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Crise europeia

O individualismo da Alemanha

por Gabriel Bonis publicado 21/11/2011 10h52, última modificação 21/11/2011 16h40
País mantém crescimento estável, mas bloqueia ações anticrise capazes de prejudicá-lo e impõe sofrimento austero a vizinhos em troca de financiamento
angela merkel

Angela Merkel fala em “pior momento da Europa desde a Segunda Guerra Mundial”, quando alemães sequer sentiram os efeitos da crise na região: Foto: AFP

 

Enquanto a possibilidade de um colapso econômico parece cada vez mais próxima de países como Espanha e Itália, a Alemanha mantém-se longe desta realidade. O país, que lidera os esforços para controlar a crise da dívida pública europeia com rígidas medidas de austeridade, considera este o “pior momento da Europa desde a Segunda Guerra Mundial”, nas palavras da chanceler Angela Merkel. Algo contraditório, pois grande parte dos alemães sequer sentiu os efeitos da turbulência global.

Prova disto são os altos índices de consumo da população e uma arrecadação acima das previsões pelo governo, fato que faz a coalizão no governo considerar inclusive um corte em torno de 6 bilhões de euros (cerca de 14 bilhões de reais)  em impostos. Além disso, o crescimento do país continua estável.

Segundo dados da Eurostat, órgão de estatísticas da União Europeia, a Zona do Euro cresceu apenas 0,2% no terceiro trimestre de 2011, enquanto o PIB alemão avançou 0,5% em comparação ao período anterior e 2,5% acima do registrado na mesma época do último ano. Enquanto isso, Grécia e Portugal apresentam sinais claros de recessão e a Espanha tem crescimento nulo.

Os resultados concretos da Alemanha vêm de uma estrutura particular, explica Júlio Sérgio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, capaz de ampliar a competitividade para se defender da recessão. “O país mantém um nível de crescimento contínuo por ser mais industrializado, mas deve perder ritmo no quarto trimestre porque a Europa não pode acompanhá-lo.”

Na tentativa de reverter esse cenário, a Alemanha exige dos vizinhos em crise cortes orçamentários e de funcionários públicos, além de reformas em aposentadorias. Medidas que destacam a importância do país na concessão de empréstimos, seja por meio do fundo europeu de resgate ou via bancos nacionais. A exposição das instituições financeiras alemães à dívida grega, por exemplo, chega a cerca de 20 bilhões de euros.

Para receber apoio financeiro germânico é preciso seguir as demandas do país, que, segundo Almeida, são equivocadas e devem dificultar a recuperação dos membros da Zona do Euro. “É preciso reduzir o ônus dos Estados endividados e criar um plano de relançamento econômico conjunto, pois não haverá efeitos com programas fiscais individuais.”

Além da intransigência na política externa, o diário norte-americano The New York Times aponta como equívoco a confiança alemã na capacidade dos demais integrantes do continente em utilizar o seu bem sucedido modelo de exportação. De acordo com o jornal, essa análise ignora que por décadas países como a Grécia se endividaram em fundos para comprar bens de consumo alemães.

A “expansão” da Alemanha e suas propostas anticrise já despertam em líderes europeus e na população de diversos países críticas a essa dominação e ao papel de fiadora vilã do continente. A população grega já se mostrou descontente com as exigências germânicas e manifestantes saíram às ruas de Atenas carregando bandeiras azuis da União Europeia com suásticas amarelas no centro, comparando os acordos da dívida à ocupação do país pelas tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Kai Enno Lehman, PhD em Relações Internacionais e professor da Universidade de São Paulo, diz que o governo alemão “não deseja dominar o continente”, mas precisou assumir a liderança regional devido à gravidade da crise, tendo inclusive sido criticado pela ausência no início da turbulência econômica. “Angela Merkel também precisa lidar com considerações domésticas, entre elas uma opinião pública que questiona se os alemães devem pagar pela crise dos outros.”

A forma como o país encara a União Europeia (UE), aponta o especialista, também influi na pressão aos vizinhos. “A Alemanha enxerga a UE como um tratado prático para facilitar interesses econômicos do país e não como um projeto histórico”, diz. E completa: “A UE é um instrumento político e nada mais.”

Um posicionamento individualista evidenciado nas discussões para tentar evitar o contágio de economias-chave na região. A Alemanha reagiu energicamente contra a compra de novos títulos da dívida de países do continente pelo Banco Central Europeu (BCE), uma medida capaz de aliviar a pressão em alguns Estados, mas que também traria riscos de aumento inflacionário na Zona do Euro.

Algo que, entre outros efeitos, poderia diminuir o poder de compra dos alemães e prejudicar um importante setor da economia germânica. “A Alemanha é campeã em políticas para sustentar sua capacidade competitividade”, destaca Almeida. “É desejável que o país lidere um conjunto de medidas para beneficiar também uma estratégia para a Zona do Euro.”

Entretanto, com uma economia registrando no terceiro trimestre de 2011 o maior nível de emprego desde a reunificação em 1990, ou 41,2 milhões de trabalhadores registrados, o país não parece disposto a ceder.

Na reunião do G20 no início de novembro em Cannes, diversos relatórios propunham a autorização ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para reforçar os recursos do fundo de resgate à Europa com as reservas de ouro alemãs. “Nossas reservas devem permanecer intocáveis”, retrucou imediatamente o vice-chanceler e ministro da Economia da Alemanha, Philipp Rösler.

O fundo de estabilidade conta atualmente com 440 bilhões de euros para empréstimos e o acordo da cúpula da UE para ampliar os valores até 1 trilhão de euros começa a emperrar. Por isso, o BCE, que não possui relação direta com o fundo, trabalharia com a estratégia alternativa de emprestar dinheiro ao FMI. A instituição, por sua vez, ficaria responsável por resgatar os países da Zona do Euro em situação critica, pois o BCE é proibido de financiar diretamente governos da região.

Fora do Euro

O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, deve apresentar uma proposta à cúpula de líderes da Zona do Euro em dezembro, concedendo maiores poderes à União Europeia. Entre os novos mecanismos estão a possibilidade de intervir nos orçamentos nacionais, suspender o direito de votos de Estados que desrespeitem a disciplina fiscal e a criação do eurobônus.

A iniciativa, no entanto, deve exigir mudanças no tratado da União Europeia, que possivelmente enfrentariam objeções alemãs. O país, no qual diversos líderes defendem inclusive a independência de seu Banco Central, não deve aceitar intromissões em suas contas. Além disso, a Alemanha parece ter outra solução para garantir a sobrevivência da moeda única.

O partido de Merkel, a União Democrata Cristã, aprovou uma resolução pedindo que o governo estabeleça normas na Europa para permitir que países deixem voluntariamente o euro sem sair da União Europeia. Essa escolha garantiria o mesmo status dos países-membros sem a moeda única.

Para ter valor prático, o texto precisa ser aprovado no Parlamento alemão e pelos demais membros da União Europeia. Algo que Lehman considera possível caso o país pressione pela adoção da medida. “A Alemanha pode impor uma eventual mudança nas regras do euro de acordo com seus interesses.”

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