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Irã: Acordo nuclear

O Ponderado ceticismo do professor

por Gianni Carta publicado 30/11/2013 09h58, última modificação 01/12/2013 10h38
Especialista em Oriente Médio, o professor Eldad Pardo da Universidade Hebraica de Jerusalém, o premier Benjamin Netanyahu deve alertar sobre “os perigos das negociações”
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O professor Eldad Pardo em entrevista à TV

CartaCapitalComo o senhor interpreta a frase de Netanyahu de que o acordo nuclear interino é um “erro histórico”?

Eldad Pardo: A opinião do premier israelense é importante no atual contexto porque ele revela ao mundo os perigos dessas negociações. Acordos, e já tivemos vários, no início são permeados de otimismo. Começa com um acordo interino e as questões espinhosas são resolvidas depois.  Numerosos observadores achavam que os Acordos de Oslo levariam à paz entre palestinos e israelenses. À medida que as negociações avançaram instalou-se, porém, um clima de desconfiança. Cada campo tentou impor suas condições e um tentou passar a perna no outro, visto que as conversas se revelaram infrutíferas. O mesmo poderá acontecer novamente. Existe uma diferença entre o contexto doméstico e aquele de política Exterior. Portanto, não podemos descartar fissuras internas, como ventos liberais, que poderão impedir o prosseguimento de negociações por parte do Teerã.

CC: Está pessimista?

EP: Quero ser otimista, como tentei ser na época dos Acordos de Oslo. Mas sempre mantive certa cautela. De positivo temos o seguinte: nos próximos seis meses de negociações o Irã não atacará Israel. Dito isso, sobram ambiguidades. Há uma cláusula segundo a qual o Irã concorda em agir segundo o protocolo. Agir segundo o protocolo significa o quê? Outro tema preocupante é que esse parece ser um acordo interino entre inimigos, não uma reconciliação, segundo o Guia Supremo, Ali Khamenei. Ao que parece, os linhas-duras querem antes de tudo relaxar as sanções econômicas.

CC: Acredita nas intenções de os iranianos quererem aprovar uma resolução permanente?

EP: Acredito. E todos os poderes mundiais compartilham esse desejo. É um sucesso diplomático a Rússia e os EUA estarem juntos nesse processo. Quando trabalham em uníssono, ganha fluidez o processo rumo à paz.

CC: O presidente Hassan Rohani é um modernizador?

EP: Lembre-se que Khamenei tem a última palavra. Outros presidentes tentaram mudar a Constituição. Queriam que o presidente eleito tivesse o poder real e o Líder Supremo se tornasse um protagonista simbólico. Rohani é muito esperto em relação à democratização do Irã. Fala em abertura, mas ao mesmo tempo é leal ao Líder Supremo. Esse modo de agir do presidente pode ser lido de duas maneiras. Poderia ser uma maneira inteligente de fazer avançar a democratização. Ou seria ele um fantoche nas mãos de Khamenei?

CC: Rohani pelo menos não tem feito um discurso antissemita como seu predecessor, Mahmoud Ahmadinejad.

EP: Ahmadinejad não começou esse discurso. Ele apenas o tornou público. Na sua visita a Nova York, Rohani não admitiu abertamente a existência do Holocausto, que é negado no Irã. Em um recente discurso, Khamenei negou a existência do Holocausto. Para as autoridades iranianas, os judeus inventaram o Holocausto. Negar a existência do Holocausto faz parte da ideologia dos iranianos.

CC: O senhor crê que o Irã poderá, após a conclusão do acordo interino, se sentir mais forte para agir com o Hezbollah para defender Bashar al-Assad na Síria?

EP: Haverá, creio, uma coordenação entre os EUA, a Rússia e o Irã. Tentarão resolver essa crise à custa da Arábia Saudita, isto é, do mundo sunita. O Irã também causou o genocídio na Síria. E juntamente com o Hezbollah, Teerã forçou Assad a não fazer compromissos. Assad não poderia sobreviver sem o apoio do Irã e da Rússia.

CC: Mas o Irã abrirá mão de sua política expansionista?

EP: É improvável. A ideologia da República Islâmica é pan-islâmica é antiocidental. O objetivo é remodelar o Oriente Médio à sua imagem. Por isso se aliam a movimentos radicais como os sunitas do Hamas, em Gaza. É um casamento para disseminar a ideologia anticolonialista do Irã.

CC: Há quem diga que Barack Obama quis selar um acordo com o Irã porque nos seus dois mandatos ele não teve nenhum êxito no Oriente Médio. O senhor concorda?

EP: É possível olhar para o quadro de ângulos diferentes. Por um lado, os Estados Unidos não parecem ser leais a aliados como a Arábia Saudita. Os EUA ficaram de braços cruzados quando o regime sírio usou armas químicas contra a oposição. Washington comete erros sistemáticos. Um exemplo clamoroso foi a falta de apoio aos manifestantes do Movimento Verde, em 2009. Se os norte-americanos apoiam movimentos democráticos deveriam ter agido contra Assad. No momento, o futuro das negociações com o Irã permanece uma incógnita. De qualquer forma, até agora os iranianos levaram a maior parte do bolo.