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O pan-arabismo renovado?

por Gianni Carta publicado 09/02/2011 09h27, última modificação 25/10/2011 11h52
Os caminhos abertos por Egito e Tunísia na visão do especialista. Por Gianni Carta
O pan-arabismo renovado?

Os caminhos abertos por Egito e Tunísia na visão do especialista Ahmad Moussalli, professor de Ciências Políticas e Estudos Islâmicos da Universidade Americana de Beirute. Por Gianni Carta. Foto: Issam Kobeisi/Reuters

Os caminhos abertos por Egito e Tunísia na visão do especialista

A tampa da panela saltou, mas seu conteúdo continua em ebulição.” Palavras de Issa Goraieb, pena ágil do diário libanês L’Orient Le Jour. Goraieb refere-se ao Cairo, a Túnis e outras capitais de países árabes, onde massas demandam a queda de seus déspotas nas ruas.

“Espero uma mudança nesses países”, me diz Goraieb. “Mas será que depois teremos outras ditaduras?” E o Líbano, embora aqui o premier-designado Najib Mikati tente formar um governo, entra na mesma equação. Para Goraieb, o sunita Mikati, escolhido pelo Hezbollah, agirá em nome da Síria e do Irã, países que financiam e apoiam politicamente o movimento xiita.

As revoluções a sacudir o mundo árabe anunciam a chegada de um novo pan-arabismo, sugere Ahmad Moussalli. O professor de ciências políticas e estudos islâmicos da Universidade Americana de Beirute acredita, porém, que o cerne do problema ainda continua sendo o conflito entre a Palestina e Israel. Mas, por ora, o premier israelense, Benjamin Netanyahu, comporta-se como um “imperador global”.

CartaCapital: Como o senhor avalia as revoluções e quais desfechos podemos esperar?
Ahmad Moussalli
: Entramos numa nova era no mundo árabe. Lembra quando Condoleezza Rice, então secretária de Estado dos EUA, falou no começo de uma revolução no Oriente Médio, em 2006? Pois é, a revolução começou, mas não do modo desejado pelos americanos. Este é um novo e revolucionário Oriente Médio, não mais aquela região com países com regimes moderados e submissos aos Estados Unidos. Fala-se em um pan-arabismo como aquele de Gamal Abdel Nasser, líder da revolução de 1952 e modelo de líder nacionalista secular. Essas revoluções não são religiosas.

CC: Vários observadores comparam uma queda de Hosni Mubarak, no Egito, com aquela do xá do Irã, em 1979. E desde então reina um regime integrista islâmico naquele país.
AM
: O caso do Irã é diferente dos atuais porque lá a revolução foi xiita, não sunita. Os xiitas têm sua própria interpretação teológica da política. Trata-se de uma teocracia na qual Deus governa através de estruturas religiosas. Para os sunitas, o homem governa, não Deus, e o governo pertence ao povo. Ou, pelo menos, deveria pertencer ao povo. E lembre-se: 90% dos muçulmanos são sunitas, e 10% ou menos são xiitas. Talvez a exceção no mundo muçulmano seja Bahrein, onde 80% da população é xiita. Mesmo assim, a principal base naval dos EUA na região encontra-se no Bahrein.

CC: Por que a revolução de 1979 no Irã é associada ao Islã?
AM
: Por causa de um excelente trabalho da mídia global, como o das redes de tevê 24 horas. E no Oriente Médio, Israel também faz uma excelente campanha midiática. Quem luta contra Israel são forças negativas, terroristas oriundos de países repressivos. Mas o Egito de Mubarak, a Jordânia, a Autoridade Palestina, enfim, todos aqueles a não representar uma ameaça para Israel, são descritos como democráticos. Israel, além disso, dá as cartas na região. Cito um exemplo. Após o 11 de Setembro, a família Bush e cia. deveriam ter atacado a Arábia Saudita para lá eliminar o wahabismo, verdadeira fonte do radicalismo. No entanto, preferiram atacar Sad­dam Hussein, o ditador que o Ocidente apoiou anos a fio na sua luta contra o Irã. Os motivos da escolha? Saddam estava se tornando muito forte, e Israel não aceita outro regime forte na região. E havia, claro, o interesse pelo petróleo da região por parte de Bush e cia.

CC: Como vê o desfecho da revolução no Egito?
AM
: É difícil fazer previsões, mas terá efeitos tremendos em outros países da região. Aquilo que acontecer no Egito determinará se outros regimes árabes ficarão de pé ou cairão. Creio na chegada de um novo regime egípcio voltado mais para países árabes, e muito menos para Israel e os Estados Unidos. Mas esse medo no Ocidente parece exagerado. Ele tem sido também por Hosni Mubarak. O líder egípcio diz ser Teerã a alternativa ao seu regime. Mas, como vimos antes na Tunísia, e agora no Egito e em outros países, o mais importante era escutar o povo.

CC: E, contudo, o diálogo com o Egito e o mundo árabe continua confuso...
AM
: Os ocidentais estão com medo que Mubarak fique no poder e com medo do povo no poder. Estão confusos porque durante três décadas Mubarak foi o homem dos americanos a mediar entre israelenses e árabes. Sem Mubarak, Israel fica sem parceiros na região. Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, também depende do líder egípcio. Uma coisa é certa: esperávamos muito mais de Obama no Oriente Médio. E ele falhou. Nem sequer consegue colocar um fim nos assentamentos em território palestino. Enquanto isso, Obama abriu as portas da Casa Branca para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que se comporta como o imperador do mundo. A posição do Ocidente tem raízes no sentimento de culpa pelo Holocausto – e isso é compreensível. Mas a política de Washington no Oriente Médio não pode se basear nesse sentimento. E agora os israelenses estão a cometer um Holocausto contra os palestinos. E nós, árabes, vemos imagens terríveis diariamente.

