/10/2013 21h46, última modificação 11/10/2013 00h20
Oposição concorda em sentar-se à mesa com os democratas para tratar da nova política fiscal, mas pré-acordo entre governo e a liderança republicana ainda parece longe
Win McNamee/ Getty Images/ AFP
John Boehner

O deputado John Boehner, comandante da Casa dos Representantes, após reunião com administração Obama

De Nova York

Uma hora e meia de conversas na Casa Branca e nenhum resultado. Depois de os mercados fecharem com ganhos recordes por conta do anúncio, na manhã desta quinta-feira 10, pelo deputado John Boehner, comandante da Casa dos Representantes, de que os republicanos estavam dispostos a passar legislação já na sexta-feira 11, estendendo o limite do teto da dívida pública de 16,7 trilhões de dólares, mas apenas por seis semanas (até o dia 22 de novembro), o presidente Obama recusou acordo ancorado no que o governo percebeu, a grosso modo, como um ‘empurrar o problema com a barriga’.

O termo, chulo, é, no entanto, o que melhor descreve a única proposta concreta vinda da direita - depois de dez dias de paralisação do governo federal pela recusa da oposição em aprovar um novo orçamento - para evitar a decretação de uma histórica moratória no próximo dia 17 na maior economia do planeta. Os republicanos seguiram reunidos em Capitol Hill a fim de elaborar uma nova proposta, e os dois lados concordaram em seguir as conversas durante as próximas horas. "As negociações estão abertas", afirmou o deputado Paul Ryan, comandante da poderosa Comissão de Orçamento da Câmara Baixa do Legislativo e candidato derrotado à vice-presidência pelo Partido Republicano no ano passado na chapa de Mitt Romney.

A proposta, levada à Casa Branca por 20 deputados republicanos, incluía cortes de programas sociais federais, redução de impostos, e não incluía avanços na querela em torno da reabertura do governo: os republicanos seguem decididos em recusar a aprovação de qualquer financiamento público à reforma do sistema de Saúde, o chamado Obamacare, mais significativa ação de política interna da administração Barack Obama, em vigor a partir do próximo ano fiscal. Angustiados com a previsão, pela própria Secretaria do Tesouro, de risco de novo ciclo recessivo nos EUA, com grave possibilidade de contaminação mundial, no caso de o calote da dívida americana se provar inevitável, os mercados locais fecharam todos em alta na quinta-feira, surfando na onda da expectativa de progresso nas conversas entre democratas e republicanos. O cenário ficou bem mais feio para a sexta-feira.

O mercado já havia reagido com otimismo, na quarta-feira 9, por conta da escolha de Janet Yellen para o comando do Federal Reserve (Fed), o Banco Central americano. “Trata-se de uma das decisões mais importantes de minha presidência”, afirmou Obama, em cerimônia na Casa Branca, equiparando-a à de um ministro da Suprema Corte. A indicação, que deve ser facilmente aprovada pelo Senado, de maioria governista, foi de fato histórica. A economista de 67 anos será a primeira mulher a dar as cartas na política monetária dos EUA. E ainda irá encerrar um hiato de um quarto de século sem um democrata na presidência do Fed.

Afinada com a ala liberal do Partido Democrata, Yellen é defensora de uma maior regulamentação do setor financeiro e especialmente interessada na elaboração de políticas de combate ao desemprego. Mas a maior parte dos analistas acredita que a atual número 2 do Fed também aposta em uma manutenção de médio a longo prazo do estímulo monetário mensal de US$ 85 bilhões. Eles traduziram sua já esperada unção como uma aposta na continuidade da gestão Ben Bernanke, uma ilha de certeza no turbulento oceano político-econômico da disputa entre Obama e o Tea Party.

Aprovação. A lenta, porém constante, recuperação da economia americana, no entanto, segue ameaçada pela radicalização da oposição em Capitol Hill. O fracassado movimento de aproximação cuidadosa de Boehner, não por acaso, se deu um dia depois de o Gallup registrar o menor índice de aprovação do Partido Republicano - 28% - pelos eleitores americanos desde a primeira série de entrevistas focadas no apoio popular aos dois principais partidos políticos, iniciada em 1992.

Imediatamente após a divulgação da pesquisa, o Partido Democrata e o grupo Organizing for Action iniciaram a campanha “17 Cadeiras”, voltada para a arrecadação de fundos com objetivo de retomar o controle da Câmara Baixa do Legislativo. “Temos uma vantagem de 17 cadeiras nas consultas para as eleições legislativas do ano que vem, o que nos daria uma maioria simples, 218 a 217, tiraria o emprego de Boehner e daria apoio decisivo à agenda do presidente Obama. Ajude-nos a manter este momento político até 2014”, diz a mensagem digital disparada para milhares de simpatizantes e reproduzida nas principais redes sociais. Os democratas pedem uma contribuição individual de 3 dólares para cada cidadão revoltado com a estratégia republicana de, segundo eles, “fazer de refém o governo eleito pela maioria da população”.

No entanto, para além dos danos à economia americana, a paralisação do governo também tem se provado especialmente danosa para o legado do presidente Obama. O jornalista Bob Woodward, um dos responsáveis pelas lendárias reportagens no Washington Post que destrincharam o escândalo Watergate e levaram à renúncia do republicano Richard Nixon, afirmou nesta quinta-feira 10 à CNN que o presidente vive um ‘momento salomônico’, e que precisa encontrar uma saída de fato justa para a crise ou correr o risco de ter seu mandato marcado por uma derrocada econômica de proporções históricas. A mesma pesquisa Gallup, afinal, aponta que apenas 43% dos americanos aprovam o governo Obama.

Não vai ser fácil. Senadores e deputados democratas não admitem iniciar qualquer negociação com os republicanos sem que a reabertura total do governo seja colocada na mesa, o que certamente pesou na decisão de Obama de dizer não à proposta de Boehner. “Deixem o governo funcionar, deixe-nos pagar nossas contas, e discutiremos sobre tudo o que eles quiserem. Mas se eles pensam que vai haver algum acerto com o governo fechado, estão muito enganados”, avisou o líder da maioria no Senado, Harry Reid. Até mesmo alguns de seus colegas republicanos na Câmara Alta, incluindo o líder da minoria, Mitch McConnell, concordavam em não ver “razão alguma para se estender o problema por mais seis semanas”. O deputado democrata Xavier Becerra, um dos líderes do partido na Casa dos Representantes, por sua vez, afirmou que a proposta de Boehner era digna de uma ‘república de bananas’.

Ainda assim, é impossível não se dizer ‘feliz’ - a reação inicial da Casa Branca, de acordo com o porta-voz do governo - com o fato de, pela primeira vez, desde abril, a oposição concordar em sentar-se à mesa com os democratas para tratar da definição de uma nova política fiscal para os EUA. Mas um pré-acordo entre a administração Obama e a liderança republicana na Casa dos Representantes, que poderia marcar o início do fim da pior crise política dos EUA em duas décadas, ainda parece longe da realidade.

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