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O leão desdentado

Com as independências, a Iugoslávia ficou reduzida aos territórios da Sérvia, Montenegro, Voivodina e Kosovo. Voltou então o sonho eslavo da Grande Sérvia, mas com a limpeza étnica
por Wálter Maierovitch publicado 05/06/2011 09:13, última modificação 05/06/2011 09:29
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Interessada em ingressar na União Europeia, a Sérvia, pelo seu presidente, Borislav Tadic, no poder desde junho de 2004, formulou pedido de adesão em 22 de dezembro de 2009. Àquela altura, não mais era problema Slobodan Milosevic, ex-presidente, extraditado para Haia em junho de 2001 e falecido na prisão em decorrência de um infarto em 2006. Mais ainda: o governo sérvio havia cumprido, em julho de 2008, o mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia com relação ao ideólogo Radovan Kradizic. Apelidado de “Mimoso” pelos seus penteados extravagantes, Kradizic foi preso e extraditado para Haia em nove dias.

Com o prazo fatal de cumprimento de metas fixado pela UE em 2014, o presidente Tadic percebeu que, sem a extradição do ex-general Ratko Mladic, com prisão imposta pelo tribunal em 1995, o pedido de ingresso na Comunidade Europeia não seria deferido.

Com as independências, em 1991, da Eslovênia, da Croácia, da Macedônia e, em 1992, da Bósnia-Herzegovina, a Iugoslávia ficou reduzida aos territórios da Sérvia, Montenegro, Voivodina e Kosovo. Voltou então o sonho eslavo da Grande Sérvia, com a limpeza étnica dos islâmicos, retomadas dos enclaves e conquistas da Bósnia-Herzegovina e da Croácia. O quarteto sonhador da Grande Sérvia era formado por Slobodan Milosevic, presidente, Ratko Mladic, general do Exército, Radovan Kradizic, ideólogo, e Goran Hadizic, líder sérvio na Croácia, que conquistou um terço do seu território e proclamou a independência da região de Krajina. Para tanto, executou 7 mil resistentes.

Divididas as tarefas, o quarteto iniciou, em junho de 1991, a guerra com a Croácia. Um conflito que resultou em perto de 15 mil mortes. Na Bósnia, iniciada a guerra na primavera de 1992, morreram 103 mil, incluídos 55.261 civis. Mais de 10 mil albaneses e 3 mil sérvios faleceram no enclave islâmico do Kosovo. Com a intervenção da Otan para estancar o banho de sangue, foram realizados bombardeios aéreos e atingidos, por engano e mortalmente, 495 civis, quase todos sérvios.

A Guerra dos Bálcãs findou formalmente em novembro de 1995 com o tratado de paz assinado nos EUA. E a Resolução 872 do Conselho de Segurança das Nações Unidas criou o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia. Um tribunal com competência para os crimes de genocídio, de guerra, contra a humanidade e demais violações à Convenção de Genebra de 1949.

O tratado não conteve, porém, a fúria sanguinária do vértice sérvio. Com estratégia concebida por Karadzic e execução- dos generais Mladic e Zdravko Tolimir (preso e extraditado), militares e milicianos invadiram o enclave de Srebrenica (Bósnia Oriental). Lá massacraram 7,5 mil muçulmanos do sexo masculino e promoveram estupros coletivos.

Para chegar a Srebrenica, os homens de Mladic contaram com a covardia dos soldados holandeses a serviço das Nações Unidas e destacados para proteger o enclave islâmico. Sobre o genocídio, o tribunal lançou histórica decisão: “As forças sérvio-bósnias, com o objetivo de eliminar parte dos muçulmanos estabelecidos na Bósnia, escolheram Srebrenica por ser um enclave emblemático. Primeiro, dominaram os muçulmanos do sexo masculino, adultos e jovens, tiraram os seus pertences e apreenderam as suas cédulas de identidade pessoal. Depois, mataram todos, deliberada e metodicamente”.

Em maio de 2005, a destemida procuradora Carla del Ponte exibiu aos juízes do tribunal um filme sobre os massacres em Srebrenica. Um fotógrafo amador, com risco, fez a histórica filmagem: as mulheres, várias estupradas, eram expulsas de suas casas, jogadas em caminhões e obrigadas a deixar a região. As crianças, os adolescentes e os adultos do sexo masculino foram executados depois de amarrados com as mãos para trás.

Em 26 de maio, o presidente Tadic confirmou, com base em exame de DNA, a prisão de Mladic, que nega participação em Srebrenica. Nem a manifestação dominical de um bando de nacionalistas fanáticos, a alegação de três íctus cerebrais, de dois infartos e períodos de perda de memória convenceram a Corte sérvia de apelação a impedir a extradição de Mladic. Só falta agora prender Goran Hadizic.

Para ganhar tempo, o tribunal estuda juntar o processo de Kradizic, de 65 anos, ao de Mladic, 69 anos, pela conexão e iguais acusações. Com relação a Mladic, existe, como prova inconteste de genocídio, uma gravação de ordem, por rádio, para o bombardeio do bairro de Velusci (Sarajevo-Bósnia). Mladic, na gravação, diz à tropa para ficar despreocupada, pois entre os civis a ser eliminados não havia- nenhum sérvio.

Perante o Tribunal Internacional foram acusadas 161 -pessoas. Até agora, 43 foram condenadas e oito absolvidas. No curso do processo faleceram seis réus.

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