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Internacional

Imperador Francês

O novo Napoleão

por Gianni Carta publicado 23/01/2009 23h49, última modificação 25/10/2011 13h39
Sarkozy teria quase o 1,68 metro de Napoleão

Sarkozy teria quase o 1,68 metro de Napoleão

Nicolas Sarkozy seria o novo Napoleão Bonaparte, como a imprensa européia tem dito, quase sempre de forma caricatural? Pela primeira vez, um livro lançado neste mês, intitulado La Marche Consulaire, do jornalista francês Alain Duhamel, cataloga as semelhanças entre os dois. A lista é, de fato, infindável, embora várias comparações sejam conhecidas até pelos paralelepípedos da Place de la Concorde.

Napoleão e Sarkozy são apresentados como homens irrequietos, temperamentais, teatrais, com rasgos de afetação. Sarkozy teria quase o 1,68 metro de Napoleão. No início do século XIX, era uma estatura razoável, mas foi reduzida por hábeis caricaturistas britânicos, responsáveis pela afirmação do que hoje é conhecido como “complexo de Napoleão”. Contudo, não sejamos revisionistas, relevantes são as imagens que atravessam os séculos.

Além da estatura semelhante, Napoleão e Sarkozy são filhos de pequenos (não necessariamente em altura) nobres estrangeiros, portanto, totais outsiders na alta sociedade francesa. Donde o pendor, cultivado por ambos, pelo kitsch, somado à terrível veneração por dinheiro e uma irrefreável ostentação.

Impaciente, Napoleão tirou, em 1804, a coroa das mãos de Pio VII na Catedral de Notre-Dame e se autocoroou imperador. Em seguida, coroou sua mulher, Josefina. Enquanto pouco mais da metade do povo jubilava com sua vitória nas presidenciais de 2007, Sarko comemorou com seus amigos ricaços no Le Fouquet’s, um dos restaurantes mais caros de Paris.

Tendo em vista essa obsessão em controlar suas próprias imagens, Napoleão criou dois jornais, fundamentais para exaltar suas campanhas militares. Por sua vez, Sarkozy corteja e manipula os barões da mídia, e encontra grande prazer em posar para as revistas encontradas em cabeleireiros, como o semanário Paris Match. Na mesma publicação, o vimos na EuroDisney com sua futura mulher, la bella Carla Bruni, antes das núpcias.

Claro, mulheres, tanto no caso do imperador francês Bonaparte quanto no do atual presidente, foram instrumentais no processo de ascensão ao poder. E atingidas suas metas, Napoleão e Sarkozy se separaram, por motivos diferentes. Josefina, consta, teria ficado estéril, sem poder dar à França um herdeiro. A segunda mulher do imperador, Maria Luisa da Áustria, pôs no mundo um filho, Napoleão II, que faleceu criança.

Já Cécilia, a segunda mulher de Sarkozy, parecia cultivar outros interesses em Nova York. Entra em cena Carla Bruni, ex-modelo e filha de endinheirada família italiana. Foi criticada pela society que Sarko tanto preza, devido ao fato de ser italiana, ter um filho e vivido casos com uma série de celebridades. Mas Carla Bruni-Sarkozy, por sua beleza, elegância e francês impecável conquistou o país.

Duhamel, o autor do livro, restringe as semelhanças entre o jovem Bonaparte da época do estabelecimento do Consulado, primeira fase do governo de Napoleão como Primeiro-cônsul (1799-1804), e os vinte meses iniciais de Sarkozy na Presidência. 

O jornalista evita assim comparações entre o imperador Napoleão (1804-1815), quando este tornou-se um tirano derrotado na Batalha de Waterloo, e Sarkozy. O Napoleão em evidência é aquele que lançou as sementes do moderno Estado francês: Código Civil, o franco, escolas públicas e colégios para formar elites.

A França do Primeiro-cônsul era um centro de tensão entre a burguesia insatisfeita com os processos dos jacobinos. Ao mesmo tempo era temida por monarquias européias, receosas do surgimento de movimentos semelhantes ao da revolução de 1789 em seus reinados.

Duhamel sustenta que Napoleão reconciliou a ordem apreciada pelos roialistas e conservadores e, ao mesmo tempo, modernizou a França, atendendo, assim, a um pedido das esquerdas. Da mesma forma, Sarkozy seria original por pretender manter a ordem e modernizar uma economia pouco flexível. Mas a promessa-chave de Sarko nas eleições – aumentar o poder aquisitivo – é irrealizável, ao menos até o final do mandato, dentro de três anos.

O livro de Duhamel compara, de forma positiva, os dois homens. Duhamel não pode fazer prognósticos sobre o legado de Sarkozy. Isso, claro, seria mergulhar num mar de surrealismos. Mas o jornalista, um ser conservador, é político. Quer, mesmo pela caricatura, agradar a Sarkozy. Eis outra demonstração do poder do atual presidente francês.