CC: O que pode ser feito para melhorar a relação entre Washington com as capitais árabes?
AM
: O cerne dos problemas entre árabes e americanos ainda é o conflito entre palestinos e israelenses. Mubarak vendeu o mundo árabe por 1,5 bilhão de dólares anuais. Claro, Mubarak e sua família agora dispõem de milhões de dólares. E a mulher do ex-tirano da Tunísia chegou à Arábia Saudita com 1,6 mil quilos de lingotes de ouro. Isso sem contar os bilhões de dólares bem guardados em bancos no Exterior. Enquanto isso, os EUA falam em direitos humanos, democracia. Os americanos estão antagonizando 1,5 bilhão de muçulmanos para agradar a Israel. E veja: não acredito na eliminação de Israel. Creio na busca pela paz na região. Os Estados Unidos, repito, não podem criar boas relações com os povos no Oriente Médio sem resolver o problema na Palestina.

CC: Como o Líbano, onde há Parlamento e imprensa livre, difere dos outros países árabes em ebulição?
AM
: Enquanto eles querem se desfazer de seus regimes, nós queremos formar um governo não sectário. Ele tem Estado paralisado em vários setores por motivos políticos, mas também por corrupção e nepotismo. Aí desponta alguém com possibilidade para fazer algo, como o ex-premier Saad Hariri. Inábil, ele se cercou de gente sem experiência política e iniciou projetos de privatização para ganhar dinheiro. De qualquer forma, aqui não há urgência para se fazer uma revolução. Nem sequer sabemos quem quer se rebelar contra quem. A única maneira de resolver o nosso problema é tornando nosso sistema político secular.

CC: E assassinatos políticos, como o de Hariri, não escasseiam. Por conta dessa morte há seis anos caiu o governo de seu filho Saad. Ele não aceitou rejeitar as investigações sobre a morte do pai e de mais 22 pessoas sendo realizadas pelo Tribunal Internacional para o Líbano, em Haia. Quem matou Hariri?
AM
: O plano do Tribunal é encurralar e eliminar o Hezbollah, considerado um movimento terrorista pelos americanos – e suposto responsável pela morte de Hariri. O Hezbollah não tinha motivos para assassinar Hariri porque coexistiam desde 1982. Israel fez o possível para colocar a culpa no Hezbollah com base no seguinte dado: havia oito celulares supostamente do Hezbollah em funcionamento na zona onde foi morto Hariri. Mas veja: o Mossad penetrou nos serviços de telecomunicações do Líbano. Conseguem, por exemplo, duplicar celulares, e até reproduzir transcrições de telefonemas que nunca existiram. Esses dados implicando os donos dos celulares do Hezbollah foram entregues e aceitos pelo Tribunal. Mas o Hezbollah também entregou fotos de aviões israelenses sobrevoando o comboio de automóveis de Hariri na hora da explosão. A Corte da ONU não aceitou os documentos do Hezbollah. Em minha opinião, Hariri, homem corrupto mas bom político, estava ganhando demasiada estatura no mundo árabe como sunita moderno e influente no processo de paz. Seus assassinos fazem parte de uma rede, possivelmente composta de libaneses e sírios.

CC: O Hezbollah tem agora grande força no governo do primeiro-ministro-designado Najib Mikati. O Hamas foi eleito em Gaza, e os Irmãos Muçulmanos costumam angariar 20% dos votos no Egito. Esses grupos representam uma ameaça para a região?
AM
: O elemento central é saber se eles aceitam fazer parte do Estado civil. As três formações estão prontas a aceitar as regras do Estado, incluindo as eleitorais. São extremistas porque querem, e abro e fecho aspas, um Estado Islâmico Purificado. Buscam um califado, a sharia (código de leis do islamismo) etc. São catalogados como radicais não por conta dessas crenças, mas porque lutam contra Israel – e contra interesses americanos. E no mundo árabe, os EUA são tidos como aqueles com poder para influenciar Israel. Porém, Washington parece apoiar a arrogância e desumanidade de sucessivos governos israelenses.

CC: O senhor parece achar positiva a presença do Hezbollah no atual governo libanês.
AM
: Sim. E na verdade eles nunca quiseram fazer parte de governos. Preferem permanecer às margens do Parlamento e do Gabinete, a focar nas suas forças de combate, no sul do Líbano, contra Israel. Conseguiram fazer Israel se retirar de um terço do Líbano. E se lutam para tirar os israelenses de seu território são chamados de terroristas. Foram levados a participar do governo de união nacional após a morte de Hariri.

CC: Vários observadores dizem que o Hezbollah é uma ferramenta do Irã e da Síria, que o usam indiretamente na luta contra Israel.
AM
: O Hezbollah é um parceiro júnior. Recebe significativo apoio financeiro do Irã e apoio político da Síria. Mas é uma agremiação libanesa. Aceita o Líbano como nação, e a defende com armas. Tem excelentes relações religiosas e políticas com o Irã. Os maronitas também desfrutam de ótimas relações com o Vaticano, um Estado. A autoridade máxima para os maronitas está, de fato, no Vaticano. Mas isso não torna os maronitas menos libaneses. E nem os integrantes do Hezbollah.

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