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A direita radical britânica se assusta

por The Observer — publicado 22/05/2014 04h44, última modificação 22/05/2014 05h03
Parece que grandes partes da sociedade britânica não sabem mais discutir, e a supressão é sua posição padrão. Por The Observer
Divulgação
Nigel Farage

Nigel Farage, o líder do Ukip. A intolerância está virando regra no debate público do Reino Unido

Por Nick Cohen

 

A "correção política" é uma ideologia traiçoeira, que pode virá-lo de ponta-cabeça. Eu evito o termo quando posso, porque tem um duplo sentido. De um lado, descreve uma campanha liberal e, a meu ver, admirável para convencer as instituições e a população como um todo a tratar as pessoas de modo igual, independentemente de gênero, cor ou orientação sexual. Como todas as campanhas em democracias, ela só pode vencer vencendo as discussões.

Mas correção política tornou-se uma expressão desprezada porque também significa silenciar as discussões. Os liberais autoritários, uma descrição que um dia teria sido paradoxal, ultrapassaram o limite que permitia que a lei punisse o discurso apenas se inspirasse diretamente a violência – um orador racista instando uma multidão a atacar uma mesquita, um fanático religioso pedindo o assassinato de gays.

Em vez de se envolver em uma discussão irrestrita contra adversários que não ameaçam violência, eles exigem que a polícia os prenda, que as universidades os expulsem ou que os empregadores os demitam, como aconteceu com um cristão, Adrian Smith, que, depois de publicar sua oposição ao casamento gay, foi demitido pela Trafford Housing Trust.

Matthew Goodwin, coautor de um estudo recente sobre o Ukip [partido de extrema-direita do Reino Unido], disse que a direita radical estava triunfando porque podia passar como um porta-voz honesto das preocupações populares. Quarenta por cento dos eleitores da classe trabalhadora pensavam que não tinham representação na política, disse ele, número que deveria aterrorizar a esquerda britânica. Eles viam [Nigel] Farage [líder do Ukip] como um libertador porque permitia que as pessoas falassem o que sentiam.

Ou algumas pessoas. No fim de semana passado, a polícia de Cambridge enviou dois policiais à casa de Michael Abberton para acusá-lo de publicar um tuíte politicamente incorreto. Depois de pensar que o Home Office [Ministério do Interior] não havia cortado o suficiente o orçamento da câmara de vereadores de Cambridgeshire, se ela podia gastar dinheiro público para assediar cidadãos livres, respirei fundo e me perguntei que "crime" Abberton teria cometido. Homofobia real ou imaginária, racismo ou sexismo, que não havia prejudicado ninguém? Tinha de ser um dos anteriores. Não, foi uma zombaria satírica de um cartaz do Ukip, do tipo que as pessoas tuitam todos os dias.

Os policiais lhe disseram para retirar o tuíte, disse ele, e garantir que não contaria a ninguém sobre essa visita sinistra. Como um verdadeiro britânico nascido livre, Abberton se recusou. Depois que os policiais foram embora, ele se perguntou como a polícia havia encontrado seu endereço, se não está em seu perfil no Twitter, e por que tinham vindo à sua casa em um sábado à tarde para ameaçá-lo, só porque seu tuíte tinha ofendido um vereador do Ukip.

"Aqui não é a Alemanha de 1930", disse a polícia de Cambridgeshire ao tentar explicar sua intimidação. Isso dificilmente foi tranquilizador. Se policiais usam a defesa de "pelo menos não somos tão ruins quanto Hitler", todo abuso que fique aquém de iniciar uma guerra mundial torna-se permissível.

E o Ukip vai encorajar os abusos. O caso de Abberton mostra que os supostos defensores do senso comum em linguagem simples estão mais que dispostos a ligar para a emergência para calar seus críticos. O pior da direita continua imitando o pior da esquerda ao ecoar o grito de autocomiseração de que é vítima de uma vasta conspiração da elite.

Exceto que desta vez a conspiração não é entre patriarcado ou neoliberalismo, mas qualquer um que se envolva no vigoroso debate. (Você pode presenciar o que acontece com Farage quando adequadamente examinado, como foi na semana passada por James O'Brien na LBC.)

Farage começou a choradeira quando anunciou que a mídia tinha provocado uma "tempestade de ódio" contra o Ukip. Com "provocar" ele quis dizer que uma imprensa livre havia examinado as generosas despesas de políticos do Ukip e contado ao eleitorado sobre suas opiniões políticas. Farage foi em frente e disse que seus adversários, o Unidos Contra o Fascismo e o Esperança Não Ódio (HNH), eram organizações lideradas por trabalhistas e financiadas por contribuintes que o ameaçavam com violência. Ele era um dissidente perseguido: um Mandela moderno de blazer e calça de veludo. Farage não mencionou que o Unidos Contra o Fascismo é um pequeno grupo conduzido pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas (SWP). Dificilmente alguém na extrema-esquerda, quanto menos o resto da sociedade britânica, se associou a ele desde que seus membros mulheres revelaram como o partido calou suas acusações de que delegados do SWP as haviam estuprado.

Enquanto isso, longe de ser um bando de valentões, a Esperança Não Ódio é uma organização inspiradora. Nunca foi violenta. Não é liderada por trabalhistas. Como poderia ser? Até recentemente, Ed Miliband evitou um confronto com o Ukip e desperdiça seu tempo criticando Nick Clegg [líder dos liberais democratas], que, apesar de todas as suas falhas, pelo menos sabe que Farage deve ser combatido. A maioria dos seguidores do Esperança Não Ódio é de esquerda, mas ele trabalha com os conservadores e os liberal-democratas.

Na época em que Farage parecia mais anti-UE do que anti-imigrantes, o Ukip disse que estava feliz em trabalhar com ele também e discutir como localizar infiltrados da extrema-direita. Nick Lowles, fundador do Esperança Não Ódio, me diz que ele soube que o Ukip ía na direção errada quando o então executivo-chefe do partido deixou de comparecer em uma reunião.

Não é o que o Esperança Não Ódio faz, mas como ele faz que importa. Ele não diz que o Ukip é um partido fascista. Ele não amaldiçoa todos os defensores do Ukip como racistas. Em vez disso, ele vai às ruas e discute. Na época da eleição, milhares de apoiadores terão entregado jornais de oito páginas em vários milhões de residências.

Seus artigos falam em um inglês simples que a esquerda acadêmica não consegue dominar sobre como partidos inescrupulosos usam o ódio contra estrangeiros para desviar a atenção da necessidade de salários mais altos e melhores empregos.

Certamente, eles mencionam os políticos do Ukip que jantam muito bem às custas do público e suas atitudes em relação a mulheres, negros e gays. Mas isso é política democrática, e não uma questão de polícia, e se Farage não puder lidar com a política democrática ele deve buscar um ofício menos exigente.

Que tantas pessoas na esquerda e na direita queiram punir adversários nos fala uma de duas coisas. Pode ser que os britânicos pensem que a discussão é um meio muito fraco para expressar sua nobre reprovação e que só a punição pode saciar sua fúria. Nesse caso, eles não sabem que a discussão pode ser forte, irrestrita, tão vulgar quanto se quiser e devastadora. Ou pode ser que grandes partes da sociedade britânica não saibam mais discutir e só consigam proibir.

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